Silêncio, o nome de Deus
06 nov, 2025 • Alfredo Teixeira, antropólogo (UCP-FT)
Ler “Conversas sobre Deus” é entrar numa pedagogia do silêncio. O texto avança devagar, no ritmo de meditação filosófica. Cada página sugere uma renúncia: falar menos, esperar mais, olhar melhor.
Num tempo saturado de palavras, imagens e autoexposição, Byung-Chul Han propõe uma teologia da atenção. O livro “Conversas sobre Deus” é um apelo à escuta e à contemplação. É um convite a reencontrar, na experiência do silêncio, a dimensão espiritual que se perde nos labirintos da modernidade.
Na mais recente obra de Byung-Chul Han publicada em Portugal, “Conversas sobre Deus”, inscreve-se num amplo terreno do pensamento contemporâneo que escolhe a questão de Deus como um lugar de conversa acerca da nossa experiência do mundo. O filósofo coreano, há muito residente em Berlim, escreve sobre Deus não a partir de um lugar crente, mas a partir de um lugar de pensamento que pressente o vazio deixado pela sua ausência. Deus, aqui, é o silêncio que ainda resiste dentro do ruído.
A obra, dialogando com Simone Weil, desdobra-se em sete secções — Atenção, Descriação, Vazio, Silêncio, Beleza, Dor e Inatividade — e apresenta-se como uma meditação sobre a necessidade de reaprender a demorar-se. Han propõe uma espiritualidade negativa, feita de espera e escuta, que se opõe frontalmente à lógica do desempenho. O livro prolonga, sob outro registo, a crítica inaugurada em “A Sociedade do cansaço”, ou seja, a de que o sujeito contemporâneo vive sob o imperativo da autoexploração, prisioneiro da produtividade e da transparência. Persistindo no seu pessimismo metodológico, Byung-Chul Han acrescenta agora que essa aceleração é uma forma de exílio espiritual.
A atenção - conceito herdado de Simone Weil - é apresentada como a virtude perdida. Weil descreveu-a como “a forma mais rara e mais pura da generosidade”. Han vê nela uma disciplina interior que devolve profundidade ao mundo. A atenção é a antítese da voracidade informativa – não visa dominar, mas acolher. É uma forma de amor desarmado. Ao praticá-la, o sujeito suspende o eu e torna-se permeável à presença — um gesto de “descriação”, diria Weil, ou de despossessão, no vocabulário de Han.
Esta linha de pensamento insere Han numa corrente mais ampla de pensadores que, sem apelarem a uma nostalgia da religião, reconhecem a sua função espiritual irredutível. Alain de Botton, em “Religião para ateus”, defende que as tradições religiosas preservam práticas e rituais capazes de oferecer sentido, comunidade e consolo, numa cultura que idolatra o sucesso. Também Jürgen Habermas, no quadro do seu “pensamento pós-secular”, argumenta que as sociedades democráticas não podem dispensar as reservas morais e simbólicas da religião. Mas reconhece que as sabedorias religiosas são uma fonte válida, sem hegemonia, para a construção dos consensos de que as democracias necessitam. Nesta linha, Han reconhece que certas configurações secularistas empobrecem o imaginário e deixam o mundo espiritualmente plano.
Hartmut Rosa, por sua vez, em “Ressonância”, descreve a alienação moderna como perda da capacidade de vibrar com o mundo. A sua “sociologia da ressonância” aproxima-se bastante da espiritualidade de Han. Ambos procuram modos de reconectar o sujeito ao real, de restaurar uma reciprocidade entre o eu e o mundo. O silêncio, segundo Han é, de certo modo, o espaço onde essa ressonância se torna audível. Há alguns anos, de forma instigante, José Tolentino Mendonça propunha que o silêncio se tornasse património imaterial da humanidade.
