Diários de um Pré-Conclave
Doenças falsas, videojogos e o “Papa negão”
02 mai, 2025 • Aura Miguel, enviada da Renascença a Roma
Nos Diários do Pré-Conclave, a vaticanista Aura Miguel fala do boato (desmentido) sobre o cardeal Parolin, das redes sociais ao rubro na antecâmara do Conclave e de uma canção a favor do cardeal Robert Sarah gerada por inteligência artificial.
A poucos dias do Conclave, aumenta a tensão dos analistas e comentadores. Os media esgotam-se a “contar espingardas” e a tentar identificar as “forças de bloqueio” de um lado e do outro, consoante as várias sensibilidades dentro da Igreja. Sempre foi e será assim. Os “especialistas de Igreja”, sem conhecerem a fundo o que se passa nas reuniões dos cardeais, avançam com teses e esquemas mirabolantes para valorizar o seu candidato, em detrimento de outros eventuais "papabili".
Foi o que aconteceu ontem: a imprensa italiana divulgou que o cardeal Pietro Parolin se sentiu mal e teve um grave episódio de tensão alta, ao ponto de terem de chamar uma equipa médica de urgência. Tudo falso, disse esta sexta-feira o Vaticano. “O cardeal Parolin não está doente. A notícia não verdadeira”, afirmou Matteo Bruni, Diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé.
Usar a doença para afastar cardeais “papabili” não é uma novidade. Em 2013, os jornais publicaram uma lista com os achaques de alguns candidatos antes de entrarem para o conclave que elegeu Francisco. Em 1958, também o “papabile” cardeal Roncalli foi vítima destes esquemas. Os jornais começaram a espalhar que ele sofria muito de diabetes. Contam as crónicas que, antes do Conclave, no intervalo de uma Congregação geral, Roncalli tira da sua pasta um grande bolo cheio de açúcar e creme e come-o, com prazer, diante de todos. Dias depois viria a ser eleito Papa com o nome de João XXIII.
Vaticano
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O “FantaPapa” e outras loucuras
Outro dos universos usados para escoar toda a criatividade dos que não são cardeais e gostam de protagonismo, são as redes sociais. É impossível trazer aqui um resumo das milhares de iniciativas em curso. Aqui em Itália foi criado um jogo online, já com 70 mil jogadores (amanhã, provavelmente, o número já aumentou), com o sugestivo nome “FantaPapa”.
Tal como numa equipa de futebol, os utilizadores têm de escolher 11 cardeais que consideram ter mais hipóteses de se tornarem o próximo pontífice.
O jogo foi criado por dois italianos, um programador de software e um informático, que já tinham criado o “FantaCalcio”, para adivinhar os resultados do futebol, e o “FantaRemo”, sobre quem ganha no festival da canção.
Agora, com o “FantaPapa”, os jogadores têm de escolher os retratos de 11 cardeais que considerem ser os principais candidatos à sucessão de Francisco e devem também designar um "capitão" - o cardeal que imaginam ser o mais provável vencedor - e um "guarda-redes", ou seja, aquele que terá menos chances de ser eleito. E só quando sair o fumo branco, no Vaticano, é que se vai saber quem ganhou.
Enfim, o recurso à a Inteligência Artificial também ajuda à criatividade, mas nem sempre é rigorosa. Por exemplo, inventaram uma “pole position” da Ferrari e, como os cardeais têm vestes vermelhas, apresentam-se dinamicamente os nomes mais “badalados”, só que o rosto de alguns deles não coincide com o nome.
Outro dos recursos da IA, desta vez bem mais divertido, é a canção a favor do cardeal Robert Sarah, referência para os mais conservadores e conhecido pelo seu rigor litúrgico. Para este animado grupo de apoiantes, o cardeal da Guiné-Conacri, com 79 anos, deve ser Papa e a canção explica porquê.
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