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Opinião Católica-Lisbon

Líderes de protesto: um programa para quê?!

11 ago, 2025 • Luís Caeiro • Opinião de Luís Caeiro


O facto de a ligação às bases de apoio ser essencialmente emocional é a principal razão pela qual algumas destas lideranças não apresentam programas políticos abrangentes e detalhados que levariam ao veredicto do eleitorado.

As lideranças de protesto têm um longo passado histórico. Surgiram em períodos de crise, de opressão ou de grandes transformações sociais, para desafiar o poder, a ordem social dominante e contestar as instituições. São lideranças que se afirmam à margem das estruturas tradicionais (embora possam estar institucionalizadas), com discursos de rutura e grande capacidade de mobilização social. A história está recheada de exemplos: a revolta dos escravos liderada por Spartacus, na Roma Antiga, Thomas Muntzer, o teólogo da revolução que encabeçou a "Guerra dos Camponeses", no séc. XVI, as lutas contra o absolutismo e o colonialismo personificadas por Robespierre e Simón Bolivar, são alguns casos entre tantos outros. Eram lutas mobilizadas por líderes camponeses, profetas visionários, patriotas radicais ou cidadãos revoltados.

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Com a era industrial surgem as lideranças de protesto contra o capitalismo industrial e as condições de trabalho. Ganham especial significado as lutas sindicais e o anarquismo revolucionário representado por figuras como Emma Goldman e Luis Blanquis. Nos nossos dias, a liderança de protesto tem múltiplas expressões, apoiada nos meios de comunicação e nas redes sociais, associada a uma diversidade de causas políticas, sociais e ambientais. Podem ser lideranças personalizadas, mediáticas e transitórias como Alexei Navalny e Greta Thunberg, personalidades excêntricas como Beppe Grillo, lideranças partidárias integradas no sistema, como Marine Le Pen, mas também incluem as lideranças discretas de movimentos inorgânicos como a de Priscillia Ludosky com os Coletes Amarelos.

No passado recente, as lideranças de protesto estavam centradas nos movimentos sindicais e de esquerda radical, que lutavam pela melhoria das condições de trabalho, contra o capitalismo liberal e as desigualdades sociais. Nos últimos anos, o protesto deslocou-se para a extrema-direita e cresceu, em particular na Europa, com o aparecimento de movimentos como o Rassemblement Nacional, de Marine Le Pen, a Alternativa para a Alemanha, de Alice Weidel, a Liga, de Matteo Salvini, em Itália, o Partido da

Liberdade para a Áustria, de Herbert Kickl , o Partido da Liberdade de Geert Wilders, no Países Baixos, o Vox, de Santiago Abascal e o Acabou-se a Festa, de Alvise Péres, em Espanha, e o Chega, de André Ventura. As lideranças de protesto à esquerda têm perdido relevância política. Segundo dados do Authoritarian Populism Index-2024, a percentagem de votos, na Europa, dos partidos da extrema-esquerda com assento parlamentar, era de 7,3%, enquanto a extrema-direita atingia os 17,3%.

Estas lideranças canalizam a insatisfação popular com o funcionamento do sistema político, com os partidos tradicionais e o desempenho das democracias liberais. Propõem alternativas de rutura com as instituições e a "purificação" do sistema político, com o regresso à expressão direta da voz popular. São uma representação simbólica da indignação com as instituições políticas e os seus atores. Exprimem o inconformismo coletivo com o status quo, reclamam-se de uma forte autoridade moral e assentam a sua influência na mobilização emocional da opinião pública.

Apesar das muitas especificidades, as lideranças de protesto à direita apresentam algumas características em comum. Contestam as instituições da democracia liberal, os rótulos ideológicos e o papel dos média tradicionais, propondo uma refundação moral da política e das instituições. São movimentos centrados na figura carismática do líder que utiliza um discurso simples, direto e polarizador, com uma distinção clara entre o povo, "nós", e os "outros". Têm uma elevada capacidade de mobilização através de ações e narrativas impactantes. Geram identificação pela proximidade da linguagem e trazem para o espaço público os sentimentos de indignação vividos na esfera pessoal. A forte presença nas redes sociais promove a participação direta no debate e cria "bolhas fechadas" de opinião que acentuam a polarização.

Nestas lideranças a conexão com as bases não se faz pelos quadros ideológicos tradicionais, com estratégias reformistas ou planos de ação concretos. Faz-se pela identificação com as experiências do cidadão comum, e pela ressonância e amplificação de sentimentos de revolta, injustiça, abandono e decadência moral. É uma relação direta e emocional, apoiada em "bandeiras agitadoras" de forte efeito mobilizador.

A ligação emocional com os seguidores apoia-se em três temas com profundo significado existencial: a indignação com as injustiças do sistema político e com a crise moral das elites (quebra da ligação ao povo e corrupção), a insegurança física e psicológica associada às mudanças sociais (imigração e alterações demográficas), e a perda da identidade cultural e dos valores tradicionais (língua, história, família, crenças e moral social).

O facto de a ligação às bases de apoio ser essencialmente emocional é a principal razão pela qual algumas destas lideranças não apresentam programas políticos abrangentes e detalhados que levariam ao veredicto do eleitorado. O carácter vago, ambíguo ou mesmo contraditório do discurso, objeto de frequentes críticas, pode ser uma vantagem: permite-lhes atingir um conjunto mais amplo do eleitorado, não ficam vinculadas a compromissos específicos, podem posicionar-se com mais flexibilidade e oportunidade na dinâmica da vida política, reforçam a vertente emocional da comunicação e, ao mesmo tempo, permite que lhes sejam atribuídas competências não validadas.

Estas lideranças não têm vocação de governo, mas enfrentam um dilema: continuarem a mobilizar o protesto com bandeiras de causa e perderem a credibilidade por não apresentarem soluções, ou assumirem compromissos programáticos, integrarem governos e serem avaliadas pelo eleitorado, correndo o risco de perder a identidade e a ligação emocional às bases. É o preço que podem pagar por passarem do protesto à responsabilidade. Este dilema faz das lideranças políticas de protesto um fenómeno transitório? Os próximos tempos, em Portugal, vão ser um laboratório para testar esta tese.


Luís Caeiro, Professor da Católica Lisbon School of Business and Economics

Este espaço de opinião é uma colaboração entre a Renascença e a Católica-Lisbon School of Business and Economics

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