Embora a partir de pressupostos não coincidentes, Ronald Dworkin escreveu acerca da pertinência de uma “religião sem Deus”. Dworkin defendeu que a atitude religiosa não depende da crença num ser sobrenatural, mas de uma atitude de respeito pelas vidas dos outros e de uma postura de reverência diante da beleza e da inteligibilidade do universo. Também em “Conversas sobre Deus”, este não é uma figura divina, mas a intensidade do ser, a presença que se revela quando deixamos de querer possuir o mundo. Assim, o seu pensamento não procura converter, mas sim fazer ressoar.
A metáfora da “alma como motor de busca” condensa o diagnóstico de “Conversas sobre Deus”: o sujeito contemporâneo já não contempla, processa. A informação substitui o mistério e o fluxo constante de estímulos apaga a possibilidade de experiência. A alma tornou-se uma interface, sempre ativa, nunca presente. Contra esta lógica, Han propõe a inatividade como gesto filosófico e espiritual - uma recusa do automatismo, um elogio da pausa.
As metáforas zen que atravessam o livro - a ameixoeira em flor, as três libras de linho, as montanhas que caminham - substituem o conceito pela imagem e a doutrina pela experiência. Elas traduzem uma teologia negativa, na qual Deus não é objeto de crença, mas sim horizonte de recetividade. Han aproxima-se, pois, daquilo que Gianni Vattimo descreveu como uma espiritualidade sem dogma, fundada na escuta e na vulnerabilidade.
O silêncio é, em Han, o verdadeiro nome do divino. É o espaço onde o real se manifesta sem ser forçado a explicar-se. A sua “religião sem Deus” não é um ateísmo militante, mas sim uma prática da atenção. Mística da presença que pode ser vivida por crentes e não crentes. Alain de Botton chamaria a isto uma “espiritualidade cultural”. Han prefere chamá-la “descriação”. Em ambos, há a mesma recusa do ruído como forma de vida.
A obra pode ser lida como um contraponto espiritual a “A Sociedade da Transparência” e “A Agonia de Eros”. Nestes livros, Han diagnosticava a perda da alteridade e do mistério, substituídos pela exibição e pela exposição contínua. Agora, abre-se a possibilidade de um regresso ao invisível. O sagrado, diz Han, é o que resiste à visibilidade total, o que não se deixa converter em dado, opinião ou mercadoria.
Ler “Conversas sobre Deus” é entrar numa pedagogia do silêncio. O texto avança devagar, no ritmo de meditação filosófica. Cada página sugere uma renúncia: falar menos, esperar mais, olhar melhor. Nisso, Han aproxima-se de uma tradição de pensadores que, de modos diferentes, reconhecem que o vazio contemporâneo não se preenche com mais comunicação, mas com o ofício da escuta.
Neste contexto, Han não propõe um regresso à fé. Propõe, sim, um retorno à interioridade. Num mundo onde tudo se tornou transparente, a sua teologia negativa devolve densidade ao tempo e espessura ao olhar. O que está em causa, em última análise, não é Deus, mas o espaço que o seu desaparecimento deixou e que talvez só o silêncio possa habitar.
As Igrejas e outras formas de comunitarização religiosa podem encontrar aqui um lugar de diálogo que favoreça a descoberta de nova pertinência para os seus gestos e narrativas. Mas esse diálogo não é fácil, uma vez que estes discursos da interioridade não se interessam suficientemente por alguns traços da vivência religiosa, tal como ela se desenvolve no habitat institucional religioso: a autoridade de uma memória, o exclusivismo da pertença, a ordem moral “ponta-a-vestir”, os mandamentos revelados, etc. Divergindo desta gramática de Deus, estes discursos da interioridade propõem uma poética em que a ausência é o modo próprio da presença divina.
“A oração mais bela e mais elevada é a que não tem desejos, a que escuta o silêncio divino.” A citação é uma apologia da atitude orante. Mas é também um diagnóstico. Numa época em que até a meditação se transformou em produtividade espiritual, “Conversas sobre Deus” lembra que o sentido não se conquista, acolhe-se. Na leitura que Han oferece aos seus leitores, o último nome de Deus, o único que ainda podemos pronunciar sem o trair, é precisamente este: silêncio.



