Dúvidas Públicas
Aumentos semanais de 10 cêntimos no gasóleo e de 5 na gasolina? "Sim, é um cenário possível"
07 mar, 2026 • Sandra Afonso , Arsénio Reis
Nuno Ribeiro da Silva defende medidas temporárias para atenuar a subida do preço dos combustíveis devido à guerra no Irão. Em entrevista à Renascença, o ex-presidente da Endesa e antigo secretário de Estado da Energia acredita que o petróleo não vai atingir a barreira psicológica do 100 dólares por barril e considera que o conflito no Médio Oriente pode favorecer o turismo em Portugal.
Quanto mais tempo durar a guerra no Irão pior e aumentos semanais a rondar os 10 cêntimos/litro no gasóleo e de 5 cêntimos na gasolina são um "cenário possível", admite Nuno Ribeiro da Silva, ex-presidente da Endesa e antigo secretário de Estado da Energia, em entrevista ao programa Dúvidas Públicas, da Renascença.
O especialista no setor energético defende medidas temporárias para atenuar a subida do preço dos combustíveis devido à guerra no Irão. No início da próxima semana, atestar o automóvel a gasóleo poderá ficar cerca de nove euros mais caro.
O antigo secretário de Estado da Energia considera que o conflito no Médio Oriente atinge "o banco mundial do petróleo e do gás", mas acredita, no entanto, que o petróleo não vai ultrapassar a barreira psicológica dos 100 dólares por barril.
Também considera que o conflito no Médio Oriente pode favorecer o turismo em Portugal, porque "quem gosta de ir tomar banhos de água quente no Golfo Pérsico, no Mar Vermelho, quer ir para sítios mais calmos, fora do raio de ação dos mísseis do Irão".
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No início do ano, a maioria das estimativas apontavam que em 2026 o preço do petróleo andaria por volta dos 55 a 60 dólares o barril. Com o ataque ao Irão, já ultrapassa os 80 dólares. Pode ficar acima dos 100 dólares?
Pode, o petróleo é uma commodity (matéria-prima) que dança muito ao sabor de situações objetivas, do equilíbrio entre a oferta e a procura, mas também muito ao sabor da especulação e das expectativas com que os operadores olham para riscos e oportunidades.
Estamos a viver uma situação inédita, independentemente de várias tensões no Médio Oriente, que conhecemos desde os anos 70 do século passado, desta vez a coisa é mais séria.
Temos uma manada de elefantes que entrou no armazém de cristal. Ou seja, podemos considerar aquela zona do Golfo Pérsico e do Médio Oriente como o banco mundial do petróleo e do gás.
Apesar do Irão só produzir cerca de 3,5% do abastecimento do mercado?
Por isso é que falo na zona, porque ali temos o Irão, mas temos também a Arábia Saudita, Abu Dhabi, Bahrein, Catar, grande produtor mundial de petróleo e gás, Omã, Iraque, todos sob a mira dos mísseis iranianos. Temos ali à volta uma parte muito substancial de produção de petróleo e gás e temos também toda a cadeia e todas as rotas que redistribuem o petróleo e o gás. E tudo isso está perturbado nesta altura.
O Estreito de Ormuz tem ressurgido, como o Estreito de Malaca, o canal do Suez, o canal do Panamá, são pontos nevrálgicos e em particular o Estreito de Ormuz é uma zona de trânsito de uma parte muito substancial, cerca de um quarto dos produtos petrolíferos, seja petróleo em bruto, seja refinados, seja de gás natural. É natural que haja um crescendo dos preços face a uma desestabilização generalizada e um nervosismo generalizado que decorre daquela zona estar toda ela sob ponto de interrogação a saber o que é que se vai passar.
Há uns anos, numa situação destas, certamente que o impacto do início deste conflito teria tido reflexos no preço muito mais dramáticos do que agora
Admite que, de facto, o barril possa ultrapassar os 100 dólares?
Eu julgo que é difícil. Há uns anos, numa situação destas, certamente que o impacto do início deste conflito teria tido reflexos no preço muito mais dramáticos do que agora.
Na sexta-feira passada, antes do início do bombardeamento, o petróleo estava tipicamente a 74, 75 dólares. Esta sexta-feira está a 85. Apesar de tudo, é uma reação bastante contida, tendo em conta o que está em causa.
