Opinião Católica-Lisbon
O futuro “psicologicamente habitável”
18 mai, 2026 • Frederico Fezas Vital
Durante décadas, a pergunta que escrutinava a educação era se a escola preparava os jovens para o futuro. Hoje, a pergunta talvez seja se o futuro que lhes apresentamos é “psicologicamente habitável”. A saúde mental deixou de ser uma nota de rodapé da educação. Tornou-se o seu teste mais exigente.
Durante décadas, interrogámo-nos sobre se a escola preparava os jovens para o futuro. Estamos a prepará-los para o emprego? Para a cidadania? Para a tecnologia? Para a competição global? Hoje, talvez as perguntas certas sejam outras: Que futuro lhes estamos a apresentar? E esse futuro ainda é “psicologicamente habitável”?
A saúde mental dos jovens deixou de ser um tema lateral, reservado aos gabinetes de psicologia, ou às conversas familiares difíceis. Tornou-se uma questão educativa central. A Organização Mundial da Saúde estima que, globalmente, um em cada sete jovens entre os 10 e os 19 anos vive com uma perturbação mental. Depressão, ansiedade e perturbações comportamentais estão entre as principais causas de doença e incapacidade nesta idade.
A OCDE, num relatório publicado no mês passado sobre saúde mental de crianças, adolescentes e jovens, confirma que entre os jovens de 15 anos, a percentagem dos que reportam pelo menos duas queixas de saúde mais do que uma vez por semana subiu de 37% em 2014 para 52% em 2022. Os que dizem sentir-se “em baixo” mais do que uma vez por semana passaram de 20,5% para 32,5%.
As causas são múltiplas. Redes sociais, pressão académica, insegurança económica, bullying, ansiedade climática, instabilidade global e fragilidades familiares cruzam-se num ecossistema de mal-estar. Importa, por isso, resistir a explicações únicas. Não é apenas o telemóvel, a pandemia ou a pressão escolar.
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Há uma dimensão que raramente nomeamos com a coragem necessária. O exemplo dos adultos. Pedimos serenidade aos jovens enquanto lhes oferecemos um espaço público cada vez mais inflamado. Falamos-lhes de cidadania, mas normalizamos a agressividade como método. Ensinamos-lhes cooperação, mas a vida coletiva espraia-se como uma sucessão de trincheiras. Nós contra eles, vencedores contra vencidos, indignados contra inimigos.
Os jovens observam e absorvem tudo. Observam a linguagem política, a violência verbal nas redes sociais, a facilidade com que se humilha quem pensa de forma diferente e a transformação de quase todos os desacordos em combates morais. Observam adultos que exigem saúde mental nas escolas, mas validam, nas suas decisões públicas e privadas, ambientes de hostilidade permanente. Observam-nos quando dizemos que queremos diálogo e, logo depois, recompensamos quem grita mais alto.
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Não devemos dramatizar este ponto de forma simplista. A polarização, por si só, não explica a crise de saúde mental dos jovens. Mas é difícil imaginar que uma geração possa crescer confiante se o mundo adulto lhe apresenta o futuro como uma ameaça, o adversário como inimigo e a diferença como um perigo. A investigação recente sobre polarização afetiva tem chamado a atenção para os seus efeitos na coesão social e no bem-estar. E barómetros internacionais de confiança revelam sinais preocupantes de uma cultura de agravo, desconfiança institucional e lógica de soma zero, na qual o que o outro ganha é percebido como algo que eu perco.
É neste contexto que a escola ganha uma importância ainda maior. Não porque possa resolver sozinha aquilo que a sociedade adulta desorganiza. Seria injusto exigir-lhe que compensasse a precariedade, a crise da habitação, a solidão digital, a violência verbal, a instabilidade geopolítica ou a pobreza de horizonte. Mas a escola pode ser um dos poucos lugares onde se aprende, de forma concreta, que discordar não é destruir, exigir não é humilhar e pertencer não é pensar da mesma forma.
