O legado da Economia de Francisco: "Um caminho sinodal que tem os jovens como protagonistas"
05 mai, 2025
Uma crónica de Carlos Figueira, da Nova SBE, a lembrar que "apesar da Páscoa do Papa, a missão da Economia de Francisco continua! Como ele tantas vezes nos disse, e demonstrou com a sua vida, todos estamos a caminho".
“Não nos ardia o coração, quando ele nos falava pelo caminho?”
Há duas semanas, vivemos a Páscoa do Papa Francisco, o líder mais marcante e carismático dos últimos 12 anos. O seu pontificado ficou marcado pela simplicidade, humildade e coragem com que o exerceu. Desde o primeiro momento, o Papa Francisco liderou pelo exemplo. Quando surgiu pela primeira vez na varanda de São Pedro e escolheu o nome Francisco, revelou de imediato a inspiração que guiaria o seu caminho: São Francisco de Assis. Foi uma decisão ousada, que anunciava um novo estilo de liderança — mais próximo, mais pobre, mais fiel ao Evangelho.
São Francisco foi um santo que amou profundamente Cristo e procurou imitá-lo em tudo. O Papa Francisco, fiel ao nome que escolheu, liderou com os olhos postos nos excluídos e marginalizados – aqueles que a sociedade descarta e trata com indiferença. Guiado por esse espírito, o Papa foi um incansável construtor de pontes, um promotor do diálogo e da paz, um defensor de uma cultura do encontro e da fraternidade universal. Com a simplicidade das suas palavras e a profundidade do seu testemunho, tocou o coração de crentes e não crentes, inspirando muitos a repensar a forma como vivem (eu incluído) – um verdadeiro pescador de homens. Foi, e continuará a ser, um farol de amor e esperança, num mundo onde há cada vez mais guerra e medo.
Ao recordar o seu pontificado, vem-me à memória o episódio em que Jesus convida Mateus a segui-Lo (Lc 5, 27-32). Mateus era um cobrador de impostos e, por isso, era rejeitado pelo seu próprio povo (era um descartado da sociedade), mas, ainda assim, Jesus chama-o para ser seu discípulo. Nesse momento, Jesus deixa claro que veio para todos, especialmente os que menos têm – os descartados da sociedade – ao apresentar-se como o médico que veio para os doentes, e não para os que têm saúde. Também o Papa Francisco apelava a uma Igreja para “todos, todos, todos”! Apelava a uma Igreja misericordiosa, que fosse um hospital de campanha e não uma alfândega, onde se seleciona quem pode entrar. Com profunda humildade, o Papa Francisco sempre foi o primeiro a assumir-se como pecador, refletindo na perfeição a parábola do fariseu e do publicano (cobrador de impostos). Nessa parábola (Lc 18, 9-14), o fariseu rejubila por não ser pecador como o publicano, enquanto que o cobrador de impostos pede a misericórdia de Deus por ser pecador. Ao contar esta parábola, Jesus declara que “quem se eleva será humilhado, e quem se humilha será elevado”. Pelo seu exemplo e testemunho, o Papa Francisco relembrava-nos constantemente este ensinamento.
Para mim, recordar o Papa Francisco é também recordar alguém que sempre demonstrou uma enorme confiança nos jovens, desafiando-os a serem protagonistas da mudança e artesãos da esperança. No seu pontificado, ousou propor-lhes um sonho: a Economia de Francisco – uma economia da vida, inclusiva, humana, justa e sustentável. Inspirada em São Francisco de Assis, esta é uma economia harmoniosa, onde ninguém é deixado para trás.
Desde a sua primeira exortação apostólica, Evangelii Gaudium, o Papa denunciou uma “economia que mata”, alicerçada numa cultura do descarte e da indiferença. Neste documento, o Papa também se assume como um homem de processos ao indicar que “o tempo é superior ao espaço”. Nesse sentido, Francisco foi um Papa que iniciou vários processos no seu pontificado, sendo um dos mais ousados e inovadores, o movimento The Economy of Francesco (EoF), iniciado há seis anos com uma carta escrita pelo Papa e que se dirigia aos jovens economistas, empreendedores e agentes de mudança. Nesta carta, o Papa desafia os jovens a reanimar a economia, devolvendo-lhe a sua alma.