Aqui há duas questões críticas para uma expectativa de como é que o preço pode vir a evoluir em sentido de alta. Há duas condições. Uma é isto não se prolongar por muito tempo, cada hora que passa, cada dia que passa, põe mais sal no cozinhado, põe mais nervosismo nos mercados. O segundo é como se sai desta guerra, se quando o fogo parar ficamos com refinarias destruídas, ficamos com unidades de liquefação de gás destruídas, ficamos com oleodutos, pipelines, com o estreito de Ormuz afetado, por exemplo, por afundamento de navios que perturbem depois a retoma das rotas e do fluxo normal dos navios.
No início do conflito, os Estados Unidos chegaram a dizer que em poucas semanas, duas, três, estaria resolvido, agora já se admitem 100 dias. É muito para este tipo de conflito, em termos de impacto nos preços dos combustíveis?
É, 100 dias é muito, mesmo quatro semanas é muito. Cada dia que passa vai aumentando a sensação de desconforto.
Há duas situações distintas, uma questão é o petróleo, outra questão é o gás natural.
O petróleo é um produto e um mercado muito mais maduro, muito mais resiliente, muito mais estabelecido e muito mais diversificado que o gás natural. Eu diria que há petróleo em todo o lado, não quer dizer que não faça falta, sobretudo para a Ásia, mas ninguém tem medo que vá faltar petróleo.
Está afastada uma situação de ruptura.
Exatamente. Uma questão é a falta de petróleo, como faltou em 1972, 1973, vermos as frotas de automóveis e de camiões de distribuição, de transporte, parados, falta física de petróleo e de combustíveis. Outra coisa são os preços.
Os países têm reservas e estão habituados, aliás, por norma, nomeadamente os países ocidentais mas também países que não fazem parte da União Europeia ou da Agência Internacional de Energia, têm reservas estratégicas, de segurança, para 90 dias e pode-se ir comprar petróleo a várias geografias. Portugal incluído.
No gás natural, também. A Europa e Portugal têm as suas reservas estratégicas, que normalmente, nesta altura do fim do inverno, estão esbatidas, e isso está a acontecer. Ali em França, na Alemanha, nós estamos com 75% das reservas e estamos bem confortáveis, até porque estamos numa fase de baixo consumo de gás natural.
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E por cá?
Em Portugal estamos a consumir pouco gás natural, é para nos aquecermos em casa e as temperaturas estão amenas. Outra grande utilização é para as centrais elétricas, como neste momento estamos a produzir 80% e mais da eletricidade que precisamos, com água, com vento, com sol, estamos a usar marginalmente as centrais que queimam gás natural. Estamos confortáveis.
Mas, dizia, o mercado do gás natural é um mercado mais frágil. A concentração de países exportadores é muito grande: temos os Estados Unidos, a Rússia, o Catar e a Austrália. A Austrália, essencialmente, exporta para a Ásia, o Catar também.
Olhando para a Europa, temos a situação que temos com a Rússia, não queremos comprar nem um metro cúbico, embora estejamos a comprar.
E Putin até já ameaça parar imediatamente as vendas à Europa.
Mas isso é também para mostrar peito, digamos, é uma estratégia política. Desde que acontece a invasão dos russos à Ucrânia, a Europa foi substituindo as importações russas por importações, sobretudo, vindas dos Estados Unidos e do Catar, que agora também está limitado, e de outros países - Argélia, Trinidad e Tobago, Nigéria.
Mas está muito polarizado o gás natural, ao contrário do petróleo. Além do mais, as infraestruturas de gás são muito mais frágeis do que as de petróleo. Um navio de transporte de gás natural liquefeito é um navio muito caro, muito complexo, comparado aos navios-tanque de transporte de petróleo e derivados e muito mais frágil relativamente a qualquer ataque de fogo, de drones ou de mísseis. Há muito menos navios metaneiros do que navios-tanque, navios petroleiros.
Mas, não creio que venhamos a ter, e sobretudo no nosso país, também qualquer tipo de problema de abastecimento físico de gás natural. Mas há reflexos no preço.
De que forma é que isto pode afetar a economia, no geral? Já temos alertas do FMI e do Banco Central Europeu.
Reflete-se negativamente. Há três anos, com a invasão da Ucrânia, o barril chegou aos 146 dólares, quase o dobro dos preços atuais.
Um aumento dos preços dos combustíveis, que são fundamentais para a nossa vida, têm impacto sobre os preços. Se isso se prolonga, podem começar a gerar pressões inflacionistas
Os 100 dólares é aquela barreira mítica, neste momento os produtores trabalham para não a ultrapassar.
