Diários de um Pré-Conclave
Será que entre uma carbonara e um chianti se decide o próximo Papa?
01 mai, 2025 • Aura Miguel, enviada da Renascença a Roma
Na contagem decrescente para o Conclave que vai escolher o próximo Papa, a vaticanista Aura Miguel dá conta dos encontros informais entre os cardeais que vão participar na eleição do sucessor de Francisco.
Hoje é dia de descanso para os cardeais mas, como não há tempo a perder, as conversas informais e encontros prosseguem a título privado. Alguns deles, reúnem-se no apartamento de algum membro da Cúria, outros, combinam almoçar ou jantar, tão discretamente quanto possível, numa "trattoria" ou pequeno restaurante nos arredores do Vaticano.
O destino mais frequente para estas saídas informais é a Borgo Pio, uma das ruas pedonais mais antigas que liga o Vaticano à cidade de Roma, famosa pela variedade de cafés, pizzarias, tabernas e casas de gelados.
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Alguns vestem fato preto e cabeção, como qualquer monsenhor da Cúria, e até escondem o anel cardinalício, na esperança de não serem reconhecidos, mas o olho perscrutador dos jornalistas italianos é implacável e vários nomes famosos têm sido “apanhados”.
Vaticano
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Foi o caso do cardeal alemão Gerhard Ludwig Müller, ex-prefeito da Doutrina da Fé no tempo de Bento XVI, que frequenta o restaurante português “Tre Pupazzi” e foi lá que o encontraram, com um copo de vinho à sua frente e uma conversa rodeada de privacidade, na sala mais escondida do restaurante. Apesar das insistências, o proprietário não se descoseu sobre quem era o outro comensal: “Ele é um meu cliente fiel, não vou dizer com quem está. E se ele nos escolhe, é justamente porque lhe garantimos que não há bisbilhoteiros", disse o proprietário, indicando a saída ao jornalista italiano.
A poucos passos da Porta Sant’Ana (uma das fronteiras do Vaticano) e sempre na mesma rua, encontra-se o “Passetto di Borgo”. Diz a tradição que, nas vésperas dos conclaves anteriores, também por ali passaram vários cardeais e bispos.
Desta vez, foram identificados Sean O’Malley, arcebispo emérito de Boston, famoso pela sua luta contra os abusos e Donald William Wuerl, também ele dos Estados Unidos, que em 2018, resignou por não ter levado a sério as denúncias contra alguns padres pedófilos quando era bispo em Pittsburg.
Um repórter revelou que estes dois cardeais almoçaram rigatoni alla norcina (tipo de massa com queijo fresco de ovelha e salsicha fresca) e uma caprese (salada com mozarela e tomate fresco). À saída, o meu colega italiano meteu conversa com eles: “Será que, entre uma carbonara e uma amatriciana se decidem estratégias e alianças para escolher o novo pontífice?”, perguntou. Os dois homens riram-se e foram-se embora sem responder.
Por estes lados também é costume encontrarmos o cardeal Pietro Parolin, mas hoje ninguém o viu.
O seu nome tem ocupado as primeiras páginas, diariamente referido como um dos principais “papabile”.
Certamente por isso, o ex-secretário de Estado do Vaticano, optou por se manter hoje longe dos olhares curiosos. Sabemos, no entanto, que o seu prato preferido é peixe no forno.
E, ja agora, ainda conseguimos investigar as preferências gastronómicas de dois outros cardeais: sabemos que o sul-coreano Lazarus You Heung-sik gosta de spaghetti allo scoglio (esparguete com frutos de mar) e calamari alla grigia (lulas grelhadas) e que o nicaraguense Leopoldo Solorzano adora gelados, sobretudo o que tem sabor a caramelo.
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