Sexta-feira, 08 de janeiro de 2021
D. António Couto
À boca da cena continuam ainda hoje a anunciar a realização do drama em três atos: “Liberdade, igualdade, fraternidade”. É certo que cresceu o caudal da liberdade: Muitos muros caíram, muitas cadeias se abriram, muitos presos saíram para as praças da cidade, e cantaram com os pardais a canção da liberdade.
E é também verdade que as páginas da igualdade se espalharam por toda a parte, desde a escola ao trabalho, à família, desde a Terra a Marte. Mas a fraternidade, Senhor, por que tem tanto bolor, por que não chegou ainda a ver o dia, e sofre de renitente paralisia?
Não chegou nem algum dia chegará, explica bem o filósofo francês Jean-Luc Marion: pela liberdade, podemos lutar; e o mesmo se pode dizer da igualdade. Mas, em contraponto, pela fraternidade não adianta lutar, porque a fraternidade não se conquista; a fraternidade recebe-se, Irmão nasce-se.
Um irmão não se define por aquilo que é, por aquilo que tem ou por aquilo que vale, mas por aquilo que lhe é feito, antes e independentemente da sua vontade. A fraternidade supõe um Pai, E é por isso que a sociedade laica não pode produzir a fraternidade, porque se funda precisamente sobre a ausência de Pai.
Ensina-nos, Senhor, a receber, primeiro, o teu amor.
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