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O sonho de um dia de verão

05 jun, 2026 • Filipe Mendonça*


Os Jogos Olímpicos são o maior palco do desporto mundial, mas existe um risco de reduzir anos de trabalho a uma única prova disputada num único dia, de quatro em quatro anos.

Confesso-me cansado da pergunta do costume: “E os Jogos Olímpicos?”. A cada entrevista ou aparição pública de um atleta surge a mesma questão. É compreensível. Os Jogos são o maior palco do desporto mundial, mas existe um risco nesta obsessão coletiva: o de reduzir anos de trabalho a uma única prova disputada num único dia, de quatro em quatro anos.

Enquanto consultor de comunicação no desporto, vejo demasiadas vezes carreiras inteiras serem analisadas através desta lente demasiado estreita. Aprendi, há muitos anos, com o olímpico Bruno Pais, uma ideia simples que nunca mais esqueci: “Cada prova é uma prova”.

Parece uma frase banal. Não é. É um mantra que deveria alimentar a alma de todos os que trabalham no desporto, porque nos lembra que um atleta se constrói em milhares de dias invisíveis, muito antes de existir uma linha de partida olímpica.

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Os atletas e nós, profissionais da comunicação, temos a responsabilidade de combater esta narrativa simplista que resume uma carreira ao sonho de um dia de verão olímpico.

Atenção: nada disto tem que ver com desresponsabilização.

Aliás, no triatlo procuramos combater precisamente essa cultura do “não é comigo”. Não porque os contextos não existam. Não porque os problemas não influenciem os resultados. Mas porque podemos aprender a explicar sem desculpar. Encontrar uma razão não é a mesma coisa do que cavalgar uma desculpa.

O que procuramos evitar é que o tom e o conteúdo da justificação, que tantas vezes soa a desculpa, passem a ser mais importantes do que a responsabilidade individual. Defendo este alinhamento comunicacional porque acredito que o verdadeiro respeito pelos atletas passa precisamente por tratá-los como adultos capazes de assumir os resultados, sejam eles bons ou maus.

Se uma carreira vale muito mais do que um dia, então um mau resultado também não precisa de ser transformado numa tragédia, nem numa lista de desculpas. Basta assumi-lo, olhar o país nos olhos e reforçar, com emoção e verdade, aquilo que somos: humanos.

No triatlo, os atletas da Seleção Nacional com quem trabalho assumem os resultados com a mesma naturalidade e coragem com que assumem as suas ambições. No início, sentia que se escondiam na hora de comunicar objetivos porque já estavam preocupados em justificar a sua eventual não concretização. Hoje já não é assim, porque chegámos a um acordo: “A comunicação é o quarto segmento”.

Aconteça o que acontecer, os Jogos Olímpicos continuarão a ser o maior sonho de qualquer atleta. Mas gostava que aprendêssemos a olhar para eles com mais equilíbrio.

Porque os atletas merecem mais do que visões simplistas alimentadas pela ausência de uma verdadeira cultura desportiva. Enquanto responsáveis de comunicação, temos o dever de virar a mesa. De mostrar ao país de que matéria são feitos estes jovens, valorizar o seu caminho e travar as batalhas que forem precisas para que a sociedade não se lembre deles apenas de quatro em quatro anos.

*Consultor de comunicação no desporto

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