Conversas na Bolsa
António Vaz Carneiro: “A ciência clínica tornou-se num espetáculo”
23 mar, 2026 • Isabel Pacheco
“Níveis baixos a moderados de consumo de álcool podem reduzir a mortalidade em comparação com a abstinência”, diz o investigador clínico convidado do Conversas na Bolsa, que debateu “mitos, crenças e mentiras sobre o impacto do consumo de álcool na saúde”.
O responsável pelo Instituto de Saúde Baseada na Evidência, António Vaz Carneiro defende que as políticas públicas de saúde devem bases científicas sólidas e alerta para o que diz ser o elevado grau de fraude na informação de saúde.
“O nível de ignorância e até de mensagens deliberadamente fraudulentas na saúde é muito grande”, começou por alertar o investigador clínico, esta sexta-feira, durante a sua intervenção na conferência “Conversas na Bolsa”, no Porto.
Para o professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, a área da nutrição é “o pior campo de todos” porque, explica, “não há evidência científica de boa qualidade e é muito difícil fazer estudos”. “A dieta normal tem dez mil componentes. Mexer num componente e dizer que aquilo teve aquele efeito decisivo é muito difícil”, apontou.
Como exemplo, António Vaz Carneiro apontou o estudo científico que associa o consumo de avelãs à longevidade. “Concluíram que se comêssemos 12 avelãs por dia, teríamos uma sobrevida de 12 anos. Um ano por avelã”, resumiu o médico referindo-se à conclusão publicada numa “revista muito conceituada”, embora sem dizer qual.
Outra análise, mencionada pelo investigador refere que “se comermos duas fatias de bacon durante a semana, três vezes por semana iremos perder cerca de dez anos de vida. Ora, se fumar dois maços de tabaco, só perco sete. Acham que é possível?”, questionou António Vaz Carneiro lamentando que vivamos “num ambiente em que tudo isto é muito escuro”.
O médico lamentou que a ciência clínica se tenha tornado num “espetáculo” que, ressalvou, também é de “modas” e pediu cuidado para de se evite extrapolar dados de estudos dando como exemplo os estudos que relacionam o consumo de álcool com o risco de doença.
“O consumo baixo a moderado pode ter um efeito protetor na mortalidade em comparação com os abstémicos vitalícios e o consumo excessivo de álcool, mais uma vez por semana, está associado a um risco aumentado de mortalidade de todas as causas”, explicou o investigador lembrando que a partir destas conclusões “não se pode aceitar extrapolações indevidas de dados de riscos muito pequenos para riscos muito grandes”, insistiu.
Portanto, acrescentou, “o resumo da evidência - um grande conjunto de evidências observacionais - sugere que níveis baixos a moderados de consumo de álcool podem reduzir a mortalidade em comparação com a abstinência”, rematou.
O investigador clínico - que fez parte do seu percurso profissional nos estados unidos - foi o convidado do “Conversas na Bolsa” dedicado à literacia na saúde. No Palácio da Bolsa debateram-se “mitos, crenças e mentiras sobre o impacto do consumo de álcool na saúde”.











