Padre Tony Neves
Opinião de Padre Tony Neves
A+ / A-

CRÓNICA PADRE TONY NEVES

Leão XIV vai pisar África pela primeira vez

25 fev, 2026 • Padre Tony Neves • Opinião de Padre Tony Neves


Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial são os primeiros países africanos com direito a visita apostólica do Papa Leão. Reconheço a importância das viagens papais e convenço-me, como boa parte dos católicos dos países citados, que será um momento de graça que pode – e deve – ajudar os governos e instituições destes países a trabalhar por mais justiça, paz, liberdade e fraternidade.

Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial são os primeiros países africanos com direito a visita apostólica do Papa Leão XIV. Em meios eclesiásticos e jornalísticos, a notícia já circulava há muito. Os Bispos de Angola e o Governo da Guiné Equatorial já tinham oficialmente publicado a visita. Mas faltava algo importante: a confirmação do Vaticano, as datas e os lugares onde ocorreriam encontros e celebrações. A notícia, publicada pelos media vaticanos às 12h00 de hoje (hora de Roma), veio pôr fim a dúvidas e pôr a claro os dias e os sítios que o Papa Leão vai pisar.

Tudo começará a 13 de abril quando o Papa aterrar em Argel, num país que se diz 100% muçulmano. As pequenas e muito controladas comunidades cristãs são um exclusivo para estrangeiros que ali trabalham. O Papa Leão, agostiniano, vai ali por duas razões principais: estará em Annaba (nome novo da cidade onde S. Agostinho foi Bispo – Hipona!) e na capital. É uma viagem às raízes da sua consagração enquanto religioso, o que se torna igualmente importante, dado o impacto que S. Agostinho teve na História da Igreja e da cultura. Mas Leão XIV fará desta visita a um país muçulmano um grande momento de afirmação da importância que a Igreja Católica atribui ao diálogo interreligioso.

Já segue a Informação da Renascença no WhatsApp? É só clicar aqui

Da Argélia, Leão XIV desce até à África Central, visitando os Camarões. Devo confessar que esta visita era há muito esperada e, quando passei quase todo o mês de janeiro nos Camarões, encontrei uma Igreja a preparar-se para acolher o Papa. Havia dúvidas quanto a condições de segurança e receios quanto a aproveitamentos políticos. São dois riscos inevitáveis em visitas papais. De facto, houve grandes tumultos em todo o país, quando foram divulgados os resultados das eleições que atribuíram mais um mandado ao Presidente que já tem 92 anos de vida e ganha mais sete na Presidência onde está há décadas! Por outro lado, a parte anglófona luta pela independência (e tem havido muita violência) e, no extremo norte (que percorri durante alguns dias, está instalado o pânico por causa dos ataques do Boko Haram, fundamentalistas islâmicos que vêm da vizinha Nigéria e semeiam o caos na região, de onde praticamente todos os estrangeiros e turistas desapareceram. Mas a decisão da visita foi tomada e o Papa estará nas duas grandes cidades francófonas (Yaoundé e Douala) e na principal cidade anglófona: Bamenda.

A última etapa da visita papal é a Guiné Equatorial, o único país de África onde se fala espanhol. É um país rico, desenvolvido, com pouca população para tanto petróleo. Integra a Comunidade de Países de Língua Portuguesa(!) e a sua governação tem sido acusada de nem sempre respeitar os mais elementares direitos humanos.

Antes de aterrar na Guiné, o Papa estará em Angola de 18 a 21 de abril. Será uma grande festa. Depois da histórica visita de João Paulo II em 1991, que eu tive a alegria de acompanhar como comentador para a Rádio Nacional de Angola, apenas Bento XVI fez uma curta passagem por Luanda. Esta visita de Leão XIV passará por três sítios nunca antes contemplados: o Santuário de Nossa Senhora da Muxima, na Diocese de Viana, com a recitação do Terço e encontro com os peregrinos; a cidade do Saurimo, na Lunda Sul, área de diamantes, na fronteira com a República Democrática do Congo; o Bairro Kilamba, uma das novas urbanizações de Luanda. Mas haverá espaços já pisados por Papas: o aeroporto antigo (4 de Fevereiro), a Nunciatura e a Igreja de Fátima, onde acontecerá o encontro com Bispos, Padres, Religiosos e Catequistas.

Vivia em Angola durante a primeira visita Papal (J. Paulo II) e percorro boa parte do país praticamente todos os anos. Estive lá em janeiro de 2025 e lá estarei em julho deste ano. Tenho uma enorme ligação a este povo e estou em contacto permanente com muita gente. Confesso que há três comentários muito comuns em Angola acerca das opções desta Visita: o primeiro, sobre a oportunidade (ou não!) num ano que antecede eleições fundamentais para o futuro do país. O segundo, sobre a escolha de Saurimo (porque não Huambo, Luanda, Malanje, Benguela, Cabinda…cidades mais populosas). É opinião corrente que a opção de ir às Lundas colmata uma brecha histórica da visita do Papa João Paulo II, não se escondendo o facto do atual presidente da conferência episcopal, D. José Manuel Imbamba, ser o Arcebispo de Saurimo. O terceiro – e mais badalado – prende-se com o Santuário de Nossa Senhora da Muxima e das enormes obras em curso. Já José Eduardo dos Santos apresentou uma maquete do futuro Santuário a Bento XVI, mas a obra não avançou e o Presidente faleceu. Ressuscitaram a maquete e a ida de Leão XIV vai reforçar a urgência de dar estruturas a multidões de peregrinos que ali se dirigem habitualmente. A pergunta que se faz sempre é qual é o preço político que a Igreja católica vai pagar por esta viagem e por quanto a envolve.

Reconheço a importância das viagens papais e convenço-me, como boa parte dos católicos dos países citados, que será um momento de graça que pode – e deve – ajudar os governos e instituições destes países a trabalhar por mais justiça, paz, liberdade e fraternidade.


Tony Neves, em Roma

(*Missionário Espiritano e jornalista, integra o Conselho Geral que governa a Congregação a nível mundial)

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.