Dúvidas Públicas
Álvaro Rocha: "Por cada posto de trabalho criado, a Inteligência Artificial vai destruir dois"
07 fev, 2026 • Sandra Afonso , Arsénio Reis
O investigador e professor de Sistemas de Informação do ISEG Álvaro Rocha diz que a Europa deve seguir o exemplo da China e produzir as suas próprias ferramentas de Inteligência Artificial. Em entrevista à Renascença, o investigador defende “legislação que penalize” quem causa dano através da IA e subsídios para democratizar o acesso às novas ferramentas digitais. Rocha avisa que nos próximos anos vamos assistir a uma revolução no mundo laboral.
Álvaro Rocha, cientista, investigador e professor universitário, olha para as novas tecnologias, a digitalização e, sobretudo, a Inteligência Artificial (IA) Generativa como a revolução mais rápida e impactante da história.
O especialista admite que a questão tem duas faces, como as moedas, um lado bom e em lado mau, mas é imparável. É preciso entrar no carrossel e aprender a manter o equilíbrio.
Em entrevista ao programa de economia Dúvidas Públicas, da Renascença, o professor do ISEG - Instituto Superior de Economia e Gestão diz que “ainda não estamos preparados para as baixas que vamos ter a nível do mercado de trabalho”.
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Nos próximos anos vão surgir muitas profissões novas, “mas vamos ter o abatimento de muitos postos de trabalho, vai ser bastante superior ao número de novos postos de trabalho. O dobro de decréscimo de postos de trabalho”, conclui.
Rocha também para a dificuldade cada vez maior em distinguir o que é real e defende subsídios para que mais pessoas tenham acesso a ferramentas digitais pagas, uma forma de integração e combate às desigualdades.
É um dos críticos do “Manifesto contra a Inteligência Artificial” que quer proibir a utilização da IA nas universidades. Desde logo, porque não se pára uma revolução. Como deve reagir o ensino superior?
Houve uma reação maciça, precisamente contrária aos autores desse Manifesto, penso, infeliz. Não é proibindo que se evolui, mas sim redefinindo a nossa sociedade para se adaptar à IA e às potencialidades que tem para nos oferecer, que são muitas. Já sofremos muitas revoluções ao longo dos séculos, esta revolução da IA é mais uma.
Vivíamos na sociedade da informação e está a haver uma disrupção para que a sociedade seja, se já não é, uma sociedade da inteligência máquina.
Eu não gosto muito de chamar inteligência artificial, porque se é artificial, não será inteligência. E os computadores e os algoritmos caminham para imitar cada vez mais o raciocínio crítico e o pensamento dos humanos. Chamar de inteligência artificial penaliza este aporte que houve recentemente e o impulso com a inteligência artificial generativa. Eu prefiro falar em inteligência máquina.
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Essa inteligência máquina, como lhe chamou, produz pensamento próprio, tal como os humanos?
Sim, vai aprendendo. O grande desafio da inteligência artificial é que a máquina aprenda cada vez mais por si própria. E tem-se demonstrado que, na realidade, seguimos nesse caminho.
Até que nível vamos chegar, não consigo neste momento vislumbrar. Mas caminha-se nesse sentido. Falta, certamente, a parte mais humana e sentimental das pessoas. Mas, a outros níveis, temos verificado que a máquina mimetiza o que os humanos fazem, abrangendo muito mais informação, com maior rapidez e com mais precisão. Também porque funciona em rede.
A rede levou à denominada sociedade da informação, com a descoberta e com o impulso da internet. E, sobretudo, quando apareceu a web. Até ali as organizações, as empresas, trabalhavam pouco em rede. A partir dessa altura, os processos foram-se alterando.
Houve uma adaptação da sociedade, mas as mudanças estruturais da web não têm o alcance da inteligência artificial. A inteligência artificial cruza todas as áreas do negócio, todas as sensibilidades, e evolui a uma velocidade superior ao que já alguma vez aconteceu no mundo. É um driver transformador que vai mudar muito do que existia.
Já disse que a inteligência máquina, como lhe chama, a inteligência artificial, está a desenvolver o raciocínio crítico e também já admitiu que influencia a forma como pensamos, consumimos, nos relacionamos. Estamos a saber utilizar esta ferramenta ou estamos a criar maus hábitos?
As ferramentas têm sempre aspetos positivos e aspetos menos positivos. As vantagens que se conseguem com a adoção correta e adequada da IA são muito grandes. Obviamente, como qualquer tecnologia, há sempre algumas desvantagens.
