Alfredo Teixeira
Opinião de Alfredo Teixeira
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Peregrinos na berma do asfalto

12 mai, 2026 • Alfredo Teixeira * • Opinião de Alfredo Teixeira


A peregrinação a Fátima permanece um dos fenómenos religiosos capazes de suspender a ideia, frequentemente repetida, de que a religião (quase) desapareceu da cena pública.

Estamos novamente no tempo do ano em que os noticiários televisivos regressam às imagens de Fátima. As câmaras acompanham os grupos organizados, os rostos cansados, os pés macerados, as promessas murmuradas em voz baixa. Mas, sobretudo, detêm-se nos peregrinos das bermas do asfalto. É aí, na estreita faixa entre o perigo e a perseverança, que a narrativa mediática encontra o seu símbolo mais eficaz: homens e mulheres caminhando durante dias, muitas vezes em silêncio, ocupando, na marcha solitária e solidária, a fronteira de um território pensado para automóveis e velocidade. Em Portugal, talvez nenhum outro ritual coletivo consiga ainda produzir esta conjugação entre vulnerabilidade física e espiritual, visibilidade pública e reconhecimento social.

A peregrinação a Fátima permanece um dos fenómenos religiosos capazes de suspender a ideia, frequentemente repetida, de que a religião (quase) desapareceu da cena pública. Não porque a sociedade portuguesa tenha regressado a um modelo de uniformidade católica, mas porque Fátima continua a funcionar nesse cruzamento complexo entre a manutenção de uma reserva simbólica da memória coletiva portuguesa e a vivência de um sagrado materno protetor moldável à escala dos quotidianos. Mesmo para muitos que se distanciaram de uma religiosidade ativa, Fátima permanece inteligível. Os seus gestos, as suas emoções e os seus códigos continuam culturalmente reconhecíveis.

Poucos intérpretes compreenderam isso tão bem quanto Frei Bento Domingues. Por estes dias, reli algumas das páginas que dedica a Fátima no livro “A religião dos portugueses”. A sua leitura evita tanto a exaltação apologética como o desprezo sociológico. O que lhe interessa é perceber como Fátima se inscreve numa certa “arte de ser português”. Para Frei Bento, o universo simbólico das “aparições” não introduz propriamente uma rutura religiosa. Pelo contrário, mobiliza o repertório devocional já disponível na religiosidade popular do início do século XX – o terço, a reparação, o inferno, a conversão, a devoção mariana, o imaginário do sofrimento e da salvação. O decisivo não está na originalidade da mensagem, mas na forma da comunicação – alguém vindo “do céu” encontra alguém na terra. A “aparição” surge, assim, menos como espetáculo extraordinário e mais como evento de proximidade.

Talvez por isso Fátima tenha desenvolvido um perfil singular entre os grandes santuários católicos. Não se organizou, prevalentemente, em torno do milagre terapêutico ou da relíquia taumaturga. O próprio “milagre do sol”, observa Frei Bento com fina ironia, aconteceu num país onde o sol nunca foi escasso. Em Fátima, a centralidade pertence antes ao encontro, à presença, à experiência

afetiva da relação. As práticas do santuário de Fátima não cultivam intensamente a dramatização do prodígio físico nem se atualizam numa religiosidade baseada no contacto material com a imagem. Há, na sua construção simbólica, uma surpreendente contenção.

Essa contenção também ajuda a compreender um paradoxo frequentemente ignorado. Apesar das visões do inferno presentes nas narrativas de 1917, Fátima nunca se consolidou como uma religiosidade do medo apocalíptico. Pelo contrário, a interpretação de Frei Bento identifica nela uma religiosidade profundamente emocional, centrada nas metáforas do coração, da tristeza e da compaixão. O Deus de Fátima apresenta-se como uma figura de amor ferido que deseja reciprocidade. “Só quer que lhe liguem”, resume Frei Bento, numa fórmula teológica desconcertante.

Por isso, a “procissão do adeus” continua a ser um dos rituais mais expressivos. Quando milhares de lenços brancos se agitam na Cova da Iria ao som do “Adeus, ó Virgem”, encena-se uma forma coletiva de despedida que ultrapassa as fronteiras eclesiásticas da religião. Frei Bento lê, nesse momento, uma espécie de condensação sentimental da experiência histórica portuguesa: uma sociedade habituada à distância, à emigração, à ausência e à saudade.

Talvez seja essa a razão pela qual as imagens televisivas dos peregrinos continuam a exercer fascínio num país cada vez mais urbano e cosmopolita. Não porque todos se revejam na fé que sustenta a caminhada, mas porque ali permanece legível uma certa pedagogia da fragilidade, da resistência e da emoção partilhada. As bermas do asfalto tornaram-se, paradoxalmente, um dos últimos lugares onde, provavelmente, uma grande parte da sociedade portuguesa se observa coletivamente a si própria.

*Alfredo Teixeira, antropólogo (UCP-FT)

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