Diários de um Conclave
Histórias do Vaticano e os bastidores da Cúria Romana. Até à eleição do sucessor de Francisco, a vaticanista Aura Miguel, enviada especial a Roma, assina a rubrica Diários de um Conclave. Todos os dia na emissão da Renascença, no site e em podcast.
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“Um de nós já não sai de lá!”
Imagem: Rodrigo Machado/RR

Diários de um Conclave

“Um de nós já não sai de lá!”

07 mai, 2025 • Aura Miguel, enviada da Renascença a Roma


Com os cardeais a fechar-se ao mundo até eleger o novo Papa, a vaticanista Aura Miguel conta episódios da entrada na Casa Santa Marta e a reação dos cardeais à possibilidade de serem eleitos.

Os 133 cardeais estão prestes a começar a votar, fechados à chave dentro da Capela Sistina. A incógnita é total sobre o que lá se passa, sobre como vão evoluir as votações e sobre quem vai recair a escolha. A única coisa que sabemos é que a vida de um deles vai sofrer uma reviravolta.

Recordo, como se fosse hoje, o dia em que o Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, entrou no Conclave de 2005. Depois do almoço, saiu do Pontifício Colégio Português onde estava alojado para se dirigir à Casa Santa Marta e os hóspedes do Colégio (onde eu também me incluía) fomos convidados a despedirmo-nos dele à saída. Com uma pequena mala na mão e semblante amigável, disse-nos a todos: “Rezem, rezem, porque um de nós, já não sai de lá!”

Na verdade, a partir de hoje, o destino de cada um dos 133 cardeais eleitores é um mistério que nem os próprios conhecem. Talvez por isso, nestes dias, tenham surgido reacções caricatas de alguns cardeais confrontados pelos jornalistas com a possibilidade de virem a ser eleitos: “Papa, eu? Só se for papa frita…”, disse o cardeal argentino Angel Sixto Rossi, usando um trocadilho relacionado com palavra “papa” (batata) usada nos países latino-americanos.

Igualmente cómica foi a reação do cardeal espanhol Cristobal Lopez Romero, arcebispo de Rabat: “Quem quer ser Papa deve estar doente da cabeça”, afirmou numa entrevista. “E se eu vislumbrar o perigo de ser eleito no Conclave, tento escapar e hão-de encontrar-me na Sicília!”

Entretanto esta manhã, na missa solene “Para a eleição do Papa”, o cardeal decano, Giovanni Battista Re, pediu orações a todos, durante a homilia: “Rezemos para que Deus conceda à Igreja o Papa que melhor saiba despertar as consciências de todos e as energias morais e espirituais na sociedade atual, caracterizada por um grande progresso tecnológico, mas que tende a esquecer Deus”, implorou. Mas quer o cardeal Re, com 91 anos, quer muitos outros com mais de 80 anos, ficam de fora do Conclave e só vão saber o que lá se passa através do fumo que sairá da pequena chaminé da Sistina.

Há séculos que é assim e já sabemos como tudo funciona; mas não deixa de ser caricato este tipo de comunicação dos cardeais eleitores com o mundo exterior. E até haver fumo branco, valha-nos a criatividade sem limites, que até ajuda a desanuviar a tensão da espera, como neste pequeno episódio relacionado com as aventura do Tintin.

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  • Maria
    07 mai, 2025 Palmela 15:47
    Entao e o fumo e quando?