Mas nós vamos, de facto, mudar enormemente. Estamos nessa veia transformadora e acelerada desde há três anos, desde que a IA recebeu o boost, o impulso, da inteligência artificial generativa, em que se democratizou a utilização da IA.
A IA já estava embebida em muitos processos de negócio, por exemplo, a nível hospitalar ou na área da saúde, com diagnósticos a partir de imagens, com algoritmos inteligentes, facilitando a decisão dos profissionais de saúde.
Isso leva-nos a uma das consequências da aplicação destas novas tecnologias, que é o impacto no mundo do trabalho. Estamos preparados para a redução de postos de trabalho na dimensão em que se antecipa?
O humano, por natureza, é avesso à mudança e quando a mudança se impõe é preciso geri-la bem. Tem de haver processos de gestão da mudança. Por exemplo, a nível dos sistemas informáticos da área da saúde, por muito bom que o sistema informático seja, é muito difícil receber feedback positivo dos profissionais da saúde, porque eles resistem a quebrar rituais ou rotinas.
A resistência à mudança pode ser minimizada se tivermos gestores ou alguém que se preocupe em preparar as pessoas para a mudança.
Há custos sociais. É uma questão de literacia sobre a adoção de ferramentas de IA e também uma literacia sobre as mudanças que isso implica na sociedade e na economia.
Acha que os custos sociais desta revolução têm sido discutidos como deveriam no nosso país? Porque, haverá custos sociais?
Sim, há custos sociais. É uma questão de literacia sobre a adoção de ferramentas de IA e também uma literacia sobre as mudanças que isso implica na sociedade e na economia.
O Papa Leão XIV diz que “a revolução digital exige literacia digital”. Este caminho está a ser feito, no geral e em Portugal, em particular?
Sim, grande parte do caminho já foi feito. Inicialmente lutava-se muito pela literacia digital das pessoas, mas remete-se isto para 20 anos atrás, 25, 30, quando começou a haver o grande boom da web, a partir de 1995. Houve um esforço grande para que as pessoas tomassem contacto com essa tecnologia, tivessem acesso à internet e hoje, em países evoluídos, ou sobretudo os mais ocidentais, a adesão ou o número de pessoas que têm acesso à internet é muito grande.
Esse caminho foi feito, a esmagadora maioria das pessoas já tem alguma literacia digital que vai ser importante, porque a inteligência artificial não é mais do que um modo de digitalidade, de pôr os sistemas, de pôr a sociedade a trabalhar com mais uma ferramenta informática.
A inteligência artificial normalmente são softwares que fazem qualquer coisa, é digital.
Como produtora de conteúdos, a própria IA tira receita e visibilidade a quem publica online, privados e empresas. Podemos vir a assistir a uma reestruturação dos conteúdos publicados pelos media, marcas e até pelos chamados influencers?
Sim, com a inteligência artificial generativa, aquelas perguntas que nós costumávamos fazer, por exemplo, nos motores de busca ou de pesquisa clássicos, são respondidas com resumos. Dão-nos uma resposta sem nos levar ao local original dos conteúdos.
É necessário regular algo que defenda os produtores de conteúdos, as fontes originais dos conteúdos. Porque se não há conteúdos, a inteligência artificial generativa não tem resultados para mostrar
Às fontes originais. Passam por cima disso e acabam por servir “um prato pré-feito”.
Exatamente. O que acontece é que os criadores de conteúdos deixam de ter a receita deles, porque o dinheiro que vem da publicidade nos seus conteúdos tem a ver com o número de acessos, se este diminui, eles vão receber menos receita publicitária e podem tender para a morte. Eu penso que aqui é uma questão de regulação.
É necessário regular algo que defenda os produtores de conteúdos, as fontes originais dos conteúdos. Não sei se serão as empresas que têm modelos de IA generativa a pagar aos criadores dos conteúdos, mas tem de facto que se arranjar aqui um modelo que permita que ambas as partes ganhem. O "win-win".
É um negócio em que todos têm de ganhar, porque se não há conteúdos, a inteligência artificial generativa não tem resultados para mostrar. Ou então se mostra, são resultados muito parciais, porque o conteúdo disponível é muito escasso. Vão promover respostas que são menos certeiras, onde há mais enviesamentos, onde há menos abrangência.
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Falou da regulação. A Europa tem sido muito criticada por excesso de regulação que leva até a uma perda de competitividade face aos Estados Unidos ou à China, por exemplo. Precisamos ou não de mais regulação?
