Opinião Católica-Lisbon
European Ocean Pact e os empresários portugueses: Top 5 de oportunidades na nova economia azul
18 ago, 2025 • Sílvia Almeida
O European Ocean Pact, apresentado pela Comissão Europeia em junho de 2025, redefine as regras do jogo e propõe um investimento histórico de €1 bilião na economia azul. Portugal, controlando cerca de 48% das águas marinhas em territórios adjacentes ao continente europeu, encontra-se numa posição única para transformar tradição marítima em liderança tecnológica e empresarial.
A revolução azul chegou à Europa com potencial para criar um impacto real. O European Ocean Pact, apresentado pela Comissão Europeia em junho de 2025, representa muito mais do que estratégia política. Estamos perante o maior investimento coordenado de sempre na economia oceânica: 1 bilião de euros dedicados à conservação, ciência e sustentabilidade marinha. Para nós, empresários portugueses, isto constitui verdadeiramente um mar de oportunidades para as próximas duas décadas.
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Portugal tem tudo para não se limitar ao papel de espetador nesta transformação – por uma vez, temos genuínas credenciais para ser dos atores principais. Controlamos 48% da totalidade das águas marinhas da União Europeia em espaços adjacentes ao continente europeu, temos uma Estratégia Nacional para o Mar 2021-2030 já em funcionamento (na realidade, desenvolvemos estratégias para o setor desde 2006), e possuímos conhecimento marítimo secular. Acredito profundamente que esta nova visão anunciada pela Comissão Europeia alinha perfeitamente com as nossas competências, tanto reais como potenciais.
Naturalmente, as oportunidades são vastas e seria impossível abordar todas. Como alguém que acompanha de perto esta área no âmbito da investigação académica, apresento aqui o top 5 das ideias mais promissoras que identifico neste contexto. Podem chamar-lhe a minha wishlist, se quiserem:
1. Digital Twin do Oceano: A nova fronteira dos dados marinhos
A criação do European Digital Twin of the Ocean até 2030 representa uma oportunidade de milhões de euros para empresas tecnológicas portuguesas. Esta réplica digital completa dos oceanos europeus necessitará de sensores IoT submarinos, sistemas de processamento de big data, inteligência artificial para análise preditiva e plataformas de visualização 3D.
As startups portuguesas podem especializar-se no desenvolvimento de sensores de baixo custo para monitorização contínua, algoritmos de machine learning para previsão de correntes e temperatura, ou interfaces de simples utilização para pescadores e navegadores. O potencial é imenso: estamos a falar da criação de um "Google Earth" dos oceanos, mas em tempo real.
2. Blue Generational Renewal: Formar o talento do futuro
A Blue Generational Renewal Strategy, uma das prioridades centrais do Pacto, abre portas a instituições de ensino, empresas de formação e consultoria especializadas. Portugal pode tornar-se o centro europeu de educação marinha, desenvolvendo programas de formação em tecnologias oceânicas, aquacultura sustentável e energias renováveis marinhas. Indo além da investigação tecnológica – e ‘puxando a brasa à minha sardinha’ - diria mesmo que a educação na área da gestão tem muito para desenvolver neste setor.
Imaginem academias especializadas em drones submarinos, bootcamps de análise de dados oceânicos, ou programas de mentoria que conectem jovens investigadores com empresários experientes. A EU Ocean Youth and Intergenerational Ambassador Network criará uma procura sem precedentes por este tipo de iniciativas.
3. Observação oceânica: O negócio dos olhos no mar
A EU Ocean Observation Initiative vai integrar e expandir os serviços EMODnet e Copernicus Marine Service, criando oportunidades para empresas que desenvolvam equipamentos de monitorização. Portugal pode especializar-se em drones submarinos autónomos, boias inteligentes com comunicação 5G, ou sistemas de radar costeiro para monitorização de tráfego marítimo.
Uma empresa portuguesa que desenvolva sensores de baixo custo para monitorização da qualidade da água pode encontrar mercado em toda a Europa. Outra que crie soluções inovadoras de manutenção preditiva para infraestruturas portuárias terá procura garantida nos 70.000 km de costa europeia.
4. Descarbonização marítima: A revolução verde do mar
O Pacto define metas ambiciosas para a descarbonização da economia azul, incluindo medidas para a transição energética nas pescas e aquacultura. Aqui reside uma oportunidade dourada para empresas que desenvolvam soluções de energia renovável para embarcações, sistemas de propulsão elétrica ou híbrida para barcos de pesca, e tecnologias de captura de carbono azul.
Portugal pode tornar-se líder europeu em retrofit de embarcações tradicionais com tecnologias limpas, ou no desenvolvimento de portos verdes que integrem energias renováveis, sistemas de gestão inteligente de energia e infraestruturas de carregamento para embarcações elétricas. Para os mais céticos que questionem a existência de espaço suficiente, a resposta é simples: há mais costa para além da portuguesa, e as competências são facilmente transportáveis.
5. Aquacultura 4.0: Alimentar a Europa de forma sustentável
A visão de longo prazo para pescas e aquacultura, que será apresentada em 2026, aponta para a automação e digitalização destes setores. Empresas portuguesas podem desenvolver sistemas de alimentação automática para aquacultura, sensores para monitorização da saúde dos peixes, ou plataformas de inteligência artificial que otimizem a produção.
A aquacultura celular – produção de peixe em laboratório – é outra fronteira com potencial disruptivo. Portugal pode posicionar-se como pioneiro europeu nesta tecnologia, aproveitando a sua tradição piscatória e competências científicas para criar as "quintas de peixe" do século XXI.
Está na hora de agir!
O contexto nunca foi tão favorável: há investimento público disponível, o cluster da economia do mar está em desenvolvimento, e as políticas europeias estão alinhadas. Mas aqui está a realidade – sem iniciativa e inovação empresarial, todo este ecossistema fica pela metade. Os governos criam condições, mas são as empresas que criam valor.
O European Ocean Pact estabelece a ambição e o anunciado Ocean Act de 2027 vai definir as regras finais, mas quem não estiver já no terreno ficará para trás. Enquanto muitos ainda estão à espera de que alguém lhes explique as oportunidades, as empresas visionárias já estão no terreno. A minha sugestão? Escolham a vossa área de intervenção, desenvolvam uma estratégia clara e um modelo de negócio sólido, estabeleçam uma parceria estratégica de investigação (se necessário) e comecem já.
A mensagem é clara: Portugal tem todas as condições para liderar a nova economia azul europeia, mas é preciso agir agora. As ondas da oportunidade estão a formar-se. Resta saber quem terá a coragem de as apanhar.
Sílvia Almeida, professora da Católica-Lisbon School of Business and Economics
Este espaço de opinião é uma colaboração entre a Renascença e a Católica-Lisbon School of Business and Economics
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