Sim, e vamos lá ver. Um aumento dos preços dos combustíveis, que são fundamentais para a nossa vida, têm impacto sobre os preços. Se isso se prolonga, podem começar a gerar pressões inflacionistas. Pressões inflacionistas podem rapidamente refletir-se no mercado financeiro, em termos de taxas de juros. Taxas de juros mais altas, menos investimento, desemprego, enfim.
No limite, podemos chegar a uma situação de estagflação?
Podemos, mas temos defesas e formas de mitigar esse impacto. O que nunca oiço falar é que, nomeadamente para o Irão e outros países do Golfo, parar exportações e manter uma situação desestabilizada naquela zona, é também um grande problema. Aqueles países vivem sobretudo da venda de petróleo e gás. São economias muito dependentes.
Na segunda-feira os combustíveis vão aumentar e o gasóleo pode subir 23 cêntimos por litro. Estas subidas fazem sentido para si?
No caso do gasóleo, em particular, sim. Tipicamente, nos preços ao consumidor, a estrutura de custos é: 25% é o preço do barril de petróleo, da matéria-prima; cerca de 18%, 20% são todos os outros custos – transporte, refinação, armazenamento, distribuição; e 55% são impostos.
O aumento do preço da matéria-prima tem um impacto de 25%.
Se a matéria-prima aumentou até agora cerca de 12%, 15%, é 25% de 15%. Não é um valor extraordinário. Também os fretes aumentaram, com a diminuição da frota disponível, com o aumento dos prémios de seguro por causa do risco que as seguradoras refletem nos seus prémios.
É típico nesta época do ano, uma certa escassez de reservas de gasóleo
Com os constrangimentos nos transportes, nas vias marítimas…
Exatamente. E depois há os derivados, nomeadamente da refinação do petróleo. Os principais são as gasolinas, os gasóleos, o gás de petróleo e, em Portugal não é tão significativo, o fuel para aquecimento, etc. É típico nesta época do ano, uma certa escassez de reservas de gasóleo.
É por isso que o gasóleo aumenta mais do que a gasolina?
Por isso o gasóleo está a conhecer um aumento de preço superior ao das gasolinas. Há muitas razões para isso. Há refinarias que estão na fase de manutenção, porque quando termina o inverno começam a programar a limpeza e a manutenção. E enquanto eu consigo ir buscar matéria-prima, crude, um pouco a todo lado, refinadores não são tão abundantes pelas várias geografias.
Pode haver um impacto sobre um ou outro produto, mesmo outros produtos para as petroquímicas, como matéria-prima para a petroquímica, pode haver impactos sobre derivados do petróleo, que são superiores ao impacto da alta da matéria-prima, e até outros derivados do petróleo que têm impactos nos preços, inferiores ao que é o aumento do preço da matéria-prima.
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A decisão do Governo de absorver o aumento se ele for superior a 10 cêntimos, é um bom caminho?
Nós temos de ter consciência das realidades e as realidades não resistem a metermos a cabeça na areia por muito tempo. Deve ser dado sinal aos agentes económicos. Eu percebo que, de um momento para o outro, e sobretudo tendo uma expectativa de que a situação que se está a viver e que provocou este pico agora de preços não se vai arrastar por muito tempo, se mitigue e se ponha aí um amortecedor, prescindindo o Estado de uma parte da receita fiscal que iria obter se refletisse em pleno esta alta de preços.
Na Europa, [os combustíveis] são uma vaca leiteira de receita fiscal
Mas justificava-se uma medida mais definitiva em termos fiscais? Era uma oportunidade para uma medida mais definitiva?
Na Europa, desculpem a expressão, são uma vaca leiteira de receita fiscal, a seguir ao IVA e ao IRS são a terceira fonte de receita fiscal tipicamente dos orçamentos dos países comunitários. Isto tem sempre prós e contras.
Por um lado, sabemos que os orçamentos dos países, nomeadamente Portugal e europeus, estão sob uma grande pressão para se manterem equilibrados.
Nos combustíveis, nomeadamente, queremos dar um sinal no sentido de irmos fazendo a saída do uso de combustíveis fósseis, os combustíveis são alvo de uma pesada fiscalidade, para eu derivar para fontes de energia que sejam mais limpas, que sejam menos poluentes.