Uma coisa é boa regulação, e essa deve existir sempre. Outra coisa é regulação que atrasa o processo de inovação.
É que a Europa, e os Estados Unidos também um pouco, têm um processo burocrático muito superior ao da China. A China, desde que tem uma descoberta, e essa descoberta passa a ser um produto no mercado, anda à volta de ano e meio. Na Europa, depois de um produto ser descoberto até pô-lo a funcionar no mercado, normalmente demora quatro ou quatro anos e meio. Isso é claramente uma grande desvantagem.
Temos um hiato de três anos para a China. Como é que alguma vez vamos recuperar este atraso se não mudarmos as nossas legislações, se não mudarmos os nossos regulamentos?
Mas regulamentos bons são bem-vindos. Legislação boa, que reduza o tempo para tomar decisões e para operacionalizar as coisas que foram descobertas, é bom.
O comércio livre acabou com Trump. Temos que colocar barreiras à tecnologia Trump ou eles é que continuam a faturar e nós a pagar
A Europa já entrou nesta corrida com atraso?
O primeiro browser para a web foi criado na Europa, pelo Tim Berners-Lee. Mas o primeiro browser comercial para fazer dinheiro foram empresas dos Estados Unidos que o puseram cá fora. Isto acontece com um seguidismo ao que é feito nos Estados Unidos que me assusta.
Agora, com estas iniciativas de Donald Trump de querer impor taxas e mais taxas nas importações e nas exportações, devíamos fazer como os chineses. Nós chegamos à China, não temos Facebook, não temos WhatsApp, não temos YouTube, não temos Gmail. Aquelas grandes aplicações que são usadas no mundo ocidental, eles lá bloqueiam-nos.
Acho que Macron já deu um sinal, a administração pública de França está proibida de usar para videoconferências o Zoom, o Teams e o Microsoft Teams, tem de ser uma aplicação francesa. Nós devíamos caminhar, no geral, para tudo isso.
Os chineses defendem a sua economia. Nós, até agora, não defendemos, porque estávamos numa base de comércio livre. O comércio livre acabou com Trump. Temos que colocar barreiras à tecnologia Trump ou eles é que continuam a faturar e nós a pagar.
Citando mais uma vez o Papa Leão XIV, alerta para o pequeno número de empresas que controlam a “enorme força invisível” que é a IA. Acaba de dizer que também acha esta concentração perigosa, pelo que entendi. Mas os consumidores vão aceitar trocar para aplicações que não têm a mesma abrangência?
Podem não ter inicialmente, mas com a participação de todos na construção e na evolução da ferramenta, conseguiremos chegar lá.
Por exemplo, o WeChat da China, em termos de facilidade de intuitividade, usabilidade, portanto facilidade de uso, é inferior ao WhatsApp, mas tem coisas melhores, por exemplo, um sistema de pagamentos que o WhatsApp não tem. Nós iríamos desenvolver as nossas ferramentas e passo a passo poderíamos chegar a um ponto de maturidade elevado.
Inicialmente ia ser um choque para as pessoas que estavam habituadas a usar Facebook, WhatsApp, Teams, Zoom, mas iríamos alimentar a nossa economia, iríamos deixar de dar o ouro ao bandido.
A China também tem uma outra razão para fechar o mercado aos americanos. É que a China, em termos de número de pessoas, é o segundo mercado do mundo, muito próximo do primeiro que é a Índia. E, portanto, fechou o mercado aos Estados Unidos.
Nós acomodamo-nos. Os chineses fecharam o mercado e, obviamente, tiveram que se mexer. Tem duas empresas de topo na área da Inteligência Artificial, como é o DeepSeek e o Kimi, que têm desempenhos muito bons e similares à tecnologia que vem dos Estados Unidos.
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A Europa teria a ganhar económica e socialmente em avançar para soluções desse tipo?
Nas duas perspetivas, sim. Se a Europa tratasse de ter os seus próprios produtos para ferramentas que são, de facto, fundamentais nos dias de hoje, ferramentas de rede social, ferramentas de videoconferência, ferramentas de chat e por aí fora, nós iríamos ganhar, porque deixávamos de dar a ganhar aos Estados Unidos. O nosso dinheiro, em vez de sair, ficava na Europa.
Também poderia reforçar a cibersegurança?
