Violência doméstica
GNR e PSP apostam em apoio psicológico. “Alguns apresentam desgaste e burnout, isto mexe com as nossas entranhas e as nossas emoções”
27 abr, 2026 • Liliana Monteiro
Neste episódio de Romper o Silêncio, fala-se de como melhorar o desempenho dos profissionais no atendimento a casos de violência doméstica.
PSP e GNR estão focadas em melhorar o desempenho dos profissionais no atendimento a casos de violência doméstica, apostando na formação e no apoio psicológico a quem está na linha da frente.
Entre 2024 e 2025 aumentaram as detenções em flagrante delito nos casos de violência doméstica.
“Temos tentado garantir a continuidade dos profissionais porque é uma área com grande desgaste emocional e físico. Não é fácil ouvi-las durante muitas horas; temos de ter resiliência e conseguir garantir a sua segurança”, explica a major Andreia Lopes, chefe de Repartição de Investigação e Apoio a Vítimas Específicas da Direção da GNR.
“Alguns apresentam desgaste, burnout. Isto mexe com as nossas entranhas e as nossas emoções. Temos de garantir apoio psicológico; às vezes é difícil separar o trabalho da família e das nossas relações”, acrescenta, em declarações ao podcast Romper o Silêncio, da Renascença, em parceria com a Associação Portuguesa de Mulheres Juristas (APMJ).
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Nesta semana — em que o tema é “Fui à polícia, e agora?” — participa também a comissária chefe do Núcleo de Operações do Comando Metropolitano de Lisboa da PSP. Inês Lemos afirma que “esta é uma área muito desgastante e tem de haver preocupação da PSP em dar acompanhamento psicológico aos polícias que trabalham neste atendimento”. Vê com naturalidade a rotatividade de polícias que trabalham nesta área: “Não vamos estar à espera que o polícia faça isto para o resto da sua vida, quando tem uma panóplia de possíveis missões.”
Para acompanhar estes profissionais, PSP e GNR apostam na formação e no acompanhamento psicológico.
No caso da PSP, a comissária Inês Lemos revela: “Num ano há entrevista psicológica aos agentes que trabalham com a violência doméstica e, no ano seguinte, realizam um teste psicotécnico. Garantimos assim o acompanhamento.”
Apostam também em formação junto dos magistrados do DIAP que trabalham nesta unidade, nomeadamente sobre como descrever os factos no auto de notícia, o que é importante que conste no documento e que perguntas fazer para desencadear o processo e proteger a vítima.
Já na GNR, a major Andreia Lopes, formada em apoio a vítimas específicas e prevenção criminal, explica o procedimento: “Temos ações programadas todos os meses nos núcleos especializados para os militares da primeira linha, para correção de procedimentos. A formação é contínua. Além da formação inicial nos cursos de ingresso e de promoção, temos cursos especializados: um mais na prevenção criminal e outro mais na investigação”.
GNR recebe militares mais novos
“Este ano abrimos concurso no Núcleo de Investigação e Apoio a Vítimas Específicas (NIAVE) e tivemos muita adesão de militares mais jovens, o que traz uma dinâmica diferente", explica.
"Quem vem para esta área vem porque quer mesmo, seja porque já conheceu alguém que foi vítima, seja porque sente que nesta área consegue fazer a diferença”, acrescenta a major Andreia Lopes, da GNR.
As vítimas de violência doméstica muitas vezes deixam de colaborar
O crime de violência doméstica é público, ou seja, não depende da queixa da vítima, não podendo esta desistir do processo.
As polícias notam: “Acontece muito que, quando são chamadas para prestar declarações, comparecem, mas não querem falar, ou porque não se lembram, ou porque o agressor já mudou o comportamento e reataram a relação — razões que as levam a deixar de colaborar convosco”, explica a major da GNR.
Ainda há medos e tabus quando se pensa na queixa
A juíza conselheira Teresa Féria considera que “ainda há medos".
E exemplifica: "Um tem a ver com a sensação que as vítimas têm de que vão mergulhar num turbilhão de perguntas e diligências. Pensam também: ‘A polícia não vai fazer nada.’ Muitas outras pessoas dizem que não se vão meter e fazer denúncia porque não querem chatices”.
