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A Quaresma do mundo

18 fev, 2026 • Alfredo Teixeira


A palavra “ascese” suscita, muitas vezes, desconfiança. Evoca privação moralista e negação do prazer. Contudo, na sua etimologia grega (áskesis), significa exercício, treino. Não se trata de recusar o mundo, mas de aprender a habitá-lo de modo mais justo.

A tradição cristã conhece bem a gramática dos “tempos fortes”. Entre eles, a Quaresma ocupa um lugar singular: quarenta dias de preparação, jejum, oração e esmola, orientados para uma pedagogia da conversão. Trata-se de um tempo inscrito no calendário litúrgico, mas não é um tempo encerrado nos limites do ritual religioso. É um dispositivo social de desaceleração e recentramento. A Quaresma institui uma interrupção no fluxo ordinário da vida, suspendendo excessos, relativizando consumos e convidando a uma concentração no essencial.

Num tempo como aquele que vivemos - marcado pela aceleração sistémica, pela saturação de estímulos e pela exploração intensiva dos recursos naturais - talvez possamos reaprender a ler a Quaresma não apenas como prática devocional, mas também como um tempo social oportuno. Precisamos, enquanto coletividade, de “tempos de contenção”: momentos institucionais e pessoais em que a expansão cede lugar à medida regrada, o consumo à frugalidade, a pressão produtivista ao cuidado.

A ideia não é exclusivamente cristã. O Ramadão, no Islão, estrutura um mês inteiro de jejum diurno, oração intensificada e partilha solidária, reconfigurando ritmos sociais e económicos. O Yom Kippur, no Judaísmo, concentra, numa jornada radical de jejum e de exame de si, uma poderosa pedagogia da responsabilidade. No hinduísmo, votos e períodos de austeridade (“vrata”) modulam o calendário religioso. O que estas tradições espirituais partilham é a intuição de que a vida humana necessita de alternância: expansão e retraimento, festa e disciplina, abundância e limite.

A modernidade tardia tende a absolutizar a expansão. Crescimento contínuo, inovação permanente, disponibilidade total. O sociólogo alemão Hartmut Rosa descreveu com precisão esta sociedade da aceleração, em que tudo se torna acessível, mobilizável, explorável. No seu diagnóstico, a lógica da disponibilidade - tornar o mundo inteiramente “ao dispor” - corrói a possibilidade de uma relação ressonante com a realidade. A experiência autêntica exige, paradoxalmente, indisponibilidade: aquilo que não podemos dominar, consumir ou esgotar de imediato. Uma “quaresma social” poderia ser concebida como um exercício coletivo de indisponibilidade voluntária, um gesto de retração que restitui espessura significante ao mundo.

Também Byung-Chul Han tem insistido na importância dos rituais e da vida contemplativa como contrapesos à lógica neoliberal da “performance”. Para Han, a erosão dos rituais dissolve as formas estáveis de comunidade e transforma o tempo num fluxo indiferenciado de tarefas e estímulos. A ascese - entendida não como mortificação estéril, mas como disciplina que estrutura o desejo - pode ser uma forma de resistência à sociedade do cansaço. Ao instituir limites voluntários, cria-se espaço para a atenção, o cuidado e a interioridade.

A palavra “ascese” suscita, muitas vezes, desconfiança. Evoca privação moralista e negação do prazer. Contudo, na sua etimologia grega (áskesis), significa exercício, treino. Não se trata de recusar o mundo, mas de aprender a habitá-lo de modo mais justo. Numa época de crise ecológica, de desigualdades crescentes e de exaustão subjetiva, a ascese pode ser reabilitada como categoria social: treino coletivo da moderação, aprendizagem de limites, educação do desejo.

Imaginemos o que significaria, como sociedade, assumir uma espécie de quaresma civil: períodos definidos de redução drástica do consumo energético; moratórias sobre práticas ambientalmente predatórias; campanhas públicas de simplicidade voluntária; suspensão simbólica de certas lógicas de hiperprodução. Não como punição, mas como gesto de cuidado. Tal como o jejum religioso não visa destruir o corpo, mas reordenar a relação com ele, também uma contenção ecológica e económica poderia reordenar a nossa relação com os recursos.

É evidente que não basta apelar à conversão individual. A tradição quaresmal sempre articulou práticas pessoais (jejum, oração) com dimensões comunitárias (ritual, esmola). A transformação exige enquadramentos institucionais, políticas públicas e novas formas de regulação económica. Mas sem uma cultura do limite, tais medidas serão sempre percecionadas como imposição externa. A força da vivência quaresmal reside precisamente na sua interiorização: o limite é assumido como escolha significativa.

Talvez a nossa época precise de redescobrir o valor antropológico e social dos “tempos fortes”, para reconhecer que a vida coletiva necessita de ritmos de contenção. Uma sociedade sem jejum é uma sociedade sem pausa; e uma sociedade sem pausa é uma sociedade incapaz de discernimento.

Falar de uma “quaresma necessária” não é propor um moralismo austero, mas sim um realismo ecológico e antropológico. Se não instituirmos voluntariamente tempos de retração, seremos confrontados com retrações forçadas — colapsos, escassez, crises. A sabedoria das tradições religiosas lembra-nos que o limite pode ser fecundo. A pergunta que se coloca é se teremos a coragem cultural e política de transformar essa sabedoria num princípio orientador da casa comum.

Alfredo Teixeira, antropólogo (UCP-FT)

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