Escala Global
Patriarca critica Trump por "tentar retirar cidadania" à Igreja, mas diálogo é "indispensável"
08 mai, 2026 • Alexandre Abrantes Neves , Lara Castro (vídeo) , João Campelo (sonorização)
Em entrevista à Renascença, D. Rui Valério avisa que ataques do Presidente Donald Trump criam "perigo profundo" e "descaracterizam" os Estados Unidos" – mas pede à Igreja postura de "diálogo e união". Quanto a Portugal, considera que a postura sobre a guerra tem sido adequada e ajuda a "construir pontes" entre EUA e Europa. Sobre a base das Lajes, o patriarca diz ter "mais perguntas do que respostas".
Donald Trump está a tentar “retirar cidadania” ao papel do Papa e a Igreja deve responder-lhe com uma mensagem de “diálogo” e de “união”. O patriarca de Lisboa não poupa nas críticas ao tom utilizado pelo Presidente dos Estados Unidos para se referir a Leão XIV, mas apela aos católicos para não “multiplicarem divisões”.
“Antes de irmos para a frontalidade, pelo amor de Deus, sigamos o exemplo do Papa Leão, e vamos dialogar. Vamos fazer emergir, não coisas que nos separam, que nos dividem, mas, pelo amor de Deus, vamos dar força naquilo que nos une. O mundo precisa de união: já está tão dividido, que se nós continuarmos a multiplicar divisões, contrastes…”, considera D. Rui Valério no programa Escala Global da Renascença, numa entrevista ainda antes do encontro entre o Papa e o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio.
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D. Rui Valério avisa, no entanto, que a abertura de portas ao diálogo não “inibe” uma palavra “profética de condenação” das críticas de Donald Trump, que já chegou a afirmar que Leão XIV é "terrível", coloca “muitos católicos em perigo” e “ajuda o Irão".
Na leitura do patriarca de Lisboa, estas palavras representam uma “instrumentalização” da figura de Cristo e uma “descaracterização” da fundação dos Estados Unidos, alicerçada em valores como a liberdade religiosa. Nos inúmeros apelos à paz e à contenção no Médio Oriente, o Papa não tem feito mais do que exercer esse direito – e mostrar uma postura “evangelizadora” ao mundo.
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"Esse discurso tem lugar, esse discurso tem direito. Agora, quando se quer reduzir tudo ao campo da política, isso é muito perigoso, significa que se está a retirar cidadania à própria dimensão religiosa e espiritual. Há aqui um perigo profundo.”
Para o comentador da Renascença, Manuel Poêjo Torres, a tensão criada por Donald Trump contra o Vaticano prova a necessidade de o líder norte-americano assistir a “lições de humildade”.
“Quando a América se coloca em primeiro lugar em todos os domínios de interação humana, o diálogo e a caridade são ultrapassados e esmagados. Este é o problema do século XXI e esperemos que não faça escola na Europa, porque era só o que nos faltava, ter também políticas amorais”, sublinha.
EUA precisam de "maturidade no humanismo" da Europa
Alemanha, Espanha, Reino Unido, até a aliada Itália com Giorgia Meloni. A falta de resposta positiva nos pedidos de ajuda para a reabertura do Estreito de Ormuz ou a recusa na utilização de bases militares para a ofensiva no Irão fizeram Donald Trump apontar a mira e começar a penalizar os países europeus que lhe deram uma nega.
Mas, para D. Rui Valério, nada disto é surpreendente: trata-se, antes, da concretização das ameaças do primeiro mandato de Trump e que já “faziam prever o pior” – o “desdém” pela Europa.
“A Europa parece que está um pouco arredada, não por vontade própria, mas está a ser arredada por outras forças, por outras potências. E isso, eu digo com toda a clareza, nós não podemos aceitar”, considera.
Nos pratos da balança, D. Rui Valério não vê ninguém a sair beneficiado: a Europa perde por ficar sozinha a defender o “património comum de valores e princípios” do Ocidente, os Estados Unidos por se afastarem da “maturidade” europeia.