Na sua encíclica 'Laudato Si’, o Papa Francisco relembrou-nos que a palavra “economia” tem na sua raíz o significado de “cuidado da casa” – a nossa Casa Comum – e que precisa urgentemente de recuperar as suas raízes humanas. Por isso, o objetivo é colocar no centro a pessoa humana e restituir a dignidade à economia.
A EoF assenta numa conversão ecológica integral, uma transformação dos nossos corações em direção a um amor maior por Deus, uns pelos outros e por toda a criação. Neste processo, somos chamados a cuidar não só da sustentabilidade ambiental, mas também da sustentabilidade social, relacional e espiritual, tal como o Papa relembrou aos jovens presentes no encontro da EoF em Assis, em setembro de 2022. É necessário reconhecer que a realidade é una e interligada. O grito dos pobres e o grito da Terra são um só (cf. Enc. Laudato Si’, 49). A crise relacional e a crise espiritual dos dias de hoje são uma só. O nosso mundo vive numa carestia de felicidade e está a degradar rapidamente o capital espiritual que foi acumulado ao longo dos séculos. Neste sentido, precisamos de construir uma economia integral e, a esse nível, São Francisco é uma fonte de inspiração preciosa.
É importante clarificar que a EoF não é um novo modelo económico nem um manual com respostas. É um caminho sinodal que tem os jovens como protagonistas. Neste processo, jovens de todo o mundo procuram não cair na armadilha das respostas imediatas, que correm o risco de serem parciais. Em vez disso, procuram respostas para os desafios que vivemos no mundo atual através do diálogo, do encontro e da escuta.
Profundamente tocados e com o coração em chamas, milhares de jovens de todo mundo responderam ao convite do Papa Francisco. A melhor forma de descrever o que estes jovens (nos quais me incluo) sentiram é recorrer às palavras dos discípulos de Emaús: “Não nos ardia o coração, quando ele nos falava pelo caminho?” (Lucas 24, 32).Como eles, também nós sentimos, de forma real e viva, a presença de Jesus a caminhar connosco — nas palavras e gestos do Papa Francisco — palavras que, como as de Cristo no caminho de Emaús, acenderam em nós o desejo de construir uma economia enraizada no Evangelho: mais justa, mais humana, mais fraterna, inspirada nos valores do cuidado, da dignidade e da esperança.
Nos últimos 6 anos, a comunidade que se formou desenvolveu-se e inúmeros projetos surgiram, desde uma academia para jovens investigadores (EoF Academy) ao projeto Farm of Francesco, que promove uma agricultura regenerativa, colocando o agricultor no centro. O desenvolvimento deste processo levou a que, em setembro do ano passado fosse criada uma fundação, The Economy of Francesco Foundation. Esta fundação vem conferir uma estrutura capaz de apoiar os projetos dos jovens desta comunidade, garantindo o acesso a novas oportunidades de colaboração e um dinamismo de mudança duradouro.
Apesar da Páscoa do Papa Francisco, a missão da EoF continua! Como ele tantas vezes nos disse – e demonstrou com a sua vida –, todos estamos a caminho. Todos somos peregrinos e o caminho a percorrer é poeirento. Para transformar o mundo atual, é preciso sujar as mãos, como fizeram Jesus e São Francisco. É encarnando que se pode passar da sujidade à pureza, da fragmentação à harmonia, construindo uma economia do Evangelho.
Que, seguindo o exemplo do Papa Francisco, também nós ousemos dizer como Jesus: tenho sede! Sede de justiça, fraternidade, alegria, paz e amor. Os jovens da EoF continuam com o coração em chamas (como os discípulos de Emaús) e continuarão firmes a desbravar caminho na procura de uma economia integral – uma economia mais humana, inclusiva, justa e harmoniosa. Queremos ser (e já somos) – tal como o Papa Francisco nos pediu – empreendedores de sonhos.
*Carlos Figueira é Mestre em Economia pela Nova School of Business and Economics, onde atualmente leciona enquanto Assistente Convidado. É também membro do movimento internacional “A Economia de Francisco”, inspirado em São Francisco de Assis e lançado pelo Papa Francisco, em 2019.