As ferramentas de Inteligência Artificial vão proporcionar vantagens, quer à vertente do ataque, quer à vertente da defesa. Claro que ferramentas de Inteligência Artificial vão facilitar ataques, mas também vão detetar, prever ataques mais antecipadamente e tapar os buracos e levar às mudanças que forem necessárias. Portanto, eu aqui vejo sempre uma balança com dois pratos.
Hoje com a Inteligência Artificial estamos num mundo terrível. Até há uns anos, éramos educados e sabíamos o que era verdade e o que era mentira. Hoje não sabemos
Neste momento estamos a antecipar ataques ou a correr atrás do prejuízo?
Já estamos a antecipar ataques. Agora, por exemplo, a nível do "spear phishing", em que alguém faz a clonagem da imagem e da voz de um CEO de uma dada empresa e envia um vídeo para os subordinados dessa pessoa, passando-se por essa pessoa, vai ser perigoso, provavelmente vão acreditar que é o CEO. Hoje com a Inteligência Artificial estamos num mundo terrível.
Até há uns anos, éramos educados e sabíamos o que era verdade e o que era mentira. Hoje não sabemos, porque a mentira é tão próxima da realidade que passa a ser verdade.
Hoje é muito difícil tomar decisões porque olhamos para determinados vídeos, para determinadas imagens e ficamos na dúvida se são reais ou se são montadas por Inteligência Artificial.
Tudo o que vem da IA deve ser validado, confirmado e criticado
É por isso que diz que tudo o que vem da IA deve ser validado, confirmado e criticado?
Tudo o que vem da IA deve ser validado, confirmado e criticado, naturalmente.
Mas o utilizador comum tem ferramentas para isso?
O problema é detetar se vem da IA, porque é muito difícil.
Havendo clonagem de voz, havendo clonagem de foto, havendo clonagem de movimento, há ferramentas para montar um vídeo em que a pessoa, por exemplo, está a caminhar nas Maldivas e simultaneamente está a dizer olá meus amigos, um abraço aqui destas praias maravilhosas.
Está a ser muito simpático, a ferramenta pode ser utilizada para muito mais.
Claro, poderá ser usada com maldade. Aí são questões da cibersegurança.
Nós temos que aprender a viver neste mundo de desinformação, neste mundo em que a diferença entre o irreal e o real é tão ténue que nós não sabemos para que lado devemos cair
Há capacidade para pôr chefes de Estado e pessoas em lugares de peso a dizer coisas que não dizem. Ou para mudar o rumo de uma campanha eleitoral, logo, de uma vitória ou de uma derrota eleitoral.
Sim, basta ir ao Facebook e ver as centenas, milhares de imagens do Cristiano Ronaldo, em contextos absolutamente diferentes, dispares, a maior parte das imagens olha-se para elas e fica-se na dúvida: é real ou é informação falsa?
Isto é uma das adaptações da sociedade que é obrigatória. Nós temos que aprender a viver neste mundo de desinformação, neste mundo em que a diferença entre o irreal e o real é tão ténue que nós não sabemos para que lado devemos cair.
E como é que se despista esta informação falsa, além dos cuidados que os utilizadores devem ter, já foi aqui referido, validar, confirmar, criticar, é também necessário reforçar a legislação, reforçar penas e coimas para dissuadir os infratores? Qual é a sua opinião?
Acho que é preciso trabalhar de facto a legislação para que os infratores possam vir a ser penalizados quando há prejuízo de pessoas, quando há prejuízos de empresas, quando na realidade houve maldade. Acho que ainda estamos muito no início a esse nível.
Mas caminhamos para lá?
Temos que caminhar. Não é o caminhamos porque, pelo meu conhecimento, isto são coisas que têm sido pouco abordadas, precisam de ser mais abordadas, trabalhadas e efetivadas. Ou seja, temos de facto que ter legislação para isto mas também temos que ter outra coisa: ferramentas de inteligência artificial que consigam de facto validar e confirmar se é falso ou não é falso.
Portanto, a inteligência artificial tem capacidade para gerar objetos, gerar resultados sem qualquer intervenção humana e sem um humano verdadeiro estar envolvido. Também os humanos têm que conseguir ferramentas, e há gente a trabalhar nisso, que consigam de facto validar, mas com uma percentagem muito grande de acerto.
Se você escreve um documento e depois pede a uma das ferramentas de inteligência artificial generativa para fazer uma revisão, vai-lhe indicar que 85% do texto poderia ter sido gerado por inteligência artificial generativa, não é capaz de dizer que foi mesmo gerado por IA generativa.
