03 fev, 2026 • Tomás Anjinho Chagas
Miguel Poiares Maduro, antigo ministro do PSD, considera que a Ministra da Administração Interna, Maria Lúcia Amaral, "não se sente muito à vontade" na "comunicação política", na sequência das declarações públicas da governante sobre a depressão Kristin.
Durante o programa Conversa de Eleição, da Renascença, o social-democrata descreve a ministra como uma "pessoa intelectualmente superior", mas assume que Maria Lúcia Amaral "tem tido dificuldades" no momento de comunicar.
"A Ministra da Administração Interna - que é uma pessoa intelectualmente superior e que eu recomendaria para imensas funções - do ponto de vista da comunicação política, é uma pessoa que, claramente, não se sente muito à vontade. E isso não deixa de ser uma componente importante do exercício de funções, e ela tem tido dificuldades com isso, parece-me óbvio", afirma Poiares Maduro.
Do outro lado da mesa, Fernando Medina, antigo ministro das Finanças do PS e ex-presidente da Câmara de Lisboa, estabelece um padrão de "ausência de capacidade política flagrante" da ministra da Administração Interna.
Medina lamenta o que considera ser uma "enorme incapacidade em comunicar" e "alheamento" sobre alguns temas que tutela.
Já segue a Informação da Renascença no WhatsApp? É só clicar aqui
Sobre a reação do Governo a toda esta crise, Miguel Poiares Maduro reconhece que "nunca haverá preparação suficiente" para uma das "maiores tempestades de sempre em Portugal". No entanto, avisa: "Isso não quer dizer que nós não pudéssemos ter feito mais em termos de prevenção e que não pudéssemos ter feito mais na resposta imediata àquilo que aconteceu".
O antigo ministro de Passos Coelho lembra que provavelmente este tipo de fenómenos metereológicos vão ser mais frequentes em Portugal e reconhece que houve falhas na comunicação: "O Governo não reagiu muito bem ao nível comunicacional, não foi eficaz, isso foi óbvio". Quanto à resposta do Executivo no geral, acredita que melhorou nos últimos dias, com o anúncio dos vários apoios por parte de Luís Montenegro.
"O Governo agiu bem, quer ao nível da liderança que atribuiu a este processo, quer ao nível da amplitude de apoios que anunciou e dos meios financeiros que mobilizou para esses apoios", defende Miguel Poiares Maduro.
Tempestade Kristin
"O sistema é complexo e as entidades coordenadores(...)
Opinião diferente tem Fernando Medina. O antigo ministro das Finanças faz uma "avaliação negativa" da resposta do Executivo à destruição provocada pelo temporal.
O socialista reconhece que se trata de um fenómeno "severo" e que seria sempre impossível evitar os estragos. No entanto, vinca que havia sinais de que a depressão Kristin iria ter efeitos extremos, e não houve preparação suficiente. "Em algumas áreas como não houve níveis de preparação adequados", assinala.
Para sustentar a acusação, Fernando Medina pega no caso dos caças portugueses que sofreram danos (ainda inestimáveis), na base aérea de Monte Real, no concelho de Leiria.
"Eu fiquei chocado quando vi a fotografia do hangar onde estavam os F-16, que são equipamentos caríssimos, e que vimos como é que estavam protegidos", atira o antigo dirigente socialista, que diz, era "uma evidência" que tinham de ser retirados desta base.
Fernando Medina sentencia: "Quanto à cultura de prevenção, ainda temos bastante que andar".
No que toca à avaliação dos dois candidatos presidenciais nesta crise, Miguel Poiares Maduro defende que ficaram evidentes as diferenças entre António José Seguro e André Ventura. Reconhecendo que é sempre difícil "não ser acusado de ignorar ou tentar explorar" os temas, o antigo ministro do PSD e professor universitário considera que as ações de André Ventura caíram mal junto das populações afetadas.
"Parece-me até que correu mal do ponto de vista político para ele, porque a própria reação das populações ou dos bombeiros, por exemplo, onde ele foi, foi negativa, porque sentiram que poderia estar a existir esse aproveitamento", diz Poiares Maduro, referindo-se às imagens em que André Ventura aparece a fazer uma recolha de donativos para as populações afetadas.
O antigo ministro-adjunto e do Desenvolvimento Regional, entre 2013 e 2015 - que foi um dos signatários não-socialistas de um manifesto de apoio a António José Seguro -, considera que o antigo secretário-geral do PS manteve um registo "mais contido" nas ações de campanha em plena crise.
"Voltou a ser clara a distinção política. O perfil político dos candidatos voltou a manifestar-se na forma como reagiram a esta tragédia", afirma Poiares Maduro.
Fernando Medina concorda e lamenta uma "capitalização agressiva e insultuosa para as pessoas".
"As imagens de André Ventura a colocar garrafas na parte de trás de uma carrinha, como se estivesse ali numa grande ação são ofensivas. É ofensivo para todos aqueles que estão no terreno", afirma o antigo presidente da Câmara de Lisboa.
Medina considera que o líder do Chega "sujeita tudo, mas rigorosamente tudo na vida, àquilo que venha a ser o seu ganho político".