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Alfredo Teixeira, antropólogo (UCP-FT)

​Paixão – a ferida da história

30 mar, 2026


A Semana Santa continua a ter uma inesperada contemporaneidade. Mesmo fora de uma adesão confessional, a narrativa da Paixão conserva uma forte inteligibilidade.

Na Semana Santa, a palavra “Paixão” regressa ao espaço público com o peso de uma longa sedimentação cultural: liturgia, música, pintura, procissões, silêncio. É uma palavra antiga, carregada de memória, mas também, inesperadamente, móvel. Ao contrário do que por vezes se supõe, a Paixão nunca foi uma narrativa fechada. Permanece inacabada. Atravessou séculos como um campo de reinterpretação contínua, no qual a tradição cristã se encontra com lugares decisivos da experiência humana, sob o signo da tensão e da reconfiguração.

As narrativas da Paixão e Morte de Jesus Cristo tornaram-se uma gramática cultural para pensar o sofrimento, a violência, a culpa, a inocência e a compaixão. Essa capacidade não deriva da fixidez, mas, precisamente, da sua abertura. Não se trata, portanto, de uma memória congelada. Cada época devolveu à Paixão as suas próprias perguntas: o que é a justiça quando condena o inocente? O que faz uma multidão tornar-se “turba” precipitada no linchamento coletivo? O que é a história contada a partir da ótica das vítimas? Como se desenha a fábrica política dos processos do “bode expiatório”?

A música talvez ofereça um dos exemplos mais claros dessa plasticidade. Basta considerar o caso de Johann Sebastian Bach. Ao longo dos últimos séculos, Bach foi sucessivamente interpretado como patriarca de uma cultura nacional, génio musical, herdeiro de uma tradição protestante específica, símbolo cultural europeu e, mais recentemente, como figura “universal”, capaz de falar para além de qualquer fronteira. Essa multiplicidade não fragiliza a sua obra. Pelo contrário, revela uma característica essencial dos clássicos: a resistência a uma leitura única.

As Paixões de Bach não se esgotam numa gramática cultual. São dispositivos narrativos e afetivos que permitem reencenar, em cada escuta, a tensão entre violência e compaixão. Quando foram compostas, estavam integradas num contexto muito preciso – o culto luterano na Sexta-Feira Santa. Mas a sua receção posterior transformou-as num espaço em que a memória cristã dialoga com experiências humanas diversas. É precisamente essa abertura que se torna decisiva no mundo contemporâneo, com ressonâncias que impedem que se torne letra morta.Não por analogia folclorizada, mas por uma afinidade estrutural: a narrativa de um inocente entregue à violência institucional e coletiva.

Recentemente, a Fundação Calouste Gulbenkian deu palco a um projeto participativo para a realização da obra “La Pasión según San Marcos”, de Osvaldo Golijov. A obra faz parte de um projeto que pode documentar este trabalho contínuo de releitura das narrativas da Paixão: o “Passion 2000 Project”, promovido pela Bachakademie Stuttgart para assinalar os 250 anos da morte de Bach. No âmbito deste projeto, foram convidados quatro compositores de diferentes geografias culturais a dar corpo musical à Paixão, a partir dos quatro Evangelhos canónicos e em quatro línguas distintas.

O resultado foi um conjunto de obras que desloca a Paixão do centro europeu para um espaço plural. Sofia Gubaidulina escreveu uma Paixão em russo, segundo o Evangelho de João; Osvaldo Golijov compôs em espanhol, segundo o Evangelho de Marcos; Tan Dun serviu-se da língua inglesa, a partir do Evangelho de Mateus; e Wolfgang Rihm apresentou uma Paixão em alemão, segundo o evangelista Lucas. Quatro obras, quatro idiomas, quatro mundividências, um mesmo fulcro narrativo.

O que estas Paixões contemporâneas demonstram é que a memória cristã não se universaliza por abstração, mas por contacto, de forma tangencial. Cada compositor reabre a narrativa bíblica ao mundo que habita. Em Gubaidulina, a Paixão é atravessada pela tradição espiritual ortodoxa e por uma linguagem musical que oscila entre a profundidade contemplativa e a expectativa apocalíptica. A sua Paixão não se limita ao relato evangélico; integra também o Apocalipse, construindo uma espécie de arco entre trevas e luz, sofrimento e transfiguração, vulnerabilidade e transcendência.

Em Golijov, a deslocação é ainda mais radical. O programa para a Paixão do compositor argentino, a partir do Evangelho de Marcos, transporta a paisagem histórica e cultural latino-americana, onde a mensagem cristã se diz no empoderamento da voz e do corpo (em particular, no feminino). Percussões afro-cubanas, referências às músicas urbanas e ecos de rituais coletivos transformam a Paixão numa narrativa de rua e de resistência, como uma expressão ao mesmo tempo festiva e ferida. Não se trata de “exotizar” o Evangelho, mas de o reinscrever num contexto histórico marcado pela violência, pela desigualdade e pela memória de um sofrimento cravado nas origens. A Paixão é também memória política.

Tan Dun, compositor chinês, radicado nos EUA, procurou outra forma de universalização: a da escuta global. A sua Paixão, escrita em inglês, a partir do Evangelho de Mateus, integra elementos de diferentes tradições musicais e espirituais, explorando uma estética que conjuga minimalismo, primitivismo, teatralidade e espiritualidade compósita. A escolha da língua inglesa não é neutra, pois sugere um horizonte de circulação ampliado, no qual a narrativa cristã pode ser recebida por públicos culturalmente distantes da sua origem. A água, símbolo da harmonia e signo de uma crise ecológica, é protagonista nesta Paixão.

Mas é talvez em Rihm, compositor alemão, que essa abertura atinge a sua forma mais crítica. A sua Paixão, segundo São Lucas, emerge num contexto europeu ainda marcado pela memória do Holocausto e pelas questões não resolvidas da “culpa” histórica. Rihm evita deliberadamente os Evangelhos que poderiam ser lidos como portadores de traços antijudaicos mais evidentes e constrói uma obra que não oferece uma reconciliação fácil. A Paixão torna-se aqui o lugar de de uma memória ferida, onde a tradição de Bach é convocada não para ser repetida, mas para ser interrogada. A inclusão de textos como Tenebrae, de Paul Celan, reforça essa dimensão. A Paixão não narra apenas a morte de Jesus, mas também a de todos os inocentes na história recente.

O que está em causa neste conjunto de obras é uma reinterpretação do “teodrama” cristão. Em “Passion 2000 Project”, esse teodrama alarga-se, renunciando à narrativa de um acontecimento singular para incluir os dramas dos povos, das vítimas e dos vencidos. A Paixão é uma possibilidade de atenção ao lado B da história.

Essa transformação tem implicações que ultrapassam o domínio musical. Num tempo saturado de imagens rápidas e indignações efémeras, a Paixão reforça o seu lugar cultural enquanto memória viva. Não uma memória ornamental ou monumento, mas uma memória crítica – ou “perigosa”, recuperando um conceito do teólogo Johann Baptist Metz. É talvez por isso que a Semana Santa continua a ter uma inesperada contemporaneidade. Mesmo fora de uma adesão confessional, a narrativa da Paixão conserva uma forte inteligibilidade. Há nela a solidão do justo, a maquinaria do poder, a volubilidade da multidão, a intimidade da traição, o medo, a injustiça, a execução pública. E há, sobretudo, uma pergunta persistente: o que fazemos diante do sofrimento dos outros?

Alfredo Teixeira, antropólogo (UCP-FT)

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