A+ / A-

MúsicaPT

David Fonseca: “A IA cria a ilusão de que fazer música ou imagens é simples”

14 março 2026 • Carlos Bastos


David Fonseca falou com Carlos Bastos sobre streaming, inteligência artificial, concertos, paternidade e o novo álbum em português. Entre disciplina, autocrítica e vontade de arriscar, o músico mostra que continua a trabalhar com a mesma curiosidade de sempre, agora com mais método e ainda sem vontade de repetir fórmulas.

David Fonseca no MúsicaPT

“Ainda falta muito para nós, para o streaming ser justo para todos.”

David Fonseca olha para a transformação da indústria musical com naturalidade e sem nostalgia excessiva. Reconhece que o streaming mudou a forma de descobrir e ouvir música, e admite que havia um lado mais misterioso no passado, quando se sabia menos sobre os artistas e os discos. Ainda assim, prefere aceitar o presente como ele é. Diz que hoje ouve muito mais música do que ouvia há alguns anos, mas sublinha que o modelo continua longe de ser justo para todos os criadores. Para ele, essa é uma luta que tem de ser feita em conjunto, por músicos, associações e sociedades de autor.

“Eu olho para a inteligência artificial como uma ferramenta.”

Sobre inteligência artificial, David Fonseca recusa uma visão alarmista. Entende-a como mais uma ferramenta, comparável ao impacto que o sampler teve noutras épocas. A diferença, diz, é que a IA cria facilmente a ilusão de que fazer música ou imagens é simples. Na prática, nota que muitos resultados acabam por soar ou parecer demasiado semelhantes. O problema não está apenas na tecnologia, mas na falta de singularidade que muitas vezes deixa à vista.

“As pessoas não vão aos espetáculos ouvir uma canção. As pessoas vão participar de uma coisa que está a acontecer.”

Esta ideia ajuda a explicar a forma como hoje pensa os concertos. David Fonseca considera que o público procura cada vez mais uma experiência coletiva, com momentos que se vivem e se recordam, mais do que um simples alinhamento de canções. Lembra que, no início, subir ao palco era quase só tocar e sair, muito por causa da timidez. Hoje vê o espetáculo como um todo, com enredo, participação, lado visual e memória partilhada.

“Eu não acredito em inspirações súbitas e, se existirem, prefiro anotar.”

A conversa passou também pelo equilíbrio entre vida pessoal e trabalho. Pai pela terceira vez, o músico diz que, apesar das viagens e dos concertos, há espaço real para ser um pai presente, sobretudo num mercado como o português. No seu caso, esse equilíbrio é reforçado por trabalhar muito a partir de casa, onde tem estúdio. Também deixou para trás a rotina noturna. Hoje prefere horários mais regulares, trabalhar de manhã e à tarde, e reservar a noite para descansar ou viver outras coisas. Quando surge uma ideia fora de horas, toma nota e volta a ela no dia seguinte.

“Prémio Pedro Osório foi uma honra enorme.”

Ao falar do atribuído pela SPA, David Fonseca assumiu a importância pessoal da distinção. Recordou a relação que teve com Pedro Osório no arranque da sua carreira, numa altura em que foi chamado a participar em reuniões da SPA para ajudar a pensar uma instituição mais moderna e mais próxima de novas gerações. Ser o mais jovem a receber este prémio tem, para si, um simbolismo especial, porque mostra que a distinção pode olhar para o presente e para o futuro, não apenas para o passado.


David Fonseca, Sem Pensar Duas Vezes
David Fonseca, Sem Pensar Duas Vezes

“Mais de 80% das coisas que eu faço nem sequer vêm à luz do dia.”

Esta visão liga-se a uma exigência muito alta consigo próprio. David Fonseca explica que o novo disco em português está a ser trabalhado com tempo e paciência, porque só quer lançar canções que resistam ao seu próprio filtro. Muitas ficam pelo caminho. O processo não passa tanto por reescrever infinitamente, mas por deixar as músicas repousar e perceber se, meses depois, ainda fazem sentido. Se não sobreviverem a esse teste, não avançam.

“Eu sou o pior crítico de mim próprio.”

Essa autocrítica ajuda, diz, a relativizar as críticas externas. Ao contrário de muitos artistas, não sente que essas leituras o atinjam da mesma forma, porque já foi mais duro consigo do que qualquer comentário vindo de fora. Para David Fonseca, criar é também esse exercício de depuração, de deixar cair muita coisa até perceber o que realmente merece ficar.

“A única coisa que nos ligava, a mim de 15 ou 16 anos, é que o meu entusiasmo continua intocável.”

Um dos momentos mais reveladores da entrevista surgiu quando falou de umas cassetes antigas gravadas na adolescência. Ao ouvi-las, não sentiu nostalgia no sentido clássico. Não encontrou aquela emoção calorosa de revisitar o passado. O que encontrou foi outra coisa, o entusiasmo de um adolescente comprometido com a vontade de fazer música. E foi precisamente essa energia que reconheceu como permanente em si. Diz que continua a fazer música por causa desse impulso quase infantil de querer experimentar, mesmo sem garantias de acerto.

“O trabalho de um músico é procurar problemas novos.”

É também por isso que encara este novo álbum em português como um desafio importante. Brinca ao chamar-lhe “o difícil segundo disco”, porque, apesar dos muitos anos de carreira, só fez um disco totalmente em português, “Futuro Eu”, em 2015. Agora quer voltar a essa língua, mas sem facilitismos. Para David Fonseca, escrever em português não abre portas fáceis, traz problemas novos. E é exatamente isso que o interessa, fugir ao automatismo e procurar formas de não fazer mais do mesmo.

“Queria que o espetáculo fosse cada vez mais longínquo daquilo que é o espetáculo de música ao vivo.”

A fechar, levantou um pouco o véu sobre os concertos em Lisboa e no Porto, onde vai apresentar grande parte do novo disco, sem esquecer canções do passado. O objetivo é claro, afastar-se cada vez mais do formato tradicional do concerto e construir um espetáculo com percurso, imagem, storytelling e ambição visual. No fundo, transformar a música num objeto mais largo, mais envolvente e mais próximo de uma experiência total.
Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.