“Necessitam dos nossos cientistas, da nossa história, e, sobretudo, da nossa maturidade no humanismo. Não é que os americanos não o tenham, mas os princípios consagrados, por exemplo, numa carta de declaração dos direitos humanos, foram plasmados graças a tanta história, drama, guerra, martírio, cujo sangue foi derramado aqui na nossa terra, no nosso solo.”
Quanto a Portugal, D. Rui Valério faz uma avaliação positiva da postura portuguesa de “equilíbrio” – e acredita que pode facilitar entendimentos dentro da NATO. “Portugal e os portugueses têm um savoir-faire, um saber, de construir pontes entre partes muitas vezes desavindas. É uma espécie de laboratório de fraternidade”, afirma.
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Esta posição não é alterada pelo tema da base das Lajes. D. Rui Valério diz não ter conhecimento suficiente para tomar uma posição, mas admite que a utilização do complexo militar não tenha fugido à norma e àquilo que se fazia ainda antes da guerra no Médio Oriente.
“Não detenho todos os pontos e papéis do que ali se passa. Ao longo do ano e das décadas em que o regime das Lajes tem sido este, provavelmente agora agiu-se como se tem agido sempre, noutras ocasiões. Tenho mais perguntas a fazer do que respostas a dar”.
Guerra justa é "mal menor"
A porta foi primeiro aberta pelo Papa Francisco e depois novamente por Leão XIV. O Vaticano tem-se mostrado disponível vezes sem conta para mediar negociações de paz, seja no Médio Oriente, seja na Ucrânia. Formalmente, nunca se chegou a sentar à mesa das conversações, mas o patriarca de Lisboa vinca que isso não significa que a Santa Sé esteja “à margem” dos esforços de paz.
“A Santa Sé continua a trabalhar na sombra, longe dos holofotes, longe das ribaltas, e, graças a isso, algumas coisas acontecem. Não se fala, não é convocado, não faz parte da lista oficial, mas a diplomacia da Santa Sé continua muito ativa, até por uma outra razão. É que a Igreja Católica, concretamente, tem uma presença no terreno, que é universal. Faz aquele caminho da formiguinha, devagar, devagarinho, pouco a pouco, em silêncio”.
Seja na Ucrânia ou no Médio Oriente, D. Rui Valério lamenta que certos governantes continuem a achar que existem “países de segunda” e que tentem legitimar conflitos dessa forma. Essa é também parte da raiz do problema entre Israel e o Irão, mas sobre esse conflito D. Rui Valério prefere falar com “muito respeito” e longe de análises de “sofá”.
“É natural que as próprias decisões e reações, muitas vezes, nos pareçam, aos olhos do Ocidente, privadas de alguma racionalidade, tendo como referência para os direitos humanos, o princípio da justiça, da tolerância, da boa convivência”, afirma. “A verdade é que temos ali dois países que não se entendem, dois países que constituem, um para o outro, uma ameaça”.
Na leitura do Patriarca, há preocupações vindas de ambos os lados do conflito – por um lado, o Irão preocupa por “fazer sofrer os seus cidadãos” e por “patrocinar grupos de terrorismo internacional”; por outro, a resposta de Israel também não totalmente legítima.
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“A famigerada expressão de guerra justa tem muitos séculos de existência. Quando é evocada, é – e eu estou a usar aqui a expressão muito cautelosamente –, de entre todos os males, parece ser aquele que é o mal menor, para justificar avanços e recuos da Humanidade e entre os países”.
Quanto aos conflitos na Ucrânia, em Gaza e no Sudão, D. Rui Valério mostra-se preocupado pela falta de atenção mediática nas últimas semanas. A solução? Mais do que estar “preocupado”, pensar em ações concretas, que vão desde a oração até a campanhas de solidariedade.
“É uma obrigação que temos, de rezar pelas populações, de fazer tudo por tudo para afirmarmos a nossa proximidade. Tão atroz quanto o sofrimento da guerra é, de repente, saberem e sentirem-se que estão sozinhos. Mesmo que estejam quatro na mesma casa, na mesma sala, há um sentimento de estar ali sozinho. A qualquer instante, o fim de cada uma daquelas pessoas pode acontecer”.
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