Opinião
Pronto, Torreense, já não me sinto mal por aquilo de 1999
25 mai, 2026 • Hugo Tavares da Silva
Talvez alguns daqueles rapazes que estavam naquele pelado enorme há quase 30 anos, demasiado cedo no relógio e a chover como nunca vi, sintam o clube a sério e estejam felizes da vida. Oxalá.
Estava a chover como nunca vi. Já havia um certo desconforto em ir jogar àquele pelado de Torres Vedras. Era grande e eles eram rijos. E como estavam lá longe, talvez aquela deslocação incómoda soasse a uma lenda qualquer. A nossa equipa era gira, ter Vasco, Sérgio, Bastos e Ricardo era um luxo. Mas eles eram rijos e estava a chover como nunca vi.
Os pais nem desceram para o campo, ficaram lá no alto, num exercício exemplar de sabedoria. Dentro do carro, iam apitando e faziam sinais de luzes. Aposto que estavam muitíssimo confortáveis.
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Se eu perguntar à malta que jogou naquela manhã, desconfio que ninguém vai ter essa lembrança. Falta-me o senhor Tomé, pai de um enorme amigo e lateral-direito, era o delegado. Mudou-se lá para cima há uns poucos anos. Tinha um bigode mágico e uma memória prodigiosa ou um bigode prodigioso e uma memória mágica. E ria como quem abraçava, com uma malandragem irrepetível. Foi daqueles que, sem infantilizar, nos deram algumas primeiras lições e agora permitiria corroborar esta história e evitar a fraude.
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Os pingos da chuva deviam ter outro nome porque mordiam a pele, talvez fossem mini crocodilos. Não se via nada. Nem dava para ter os olhos abertos. E o Torreense lá se adiantou no marcador. Não tenho muito mais memórias. Só mais uma: o árbitro interrompeu o jogo. Era impossível jogar ou existir. E, não sei bem porquê, o jogo foi cancelado e seria repetido. Voltámos lá, meteorologia mais agradável e tal: 1-0 para os visitantes com um golo na própria baliza. Claro que ficámos felizes, foi um jogo decisivo para chegarmos à final do campeonato. Mas havia um mas.
Este domingo fiz as pazes com esse sentimento ruim que sempre voltava. A culpa inventa a sua importância e o seu caminho. O futebol ensina isso, para além do ganhar e perder, da fineza e do suor, o mérito e a moral também importam, pelo menos quando és miúdo. O Torreense ganhou, no Jamor, a Taça de Portugal contra o Sporting. Pela primeira vez na história, uma equipa da II Divisão conquistou essa competição. Admirável.
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Esta gente, uns com 20s, outros com 38 que até acabaram de ser convocados para um Campeonato do Mundo e até têm um nome que pede o fim da cólera, foram garotos outra vez. Viveram uma tarde que era impensável. Tresandava a sonho da infância. Como quando todos acordávamos domingo santo atrás de domingo santo a imaginar que seríamos os heróis do dia. Que bonita é essa possibilidade, que vertigem lindíssima, não era ego, era compreender o que sentiam os jogadores a sério. Torreense na Europa, quem diria?
Talvez alguns daqueles rapazes que estavam naquela manhã há quase 30 anos, demasiado cedo no relógio, com pais armados em transformers quando estava a chover como nunca vi, sintam o clube a sério e estejam felizes da vida. Oxalá. Pronto, Torreense, agora estamos quites, já não me sinto mal por aquilo de 1999.
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