Diários de um Conclave
Muitas ansiedades e a “vedette” do momento
08 mai, 2025 • Aura Miguel, enviada da Renascença a Roma
Ao segundo dia do Conclave, a vaticanista Aura Miguel fala da tensão do momento da votação e da maior protagonista da espera pelo fumo branco: a gaivota.
Enquanto se sucedem os escrutínios para eleger o novo Papa, a imprensa italiana revela o testemunho de alguém que já passou por esta experiência.
“Há uma tensão infinita para eleger um Papa de acordo com a vontade de Deus”, desabafa o cardeal Domenico Calcagno, hoje com mais de 80 anos. Interrogado sobre o que viveu no conclave anterior, o cardeal italiano considera que todo o contexto da eleição causa alguma ansiedade. É que, além do juramento, que o mundo viu ontem em direto, feito por todos os cardeais, um a um, com a mão direita sobre o Evangelho, a tensão aumenta quando chega a hora de votar.
Vaticano
O Conclave começou. As portas da Capela Sistina fecharam
133 cardeais eleitores entraram na Capela Sistina (...)
A Constituição Apostólica “Universi Dominici Gregis”, que rege a Vacância da Sé de Pedro e o Conclave, determina que “cada cardeal eleitor, pela ordem de precedência, depois de ter escrito e dobrado a ficha, mantendo-a levantada de modo que seja visível, leva-a ao altar, junto do qual estão os escrutinadores”. Em cima do altar está um um recipiente coberto com um prato para recolher as fichas. Ao chegar aí, o cardeal eleitor pronuncia em voz alta o seguinte juramento: “Invoco como testemunha Cristo Senhor, o qual me há-de julgar, que o meu voto é dado àquele que, segundo Deus, julgo deva ser eleito”. Em seguida, “o cardeal eleitor depõe a ficha de voto no prato e, com este, introduz o voto no recipiente. Depois, faz uma inclinação ao altar, e volta para o seu lugar”.
Para o cardeal Calcagno, seria mais correcto dizer “o que acredito ser a vontade de Deus” e não dizer “segundo Deus”. Enfim, “decidir em nome de Deus, faz-nos ficar mais ansiosos”, conclui o purpurado.
E qual é o pior momento? “O mais intimidante é quando se coloca o boletim na urna, sob o fresco do Juízo Final de Miguel Ângelo”, recorda Calcagno. “No meu coração pensava: será que Jesus me vai julgar pelo que estou a fazer agora, ou ficará feliz?”
A maior protagonista à espera do fumo
Já tem um clube de fãs e até já inspirou os criativos da banda desenhada. É, sem dúvida, a “vedette” do momento, sobretudo, nas horas que antecedem a saída do fumo com os resultados das votações na Capela Sistina. Já lhe chamam “a gaivota do Conclave”. Pousada junto da chaminé, numa posição perfeita para os enquadramentos televisivos e fotográficos, milhões de olhos ansiosos à espera do fumo branco, contentam-se com a presença de uma bela gaivota bem robusta (às vezes são duas), de peito branco, bico amarelo e ar altivo.
Já conhecemos o estilo desde 2013. A protagonista que agora nos entretem pode ser considerada herdeira de uma rica “tradição familiar” quando, a 13 de março de 2013, pouco antes do fumo branco anunciar a eleição do Papa Francisco, uma gaivota foi pousar mesmo em cima da chaminé. Na altura, o sucesso foi tal, que até criaram uma conta nas redes sociais com o nome
“Conclave Seagull” (Gaivota do Conclave). Agora, a “vedette” regressou. Teimosa, quase trocista, ali está ela, impondo-se à vista de todos os que, ansiosamente, aguardamos que o fumo saia da chaminé da Sistina. O que os olhos do mundo querem ver é o fumo branco mas, afinal, passamos horas seguidas a admirar a fleumática ave que, nestes dias, até já reforçou o seu clube de fãs.