Temos aqui uma situação que não é nem 8 nem 80. Eu não acho que nesta altura, em que há todo um esforço e todo um sinal dado a nível da União Europeia e das políticas, nomeadamente no nosso país, de transitarmos para fontes diferentes de energia, mais limpas, renováveis, que fosse boa ideia dar competitividade aos derivados dos combustíveis fósseis. Era um sinal fiscal contrário ao que tem sido dito.
Nesse sentido, esta medida temporária é acertada?
Julgo que sim, que seria uma medida temporária, não uma medida estrutural, como ouvi no Parlamento alguém dizer, de um Partido Socialista, que era altura de acabar com os impostos. Sabemos que a União Europeia é muito dependente da importação de petróleo e gás e já apanhámos muitos sustos, e estamos outra vez num susto.
Para ficar claro, como medida temporária acha que ela é aceitável, como princípio é errado?
Exatamente, no fundamental é isso. Esperamos que seja um momento temporalmente curto desta desestabilização. Porque, se não for e se se estender, aí temos mesmo de enfrentar a realidade e assumir os aumentos.
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Podem vir a ser necessárias medidas extraordinárias, como há quatro anos, na invasão na Ucrânia, em que foram aprovadas medidas de apoio à indústria e às famílias, por causa do aumento da energia?
Eu julgo que não vamos chegar aí. Como digo, à época, o preço do barril de petróleo chegou a 146 dólares, e o preço do gás natural a valores completamente despropositados.
Ainda está pouco acima dos 50 dólares.
Sim, na altura chegou a 400, 500, para termos uma ideia da diferença de impactos relativamente ao momento que estamos a viver. Não sabemos o que é o dia de amanhã, nesta confusão em que estamos metidos, e há mudanças, algumas lições que se aprenderam.
Por exemplo, a Alemanha, a Áustria e aqueles países ali do centro, estavam tão dependentes e tão acomodados ao gás russo vindo por tubo, que nem sequer tinham terminais para receber gás que pode vir de qualquer parte do mundo, em navios, gás sob a forma líquida. Nestes quatro anos, a Alemanha instalou três, pelo menos, e não sei se estão mais dois em operação, a França, etc.
Hoje têm outras fontes para as necessidades de gás natural, resultado de terem esses terminais onde podem vir metaneiros até da Austrália, como têm vindo.
E qual é a situação de Portugal? Porque nós ainda temos alguma dependência a nível do gás natural.
Estamos bem. Estamos numa altura até do ano em que estamos a consumir pouco gás natural. Temos as renováveis a suprir mais de 80% das necessidades de eletricidade do país, portanto, mínimo uso das centrais a gás natural, e estamos a entrar numa época em que não precisamos tanto de gás para o aquecimento.
Além do mais, temos reservas confortáveis e somos, sobretudo, abastecidos pela Nigéria, contratos que vêm do início do processo do gás natural, ainda estive envolvido nesse processo, parte indiretamente por Espanha, vindo gás da Argélia, e pelos Estados Unidos.
Ou seja, estamos em rotas e em geografias que não estão expostas diretamente ao Médio Oriente.
E a energia elétrica, pode vir a ser afetada por esta guerra no Médio Oriente, com eventual aumento dos preços da eletricidade?
Marginalmente. Neste momento estamos essencialmente a gerar a eletricidade com base em recursos endógenos, em fontes de energia renováveis. Em janeiro, 82% da eletricidade veio destas fontes.
Ou seja, apenas 18%, e algumas vezes por questões de funcionamento do chamado Mibel, do mercado ibérico de eletricidade, é que recorremos a outras tecnologias geradoras de eletricidade que não o vento que por cá passa, a água que por cá caiu e cai, o sol que por cá irradia.
É razoável, para não criar aqui uma situação de desestabilização momentânea nestas empresas, que o Estado possa mitigar a sua receita fiscal para o barco não abanar tanto
Não é ainda tempo de pensar em apoios para famílias ou para pequenas e médias empresas que são sempre mais suscetíveis, face à evolução da fatura energética?
Não. Há, como sabemos, indústrias que são particularmente sensíveis aos preços dos derivados do petróleo e até do gás natural. O gás natural é muito importante para a indústria cerâmica, para a indústria do vidro, etc. As empresas de transporte são muito sensíveis aos preços dos combustíveis líquidos, nomeadamente.
