MúsicaPT
Xutos & Pontapés: “A atitude era de borla”
• 9 maio 2026 - Carlos Bastos (Realizador)
No MúsicaPT, Tim, Kalú, João Cabeleira e Gui revisitaram com o Carlos Bastos os primeiros anos dos Xutos & Pontapés, a importância dos concertos, a entrada de uma formação decisiva, a memória de Zé Pedro e o lugar da banda na música portuguesa. Entre histórias de instrumentos improvisados, estrada, amizade e sobrevivência artística, ficou claro que a identidade dos Xutos & Pontapés nasceu de uma coisa simples: tocar, insistir e não perder atitude.
“A atitude era de borla.”
Tim, Kalú, João Cabeleira e Gui recordaram os primeiros anos dos Xutos & Pontapés como um tempo de aprendizagem, invenção e resistência. Antes de haver certezas, houve vontade. A banda passou por uma fase inicial de tentativa, erros, primeiras gravações e descoberta de linguagem própria. Tim recorda os primeiros singles e o primeiro LP, gravados com nomes ligados à Renascença, numa altura em que tudo ainda estava a ser construído.
“Até aí era uma balda. Ninguém sabia muito bem o que é que estava ali a acontecer.”
A entrada de Gui e João Cabeleira marcou, segundo Tim, uma viragem importante. A partir daí, com o disco “Cerco”, a banda ganhou uma direção mais clara. O saxofone de Gui, a guitarra de João Cabeleira e uma visão mais definida ajudaram a aproximar os Xutos & Pontapés daquilo que o público viria a reconhecer como a sua identidade.
“Antes de termos discos já tínhamos tocado em muitos concertos.”
Os concertos surgem como a verdadeira base da banda. Tim sublinha que tocar ao vivo sempre foi o centro da vida dos Xutos & Pontapés. Antes dos discos, já havia estrada. Depois dos discos, a estrada continuou. Ainda hoje, diz, a maior parte da atividade da banda passa pelos concertos. Os álbuns servem também para alimentar esse palco e renovar o repertório.
“Há sempre alturas onde, como somos vários, podemos mandar a vir uns com os outros à vez.”
Depois a conversa entrou na longevidade da banda. Tim, Kalú, João Cabeleira e Gui falaram do desgaste natural de muitas décadas juntos. Há divergências, diferenças artísticas e momentos de tensão, mas a regra parece clara: nada disso deve passar para cima do palco. A prioridade continua a ser a música e o concerto.
“As dissidências não devem nunca passar para cima do palco.”
A relação entre os elementos dos Xutos & Pontapés é tratada quase como um casamento longo. Há momentos bons, momentos difíceis e a necessidade permanente de gerir diferenças. Mas se a banda continua, é porque a ligação musical e humana ainda se mantém.
“Tenho saudades do meu amigo.”
Quando a conversa chegou a Zé Pedro, Gui resumiu tudo numa frase simples. O silêncio que se seguiu também disse muito. A ausência de Zé Pedro é descrita como um vazio que ficará sempre. Ao mesmo tempo, a música, a forma de estar em palco e a maneira de tocar continuam presentes.
“A banda persegue muito bem o espírito do Zé Pedro.”
Tim explicou que, depois de um período de luto, a banda encontrou forma de continuar respeitando o espírito, o som e a energia de Zé Pedro. Mesmo com outro guitarrista a tocar as suas partes, sente-se ainda a relevância do que ele construiu dentro dos Xutos & Pontapés.
“O Zé Pedro era o divulgador.”
A conversa lembrou também o papel de Zé Pedro como grande descobridor e divulgador de música dentro da banda. Comprava discos, revistas, seguia ligações entre músicos, estudava quem tocava onde e com quem. Tinha, nas palavras da banda, um verdadeiro culto da música rock.
“É um país maravilhoso.”
Depois de tantos anos a tocar de norte a sul, os Xutos & Pontapés conhecem Portugal como poucos. Falaram das diferenças entre públicos, da forma como o Norte é muitas vezes mais acolhedor e conhecedor, e da surpresa de perceber que o país continua, em muitos aspetos, pouco conhecido entre regiões.
“Vale muito a pena sair da autoestrada.”
Tim defendeu que Portugal se descobre melhor quando se sai dos caminhos óbvios. A banda foi aprendendo isso na estrada, através das pessoas, dos sítios, dos hábitos e das pequenas surpresas que aparecem fora dos grandes circuitos.
“Nunca nos sentimos realmente obrigados a ter que fazer alguma coisa igual aos outros.”
A seguir Tim falou da forma como os Xutos & Pontapés foram atravessando diferentes fases musicais sem perder identidade. Houve influências fortes, dos Red Hot Chili Peppers aos Guns N’ Roses, de Prince a outros universos, mas nunca houve a obrigação de copiar uma moda. Muitas vezes, até havia o cuidado de não repetir demasiado os próprios Xutos & Pontapés.
“Ao fim do processo soavam a Xutos & Pontapés.”
Mesmo quando uma música começava inspirada por algo externo, acabava por ganhar a marca da banda. Essa capacidade de absorver influências sem perder identidade ajuda a explicar a longevidade dos Xutos & Pontapés.
“O convívio entre músicos e o que pode nascer daí tem que ser divulgado.”
A conversa passou ainda pelo declínio das bandas e pela forma mais solitária como muita música é feita hoje, em casa, em frente ao computador. Tim reconhece essa mudança, mas defende que o convívio entre músicos, os ensaios, os concertos pequenos e os espaços onde as bandas podem nascer continuam a ser essenciais.
“É bem engraçado tocar ‘A Portuguesa’ e ‘A Minha Casinha’, de preferência quando Portugal ganha.”
A fechar, houve espaço para falar de “A Minha Casinha”, já quase hino não oficial em dias de seleção. A banda reconhece com humor o lugar especial que a canção ganhou, sobretudo quando Portugal vence e o país precisa de cantar em conjunto.


