Não há 100% de certeza, e nós temos de ter ferramentas que nos digam com 100% de certeza se foi gerado por IA e, se sim, em que percentagem. Temos de ter essas ferramentas, conjugadas com legislação que permita depois aos infratores serem penalizados pela justiça.
Com a sua experiência, com o seu conhecimento nesta área, o que é que teme mais tendo em conta a velocidade com que as tecnologias estão a evoluir, incluindo naturalmente a inteligência das máquinas, como já designou?
Como humano, o que me preocupa mais, essencialmente, é que isto vai ser um processo longo para que as pessoas obtenham literacia e astúcia para lidar com estes resultados, estes objetos que resultam da utilização de ferramentas diárias. Acho que ainda temos um caminho grande para percorrer.
Tal como as pessoas tiveram que ter literacia da web, do e-mail, por aí fora, agora há a literacia de aumentar a nossa capacidade, a nossa perspicácia para verificar se na realidade é falso ou se é verdadeiro aquilo que nos é apresentado.
Agora, as máquinas são programadas por nós, os algoritmos são criados por nós, o humano não parece que, pelo menos nos próximos tempos, deixe de ter a sua função supervisora e de controle de toda esta tecnologia.
Num país como Portugal, e olhando agora um bocadinho para a nossa realidade, esta revolução tecnológica vai ou não, na sua opinião, acentuar as desigualdades? Ou poderá até melhorá-las?
Pode acentuar desigualdades porque as ferramentas de IA são gratuitas, com grandes limitações. O acesso a versões que nos consigam melhores ações, melhores resultados, têm o seu pagamento.
Se quisermos, de facto, atenuar essa desigualdade, tem de haver um subsídio para os cidadãos de maneira que todos possam, de facto, ter acesso a ferramentas de IA
Como é que isso se poderia combater, professor?
Com um investimento talvez do Estado, de maneira que houvesse uma licença pelo menos de nível médio para todos os cidadãos do país ou da Europa. Tal como se fez, por exemplo, aqui há uns anos, no âmbito do acesso às bases de dados científicas, em que os professores das instituições de ensino superior em Portugal tinham acesso a todos os conteúdos das bases de dados aderentes a esse projeto, pago pelo Estado.
Se quisermos, de facto, atenuar essa desigualdade, tem de haver um subsídio para os cidadãos de maneira que todos possam, de facto, ter acesso a ferramentas de IA, pelo menos até um nível intermédio.
Como é que imagina o mundo dentro de 10 anos e que papel terá o ser humano nele? Provavelmente teremos mais robôs humanoides?
Sim, penso que vai haver um incremento grande dos robôs, quer na indústria, quer nos cuidados de saúde, com assistentes virtuais, onde vai haver também uma grande evolução, porque estamos no início da utilização dos agentes para realizar tarefas.
Por exemplo, tenho um apartamento para alugar, quero anunciá-lo em portais de imóveis ou de imobiliárias, peço a um agente de inteligência artificial. Dou a descrição do apartamento e fotos e indico os portais onde quero que publique.
Nós já temos agentes de inteligência artificial para fazer isso. Ainda precisamos de evoluir um pouco mais porque eles vão estar cada vez mais presentes nos processos, a realizarem atividades que eram realizadas por humanos. Os humanos têm controle sobre as atividades que os agentes realizam e podem intervir, podem dar orientações.
Nós ainda não estamos preparados para as baixas que vamos ter a nível do mercado de trabalho, enquanto trabalhadores
Isso quer dizer que nos próximos anos a transformação no mercado de trabalho, nas profissões, vai ser muito visível?
Vai, vai. Nós ainda não estamos preparados para as baixas que vamos ter a nível do mercado de trabalho, enquanto trabalhadores. Vamos ter redução do número de trabalhadores. Naturalmente que vamos ter outras profissões novas, como engenharia de PROMPT, como engenharia de dados, como engenheiro de inteligência artificial, recentemente começaram a emergir formações em Portugal na área de engenharia de inteligência artificial.
Começa-se a preparar o futuro e o futuro vai ter novas profissões, mas vamos ter o abatimento de muitos postos de trabalho e penso que o número de abatimentos vai ser bastante superior ao número de novos postos de trabalho.
Qual é a sua expectativa? Qual poderá ser a ordem de grandeza?
Diria que será aí do dobro, pelo menos. O dobro de decréscimo de postos de trabalho (face à criação). Vamos perder postos de trabalho.
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