Tendo a esperança que isto vai abrandar e clarificar esta tensão que estamos a viver, julgo que é razoável, para não criar aqui uma situação de desestabilização momentânea nestas empresas, que o Estado possa mitigar a sua receita fiscal para o barco não abanar tanto.
Diferenciando positivamente as empresas que têm uma fatura energética maior?
E por aí mitigar estes preços.
Tenho falado com pessoas que me dizem que isto para a indústria do turismo é muito interessante
Esta crise pode afetar as nossas metas orçamentais e de crescimento económico?
Não ajuda. Isto tem um impacto na balança comercial, em termos de poder pôr alguma pressão, mesmo que marginal, nos preços, em termos da inflação, do custo de vida. Mas estas coisas também são muito dinâmicas.
Tenho falado com pessoas que me dizem que isto para a indústria do turismo é muito interessante, quem gosta de ir tomar banhos de água quente no Golfo Pérsico, no Mar Vermelho, quer ir para sítios mais calmos, que estejam fora do raio de ação dos mísseis balísticos do Irão. Começam a pensar em comprar propriedades também em sítios que, supostamente e objetivamente, são mais seguros. Há aqui sempre nestas coisas um lado positivo.
Quanto é que estima que o preço poderá subir por litro, no gasóleo e na gasolina?
Isto está a mudar todos os dias. A cotação dos derivados é até muito mais nervosa, digamos, do que na matéria-prima, no crude. Mas, pelos números desta semana, no gasóleo poderá estar acima dos 10 cêntimos por litro, na gasolina, eu diria, não mais de 5 cêntimos.
Este efeito deverá repetir-se?
Quer dizer, se continuar esta tendência… algum stress no mercado de refinados, o preço do barril continuar a subir, se os fretes começarem a encarecer e os prémios de seguro dos fretes aumentarem, se o dólar continuar a reforçar-se face ao euro. São tudo parâmetros que cada um põe uma pitada de sal no cozinhado e que pode levar a um prato salgado.
Podemos ter aumentos desta ordem de grandeza nas próximas semanas?
Sim, é um cenário possível.
Como é que avalia a atual política energética nacional?
As grandes linhas da política energética do país, no fundo, são as grandes linhas da política energética europeia.
A política energética tem sempre três pilares: os preços, o ambiente e a segurança do abastecimento. Nos últimos tempos, nomeadamente na Europa, descurámos muito a segurança do abastecimento. Dávamos por garantido. Fomos surpreendidos com a questão da Rússia e agora com esta desestabilização que está a ocorrer.
Nesse sentido, as políticas europeias estão claramente orientadas para diminuir a dependência da Europa relativamente a fontes energéticas, uma questão essencial para a vida e para a economia.
O caminho que se fez nestes quatro anos foi uma evolução positiva? Podia ter sido feito mais?
Pode-se sempre fazer mais, não é? Tropeçamos nas burocracias, no protesto constante a qualquer decisão que se tome, há sempre uma razão para não se fazer ou para arrastar e petições públicas.
Com a percentagem de renováveis que já é utilizada, explorada em Portugal, já podíamos ou já devíamos ter eletricidade mais barata? E porquê que não temos?
No médio prazo estamos a atender para isso. O que tem acontecido é que o preço da eletricidade tem essencialmente duas componentes: a variável e a fixa.
A componente fixa é aquilo que as pessoas antes chamavam de aluguer do contador, que paga toda a infraestrutura, as linhas e toda a logística. A rede. A componente variável são os kWh que nós consumimos. O que está a acontecer é que o custo dos kWh está a diminuir, enquanto que o custo da rede está a aumentar.
E isso porque as redes estão antiquadas, veja-se por exemplo a situação recente com a tempestade, tem que haver muito investimento em rede, porque a geração de eletricidade está mais dispersa no território, no parque solar aqui, nas eólicas.
Também defende o soterramento dos cabos, uma questão agora levantada com a tempestade Kristin?
Não, só isso não resolve.
É impossível um sistema 100% à prova de tempestades desta envergadura?
Não há soluções milagrosas e soluções que levem a risco zero. Eu percebo, por exemplo, o caso do apagão, que termos estado 17 horas sem eletricidade é muito problemático, mas tivemos 25 anos sem ter um problema minimamente sério de abastecimento elétrico.
Mas não é suposto o sistema ter backups para evitar estes apagões?
