"Sem Título."
28 abr, 2026 • Mafalda d’Oliveira Martins | MOM
Se o Romantismo aproximou a arte da literatura, talvez o contemporâneo esteja a testar novamente a distância entre elas. Talvez o título tenha deixado de ser ponte para se tornar suspeita. Ou talvez o artista contemporâneo, desconfiado da própria autoridade, prefira não nomear, como se receasse determinar o destino da sua própria obra.
Foi pelo instragram que acedi a um curto vídeo que me pôs a pensar todo este mês. Mostrava um pastor americano, daquelas assembleias exaltadas num dos estados do interior, onde cada discurso parece acarretar o vigor de quem apenas tem a palavra para sobreviver. Cada frase seguida de um “amén” colectivo, ritmada num embalo que hipnotiza ao mesmo tempo que galvaniza os espíritos. O que me prendeu, ajudada pela forma, foi o assunto: uma história.
Contava o pastor que, certo dia, um ex- campeão de xadrez acompanhava uma visita guiada no Louvre. O guia apontava para uma pintura de Friedrich Retzsch (1831), que retrata dois homens – um, que entendemos como o diabo, inclina-se sobre o tabuleiro, seguro da vitória, enquanto que o outro baixa a cabeça. No meio, um anjo observa a partida. O jogo parece terminado e o título da pintura conclui: Checkmate.
O ex-campeão, talvez por ver a sua modalidade retratada, delonga-se na observação do quadro e o resto da visita continua. A certo ponto, a guia chama-o para retomar o grupo, mas o senhor apenas diz: “Esta pintura está errada!”. Para grande choque da guia, ele explica-lhe que, muito simplesmente, a partida não está terminada. O homem que parece derrotado tem ainda a hipótese de fazer mais uma jogada.
“O homem pode ainda fazer mais uma jogada! Na vida, temos sempre mais uma jogada!”, conclui o pastor enquanto que a assembleia entra em êxtase – “Aleluia!”.
Mas então quem venceu afinal? O homem, o diabo, ou o próprio título?
Ficamos na dúvida: terá sido colocado incorretamente e postumamente? Será uma trapaça artística? Seria melhor não ter título?
Dar um nome nunca é tarefa inocente. Ao longo da Bíblia, Deus muda o nome de Abrão para Abraão, de Jacob para Israel, de Simão para Pedro. A obra permanece, é a mesma pessoa, mas o nome oferece algo novo: um caminho. Não se trata apenas de uma nova identificação, trata-se da descoberta de uma vocação. O novo nome cria um novo horizonte de sentido. Deus, como autor, não altera a matéria, mas dá-lhe um rumo e altera a leitura que a história fará dela.
Talvez o título numa obra de arte funcione assim: não descreve apenas o que vemos, mas indica o que podemos ver através dela.
É certo que, durante séculos, essa responsabilidade não esteve nas mãos do artista. O que hoje chamamos de título era frequentemente uma categoria ou cânone: “Pietà”, “Anunciação”, “Descida da Cruz”, entre outros. O tema não era inventado, era herdado, como advoga Erwin Panofsky em Estudos da Iconologia (1939). Nesta publicação, o autor mostra-nos como a obra pré moderna inscrevia-se num sistema iconográfico partilhado, onde o significado dependia de códigos
comuns e não propriamente da vontade individual. O artista trabalhava dentro de uma gramática anterior a si.
Só mais tarde é que o título se começou a tornar uma extensão da individualidade. À medida que o artista se aproximou do mundo académico e literário, sobretudo a partir do Romantismo, a obra passou a exigir um suplemento verbal. O título deixou de descrever para sugerir. Sobretudo, os títulos e os temas reproduzidos mostravam uma classe artística instruída, não apenas alguns indivíduos, mas os artistas, na sua generalidade.
Um caso interessante desta nova realidade é o título que James Whistler dá ao retrato da sua mãe, em 1871: Arranjo em cinzento e preto nª1 (Arrangement en gris et noir n°1). É desconcertante. A pintura exibe uma figura rígida e fria, de expressão pesada e estóica. A paleta, sobretudo em tons de cinzento, é o contrário de uma exaltação romântica, é sobretudo dramática pelo seu silêncio. E o título trata esta figura como uma composição, um arranjo, que tanto pode ser musical como apenas visual e que reduz a mãe do artista a isso - um exercício estético – evidenciando as consequências de uma relação austera.
No século XX, vemos decair a realidade humanista e, com ela, a colaboração entre o artista e a academia/literatura. O projecto humano falhou, as guerras dilaceraram o olhar que antes exaltava o homem. A autoridade que o artista exerce sobre a leitura da sua obra muda: “quem sou eu para oferecer uma narrativa?”, e os conceitos de democracia cultural começam a aflorar a cena artística. Surgem cada vez mais obras “Sem título”. A recusa de um nome parece libertadora: a obra não quer ser capturada pela palavra.
E, no entanto, “Sem título” é também um título. É certamente uma decisão.
Cerca de 15% da colecção do MoMA encontra-se catalogada como Untitled. Artistas como Louise Bourgeois, Peter Doig, Félix González-Torres ou Cindy Sherman recorreram repetidamente a essa fórmula. Em alguns casos, o “Untitled” protege a obra de leituras redutoras; noutros, cria quase um novo género.
Pergunto-me se esta proliferação não revela algo mais profundo. Se o Romantismo aproximou a arte da literatura, talvez o contemporâneo esteja a testar novamente a distância entre elas. Talvez o título tenha deixado de ser ponte para se tornar suspeita. Ou talvez o artista contemporâneo, desconfiado da própria autoridade, prefira não nomear, como se receasse determinar o destino da sua própria obra.
Volto então ao tabuleiro de Retzsch. O título declara o fim e a pintura sugere continuidade. Entre uma coisa e outra instala-se um intervalo. É nesse intervalo que o espectador pensa.
Dar um título é assumir responsabilidade. É orientar. Marca território autoral. Recusar o título pode ser um gesto de liberdade ou de hesitação. E voltamos novamente à pergunta: quando olhamos para uma obra “sem título”, estamos perante uma ausência ou perante uma escolha consciente?
Talvez a arte contemporânea nos esteja a lembrar que nem tudo precisa de nome para existir. E que também, ao abdicar do nome, não se abdica da autoria. Para já, há só uma certeza: esta época histórica permanece todavia “Sem título”.
Mafalda d’Oliveira Martins | MOM - Artista visual
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