MúsicaPT
Mimicat: “Encontrei o meu lugar”
• 25 abril 2026 - Carlos Bastos (Realizador)
No MúsicaPT, Mimicat falou com o Carlos Bastos sobre o novo single, “A Minha Gente”, da forma como foi aproximando a soul e a Motown da sua portugalidade, do caminho longo até encontrar uma voz própria em português e das várias vidas que foi vivendo pelo meio, da música ao imobiliário. Entre raízes, aprendizagem e persistência, a artista mostra-se hoje mais segura do que quer dizer e de como o quer dizer.
“Eu quis prestar homenagem à minha gente.”
“A Minha Gente” nasce como uma continuação natural de uma pesquisa que Mimicat já vinha a fazer. Depois de “Santa”, a artista sentiu que fazia sentido aprofundar a ligação às raízes, à mãe, à família e às pessoas que ajudaram a moldar a sua maneira de estar no mundo. A nova canção surge precisamente como homenagem a esse núcleo afetivo e humano, que ela vê também como um espelho muito português.
A ideia não era falar apenas da sua família em sentido estrito, mas de uma gente que representa um certo retrato do país, das relações, da forma como crescemos e nos tornamos quem somos.
“A música não tem profundidade nenhuma, esta mensagem não pode ser passada desta forma leviana.”
Apesar de a escrita ter fluído com naturalidade, o processo não foi linear até ao fim. Mimicat contou que a primeira versão da música tinha um ritmo completamente diferente, mais próximo de uma linguagem latina e afro. Quando ouviu as primeiras propostas de produção, percebeu que o caminho não era aquele. Sentiu que a canção estava leve demais para o peso da mensagem que queria transmitir.
Voltou então ao piano para reconstruir os acordes e o ambiente da música, até encontrar o tom certo. Só nessa altura sentiu que a canção tinha verdade e profundidade suficientes para avançar.
“Eu tinha uma visão muito específica, sabia como é que eu queria que ela soasse.”
A produção foi depois trabalhada com Filipe Survival e Duarte Carvalho, numa parceria em que houve continuidade, mas também um olhar fresco. Mimicat diz que, por vezes, quando duas pessoas já trabalham juntas há muito tempo, chegam a um ponto em que deixam de conseguir ver novas possibilidades. A entrada de Duarte ajudou a abrir o som e a levar a música para um lugar que, acredita, não teria sido alcançado apenas a dois.
“Eu encontrei o meu lugar na forma de expressar a minha portugalidade, mas sem perder esse lado da soul music.”
Um dos temas mais interessantes da conversa foi precisamente a forma como Mimicat descreve a sua identidade musical. A artista reconhece que há uma linha contínua entre as referências que a formaram, sobretudo a soul e a Motown, e esta vontade mais recente de escrever em português e tocar temas profundamente ligados ao universo português.
Para ela, não se trata de abandonar um lado para abraçar outro. Trata-se de encontrar uma mistura pessoal. As influências internacionais continuam lá, no arranjo, no balanço, na estética, mas o centro emocional da canção passou a ser cada vez mais português.
“Fugir desse género é um sacrifício para mim.”
Mimicat admite que demorou a chegar aqui. Durante muito tempo, cantar em português nem sequer lhe parecia uma hipótese. Foi a exploração de vários géneros e o caminho feito ao longo dos últimos discos e singles que lhe permitiram descobrir esse lugar intermédio, onde consegue juntar o que sempre ouviu àquilo que hoje sente que quer dizer.
“A mudança maior foi a que ninguém viu acontecer.”
Quando o Carlos Bastos perguntou se a grande transformação tinha sido a passagem do inglês para o português, Mimicat respondeu que essa foi apenas a mais visível. A verdadeira mudança, diz, aconteceu por dentro, na forma como passou a olhar para o meio artístico, para a escrita, para as canções e para a maneira de comunicar com quem a ouve.
Essa transformação foi, para ela, a parte mais interessante do percurso. Mais do que mudar de língua, foi preciso aprender a chegar às pessoas e a encontrar a forma certa de fazer passar a mensagem.
“Isso para mim tem sido a caminhada (…) mais gratificante. Conseguir fazer chegar as canções às pessoas.”
Na sua leitura, o meio artístico português é pequeno, muito talentoso, mas também difícil, porque nem sempre há espaço para toda a gente. E quem começa entra muitas vezes com uma visão idealizada da indústria. O crescimento passa por perceber melhor as regras do jogo, entender o que funciona para si e descobrir onde está o seu público.
“Eu fui uma criança muito livre.”
A conversa passou também pela infância em São Martinho do Bispo, em Coimbra, onde cresceu numa rua que ainda guardava espírito de aldeia. Mimicat recorda uma infância solta, passada na rua, a brincar, a ir às compras sozinha, com uma liberdade que sente já não existir da mesma forma para os miúdos de hoje.
Mais tarde, estudou Engenharia do Ambiente, mas foi aí que percebeu que esse não era o caminho. Depois da experiência nos Ídolos, mudou de direção e foi estudar som e imagem para as Caldas da Rainha.
“Desde os 9 estou virada para a música.”
A ligação à música, no entanto, vem muito de trás. Começou a gravar ainda criança, depois de uma atuação na festa de final da escola primária ter chamado a atenção de vários adultos à volta. A partir daí entrou cedo num circuito de estúdios, produtores e tentativas, mas nem tudo correu bem. Houve tropeções, decisões erradas e experiências menos felizes.
“Andei ali um bocado aos trambolhões.”
Aos 15 anos chegou a fartar-se e quis viver uma adolescência normal. Mais tarde, já com os Casino Royale, voltou a encontrar um espaço importante para desenvolver escrita, imaginário, postura em palco e persona artística. Foi um período decisivo para a artista que viria a tornar-se.
“Eu pensei em desistir 500 vezes.”
Mimicat também mostrou a sua face mais quotidiana e mais frontal. Falou dos dois filhos, da dificuldade em aproveitar o tempo com eles como gostaria e do fascínio que sente ao vê-los crescer, regularem emoções e tornarem-se pessoas. Continua a depositar esperança nas crianças e no que poderão vir a ser.
Pelo meio, recordou também os anos em que trabalhou no imobiliário, uma atividade de que gostava genuinamente e que só deixou porque a música passou a ocupar-lhe todo o tempo depois do Festival da Canção. Diz até que, se tivesse de voltar, faria esse trabalho com prazer.
“Eu adorei o trabalho (consultora imobiliária). É um trabalho que se eu não fosse cantora faria até ao final da vida.”
Essa experiência ajudou-a também a reforçar a ideia de que o percurso artístico raramente é linear. Há anos em que corre melhor, anos em que corre pior, e é muitas vezes nesses momentos mais difíceis que se aprende mais.
“Ninguém cresce no sucesso.”
É uma frase que vai buscar a Ed Sheeran, mas que assume como sua. Para Mimicat, cresce-se no erro, na dificuldade e na necessidade de arranjar soluções. É isso que a faz hoje olhar para trás com gratidão, mesmo para os anos mais duros.


