A tentação será responder a este problema com mais serviços especializados. Eles são necessários. Seria irresponsável desvalorizar psicólogos, psiquiatras, equipas multidisciplinares e respostas clínicas acessíveis. No entanto, a escola não pode transformar-se num hospital. Os professores não são terapeutas. Mas a escola pode escolher entre ser terapêutica e ser uma circunstância agravante, pelo modo como acolhe, exige, escuta, compara, pune, protege ou abandona.
A saúde mental é, para além da ausência de doença, também pertença, segurança, sentido, relação e esperança. O PISA 2022 mostrou que os alunos que se sentem seguros na escola e não são expostos ao bullying nem a riscos tendem a revelar maior sentido de pertença, maior satisfação com a vida, maior confiança na aprendizagem autónoma e menor ansiedade. O ambiente escolar é uma variável educativa, e não pano de fundo.
Daqui decorre que a próxima grande reforma da educação talvez não seja curricular, tecnológica ou administrativa. Talvez seja relacional. Precisamos de escolas e universidades capazes de ensinar conhecimento sem humilhar, exigir sem esmagar, avaliar sem reduzir a pessoa ao resultado. Precisamos de comunidades educativas em que a excelência não seja confundida com exaustão, nem a autonomia com abandono.
E isto não significa baixar as expectativas. Uma escola que protege a saúde mental não é uma escola sem rigor nem sem ambição. É uma escola que percebe que a aprendizagem exige confiança e que a confiança exige vínculos. O contrário da exigência não é o cuidado. É a indiferença. E cuidar não é facilitar tudo. É criar as condições para que cada jovem possa enfrentar a dificuldade sem se sentir sozinho dentro dela.
É aqui que a inovação social se torna decisiva. Não basta acrescentar uma aplicação, uma linha telefónica ou uma palestra anual. É preciso gerar mudança sistémica. Formar professores em literacia emocional. Integrar psicólogos na vida das instituições. Capacitar pares para reconhecer sinais de risco. Envolver famílias sem culpa nem moralismo. Preparar os municípios para as transições e capacitar as universidades para acompanhar os momentos em que tantos jovens saem de casa, mudam de cidade e perdem redes de proximidade. Há bons sinais. Em Portugal, a Direção-Geral da Educação enquadra a saúde mental e a prevenção da violência no âmbito do Programa de Apoio à Promoção e à Educação para a Saúde. O novo Referencial de Educação para a Saúde, homologado em 2025, assume-se como uma ferramenta flexível, desde a educação pré-escolar até ao ensino secundário, orientada para o desenvolvimento integral das crianças e dos jovens. A questão, agora, é passar da intenção à cultura.
No fundo, a crise de saúde mental dos jovens é um espelho. Mostra-nos que talvez tenhamos pedido mais desempenho do que oferecido sentido. Demasiada conectividade e pouca presença. Demasiada preparação para o futuro e pouca segurança no presente. Nenhuma escola resolverá sozinha a precariedade, a habitação, a solidão digital ou a incerteza do mundo. Mas pode ser um dos lugares onde se reaprende a respirar.
Durante muito tempo, pensámos que preparar os jovens para o futuro era dar-lhes competências. Continuamos a precisar delas. Mas talvez o primeiro dever educativo do nosso tempo seja fazer com que o futuro volte a parecer uma promessa, e não apenas uma ameaça. Isso não depende só das escolas. Depende da linguagem que usamos, das decisões que tomamos, dos exemplos que damos e da coragem com que recusamos transformar a vida comum num campo de batalha. Se queremos jovens livres, criativos e responsáveis, não basta entregar-lhes ferramentas. Temos de lhes oferecer confiança, pertença e horizonte. A geração que cresce hoje não precisa apenas que a preparemos para sobreviver ao mundo que herdará. Precisa que comecemos, já, a construir com ela um mundo que valha a pena habitar.
Frederico Fezas Vital é professor e executive diretor na Católica-Lisbon Yunus Social Innovation Center
Este espaço de opinião é uma colaboração entre a Renascença e a Católica-Lisbon School of Business and Economics
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