É, claro, claro. Agora, temos também que ter consciência que mais segurança tem sempre um custo. E, portanto, há aqui sempre também um equilíbrio de bom senso entre a segurança que eu quero dar a um sistema e o custo que estou disposto a pagar por esse incremento de segurança. Claro, há coisas a fazer. Não é, como tem sido dito, enterrar a rede toda.
Temos os chamados sistemas de linhas redundantes. Alternativas. Mas custa, vai custar dinheiro.
E quem é que paga a conta? Tem de ser investimento público?
Já houve alguma conta que não fossem os cidadãos, nós, a pagarmos? Vai à conta da fatura elétrica.
Privatização da REN? Talvez não tenha sido desejável, mas temos que olhar para o contexto
Com o apagão voltou a ser questionada a privatização da REN. Foi um bom negócio?
Temos que olhar sempre para os contextos. Foi feita sob a intervenção da Troika e o Governo sem saber se acordava no dia seguinte com dinheiro para pagar as pensões.
É daquelas situações das famílias que têm que vender o anel da avó, que gostavam muito. Talvez não tenha sido desejável, mas temos que olhar para o contexto. Agora, a REN ou a EDP serem privadas ou serem públicas, estou plenamente convencido que não houve diferença penalizadora pelo facto de serem privadas.
A E-REDES nesta situação teve uma atuação absolutamente notável de empenho e de compromisso. Às vezes, ser público é pior do que ser privado.
Girabolhos, que é uma barragem média, é também um reservatório de água para uma região que sofre stress e carências de água frequentemente
A barragem de Girabolhos caiu quando era presidente da Endesa. O Governo já deu novamente luz verde à construção. Continua a ser um projeto importante, sobretudo para a produção de energia?
É um projeto muito interessante, continua a ser, e é um projeto chamado de fins múltiplos. Tem vários aspetos interessantes. Tem a geração de eletricidade numa barragem chamada reversível, ou seja, são duas barragens na realidade, seguidas, eu deixo passar água de uma altura mais elevada para baixo: turbino, gero eletricidade, e essa água não vai toda embora, a barragem a jusante retém essa água e bomba outra vez a água para montante.
É muito interessante, funciona como uma bateria, quando eu tenho ao longo do dia muita produção de eletricidade, às vezes mais até do que estou a consumir, posso usar essa eletricidade na bomba que faça subir a água de jusante para montante. Quando a noite chega e o fotovoltaico não está a contribuir e também à noite a procura é maior, posso usar essa água que acumulei outra vez cá em cima e turbiná-la para ajudar o sistema elétrico.
Mas tem outro interesse muito importante. Girabolhos, que é uma barragem significativa, uma barragem média, é também um reservatório de água para uma região que sofre stress e carências de água frequentemente.
Agora, nas cheias, foi questionada a importância que teria para a gestão de leitos. Houve vozes que disseram que ela tinha uma importância muito mais residual a esse nível do que na produção de energia. É assim?
Ouvi também várias versões, que se houvesse Girabolhos não havia cheias no Baixo Mondego, ou que não serve para nada. Como é normal, o 8 e o 80 estão fora da realidade.
É evidente que mais uma retenção de água, com alguma expressão, dá um contributo para a regularização. Girabolhos é relevante na regularização de cheias. Neste caso concreto, não tinha obstado às cheias, era uma ajuda, mas não era suficiente para evitar o que aconteceu no Baixo Mondego.
Acha que este projeto ainda poderia ter interesse para a Endesa?
A Endesa hoje já não tem nenhuma responsabilidade, porque entregou ao Estado tudo. Terrenos expropriados, foram cerca de 90 milhões de euros de perdas que a empresa assumiu, quando a "geringonça" começou a dizer que queria rever o que já estava assinado com o Governo português.
Foi esse o motivo. Em Estados de Direito, grandes empresas não compreendem que se volte com a palavra atrás.
Este projeto, eu diria que hoje ainda tem mais interesse do que à época. O que está ali de bateria é mais relevante do que há quatro ou cinco anos. Começa a haver muitas horas do ano em que há excesso de geração de eletricidade com base em painéis solares e vento, o que leva a que se desperdice eletricidade, a rede não comporta receber, o consumo não está ao nível da injeção de eletricidade.
Se tivermos um consumidor que aproveita esse excedente de geração, em que o preço chega a zero ou até a preços negativos, está a aproveitar essa eletricidade para carregar a bateria, a albufeira a montante, para ser utilizada quando preciso de eletricidade.

