A juíza, presidente da APMJ, diz que, do ponto de vista da vítima, ela “vai entrar num turbilhão para sair de outro”.
Qualquer pessoa “pode e deve fazer queixa”
No mais recente episódio de Romper o Silêncio fala-se do processo de queixa das vítimas e do que acontece depois. A major Andreia Lopes esclarece que a “queixa pode ser feita pela própria vítima, por vizinhos, pela escola, por médicos de família — qualquer pessoa a pode e deve fazer”.
A queixa, ou denúncia, pode ser feita de forma presencial, por telefone, email ou até através de uma chamada para o 112, sendo que a patrulha mais próxima se desloca ao local. E sublinha que “para a queixa basta uma suspeita; não é preciso ter a certeza do crime”.
Quando essa queixa chega, “a GNR recolhe informação, prova, faz a avaliação de risco, verifica se é preciso acolhimento em casa de abrigo, segue o manual das 72 horas e avalia também se os filhos estão em segurança”.
A comissária Inês Lemos, da PSP, sublinha que “a denúncia é importantíssima para desencadear uma investigação, porque a polícia vai ao local da ocorrência, verifica o que se passa e inicia o processo”.
No Comando Metropolitano de Lisboa há oito estruturas de atendimento policial específico para vítimas de violência doméstica, com profissionais formados para este tipo de crime.
Onde fazer queixa online?
- proximidade@psp.pt
- violenciadomestica@psp.pt
- www.gnr.pt/contactos.aspx
- https://www.112.pt/Paginas/Home.aspx
- www.gnr.pt/MVC_GNR/Home/SmsSeguranca
Todos os casos são avaliados e classificados com um dos quatro níveis de risco previstos no Plano de Segurança: risco baixo, médio, elevado e extremo (neste caso, contacta-se de imediato o Ministério Público e avança-se para a garantia de segurança imediata; a vítima pode ser encaminhada para uma casa-abrigo ou acolhimento de emergência e podem ser emitidos mandados de captura).
Jovens normalizam agressões
A comissária Inês Lemos diz que deteta cada vez mais aceitação do crime.
“Os jovens têm normalizado comportamentos abusivos, como o controlo — com quem está, o que veste, com quem vai sair — e estes não são comportamentos normais no namoro”.
Sublinha que “muitos dos indicadores se repetem: o controlo tanto se vê num jovem de 18 anos como num relacionamento de longa duração, aos 40 ou 50 anos. Infelizmente, há coisas que se vão normalizando, e isso não é aceitável”.
E quando a vítima é morta?
Confrontada com a questão, a comissária Inês Lemos comenta de imediato: “É frustrante para qualquer um de nós e para a sociedade. Quando nos ligam, dizemos ‘é uma vítima minha’, e isso tem bastante impacto; questionamo-nos logo sobre o que se poderia ter feito de diferente”.
Quantos elementos das forças de segurança trabalham nesta área?
Na GNR, no NIAVE, trabalham atualmente 190 militares.
Na PSP, no Comando Metropolitano de Lisboa, trabalham 326 agentes no Modelo Integrado de Policiamento de Proximidade; destes, 141 integram as Equipas de Proximidade e Apoio à Vítima.
Números revelam aumento das detenções em flagrante
A GNR registou uma diminuição do número de crimes de violência doméstica. Entre 2024 e 2025, houve menos 343 crimes, num total de 14.071 no último ano.
Diminuiu também o número total de detenções, mas aumentaram as que ocorreram em flagrante delito.
Em 2024, foram 1450 detenções, 373 em flagrante delito; já em 2025 foram detidas 1410 pessoas, 389 em flagrante delito.
Na PSP, diminuíram as denúncias: em 2024 foram 15.782 e, em 2025, 15.546.
No entanto, também aumentaram as detenções em flagrante delito, ou seja, quando a agressão ainda estava a ocorrer: em 2024 foram 625 e, no ano passado, 666.
Estes e outros pormenores sobre todo o processo, proteção e acompanhamento feito pelas autoridades nos casos de violência doméstica podem ser escutados neste episódio do Romper o Silêncio.
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