Adriana Zani
Opinião de Adriana Zani
A+ / A-

Opinião Católica-Lisbon

A sustentabilidade convenceu as empresas. Os ODS podem mobilizar as pessoas

16 mar, 2026 • Adriana Zani • Opinião de Adriana Zani


Muitas transformações dentro das empresas começam com algo simples: uma conversa depois de um evento.

Numa manhã, Pedro, gestor de operações numa empresa industrial portuguesa, sentou-se num auditório da CATÓLICA-LISBON para assistir a mais uma edição do SDG Meetings. Já ouvira falar dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), mas naquele dia algo lhe chamou a atenção: a ideia de que aqueles 17 objetivos globais podiam servir como um mapa para organizar muitas das iniciativas que a sua empresa já realizava, desde projetos de eficiência energética até programas de apoio às comunidades.

No regresso ao escritório, Pedro decidiu partilhar a ideia. Pediu alguns minutos numa reunião da Direção Executiva e apresentou os ODS como uma forma de estruturar a estratégia de sustentabilidade da empresa. O diretor-geral, João, ouviu com curiosidade. Não houve uma decisão imediata, nem um plano formal naquele momento, mas a conversa começou. Nas semanas seguintes, os ODS voltaram a surgir em reuniões internas, em discussões sobre novos projetos e até em apresentações de equipas.

Já segue a Informação da Renascença no WhatsApp? É só clicar aqui

Pouco a pouco, aquilo que começou como uma curiosidade trazida de um evento transformou-se num tema recorrente dentro da organização.

Histórias como estas não são excecionais. Na verdade, ajudam a ilustrar bem o momento atual das empresas em relação à sustentabilidade e à Agenda 2030.

Os dados do 4.º ano do estudo do Observatório dos ODS nas Empresas Portuguesas mostram que os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável já conquistaram um espaço relevante na agenda estratégica das empresas.

Ao longo dos quatro anos do estudo, pelo menos 82% das Grandes Empresas e 67% das PME consideram importante a incorporação dos ODS na estratégia empresarial. Em muitas organizações, estes objetivos começam também a orientar decisões concretas: mais de 85% das Grandes Empresas e mais de 62% das PME afirmam ter em conta a cadeia de valor quando selecionam os ODS estratégicos, e a utilização dos ODS como suporte à tomada de decisão aumentou 15% nas Grandes Empresas e 18% nas PME entre 2022 e 2025. Estes dados sugerem que os ODS estão gradualmente a deixar de ser apenas uma referência institucional para se tornarem um instrumento de enquadramento estratégico nas empresas.

Entretanto, há ainda espaço para progressos em relação aos ODS.

Nas Grandes Empresas, 94,7% consideram que os colaboradores demonstram motivação positiva quanto aos temas de sustentabilidade. Quando a pergunta incide especificamente sobre os ODS, 51,8% consideram positiva a motivação dos colaboradores para estes objetivos. Entre as PME, a diferença é igualmente visível. Enquanto 71,1% das empresas consideram positiva a motivação dos colaboradores para a sustentabilidade em geral, 39,7% afirmam o mesmo relativamente aos ODS.

Ao mesmo tempo, surge um dado interessante e quase controverso. Entre as Grandes Empresas, 48,2% consideram importante que a organização viva uma cultura ODS que incentive a partilha de ideias inspiradoras, enquanto 17,9% afirmam já ter uma cultura orientada e conhecedora dos ODS, associando-a diretamente à motivação e produtividade das equipas.

Outro indicador ajuda a compreender melhor este fenómeno: os incentivos internos. Nas Grandes Empresas, 53,6% já associam incentivos de compensação dos colaboradores a objetivos de sustentabilidade, um aumento de 20,8 pontos percentuais face ao segundo ano do estudo. Quando a sustentabilidade passa a fazer parte dos sistemas de avaliação e recompensa, tende também a ganhar maior relevância nas decisões do dia a dia. E uma vez criados estes incentivos, o passo seguinte torna-se relativamente simples: cruzá-los com o enquadramento dos ODS, permitindo alinhar objetivos internos de desempenho com metas globais de desenvolvimento sustentável.

Nas PME, a realidade é diferente. Cerca de 80,7% das empresas não têm qualquer associação entre incentivos internos e objetivos de sustentabilidade ou ODS. Isto sugere que, em muitas organizações de menor dimensão, a integração da sustentabilidade ainda depende sobretudo da iniciativa de líderes ou colaboradores particularmente motivados.

É precisamente neste ponto que histórias como a de Pedro ganham relevância. Além das pressões externas, como exigências legais ou requisitos para acesso a financiamento, a transformação organizacional pode começar (ou ganhar mais corpo) com uma conversa, uma apresentação breve numa reunião de direção ou uma nova ideia trazida de fora da empresa.

A experiência dos últimos anos mostra que a sustentabilidade já conseguiu conquistar espaço nas empresas portuguesas. O desafio que se coloca agora é diferente. Não se trata apenas de reconhecer a importância da agenda global, mas de mobilizar as pessoas dentro das organizações para a concretizar.

A próxima fase dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável será definida, em grande medida, na forma como colaboradores, gestores e líderes empresariais integram estes objetivos nas decisões quotidianas das organizações. No dia 20 de março, na CATÓLICA-LISBON, este será um dos temas tratados no evento de lançamento do 4º Relatório Anual do Observatório.

Porque, no final, os ODS são uma agenda global e também uma agenda de motivação, liderança e ação dentro das empresas.


Adriana Zani, investigadora do Center for Responsible Business & Leadership da Católica-Lisbon

Este espaço de opinião é uma colaboração entre a Renascença e a Católica-Lisbon School of Business and Economics

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.