Dúvidas Públicas
Todas as semanas, uma entrevista para ajudar a entender as opções de política económica e o caminho que as empresas vão abrindo na conquista de mercados, nacionais e internacionais. Um olhar para os pequenos e grandes negócios numa conversa conduzida pelos jornalistas Arsénio Reis e Sandra Afonso. Para ouvir aos sábados ao meio-dia.
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"Cada país da UE a atuar avulso é o pior". Indústria pede mais apoios e coordenados

21 mar, 2026 • Sandra Afonso , Arsénio Reis


O presidente da associação que representa o setor da química, petroquímica e refinação alerta para o "impacto severo" do aumento do preço dos combustíveis, que neste setor é sentido em duas frentes. Luís Gomes avisa que o mercado energético vai precisar de, pelo menos, seis meses para recuperar após a guerra no Irão e pede mais apoios às empresas, mas que sejam equitativos na UE. Sublinha ainda que os reatores modelares defendidos por Von der Leyen ainda são uma tecnologia exploratória.

"Cada país da UE a atuar avulso é o pior". Industria pede mais apoios e coordenados
"Cada país da UE a atuar avulso é o pior". Industria pede mais apoios e coordenados

Três semanas depois do ataque ao Irão, o preço do barril de brent, o petróleo de referência para a Europa, está de novo acima dos 100 dólares. Na União Europeia, cada Estado-membro anuncia as medidas que entende, com destaque para a vizinha Espanha, que lançou um pacote de cinco mil milhões para atenuar a fatura energética.

Em Portugal, além de uma redução fiscal, o executivo avalia se apoia o gasóleo agrícola e mede a distância que separa o país de "um cenário de crise energética". Na próxima semana, o gasóleo e a gasolina voltam a disparar, para preços de junho e julho de 2022, os primeiros meses da guerra na Ucrânia.

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Se o Governo de Luís Montenegro ainda tem dúvidas, Luís Gomes, que representa a indústria portuguesa da química, petroquímica e refinação, não parece ter nenhuma: "os impactos de médio prazo (um a dois meses) vão ser muito severos" para a indústria nacional, garante.

Em entrevista ao programa Dúvidas Públicas, da Renascença, o presidente da AP Química lembra que este setor é duplamente atingido: pelo agravamento do preço do petróleo, que estas empresas processam em combustível e derivados; mas também pela subida dos custos de transporte e outros produtos e serviços, fundamentais para a produção de matérias-primas para a indústria, como colas, selantes ou tintas e outros componentes químicos.

Luís Gomes diz que o executivo português pode ir mais longe nos apoios à fatura energética, mas as medidas devem ser alinhadas a nível europeu, para não criarem desigualdade, agravando a disparidade competitiva.

Destaca a importância estratégica deste setor, fortemente exportador. Representa cerca de 15% das vendas nacionais para o exterior e faz negócio com cerca de 180 países.

O presidente da AP Química admite que muitas empresas ainda estão a consumir petróleo comprado a preços mais baixos, antes do ataque ao Irão mas, entretanto, terão de regressar ao mercado. Estes contratos têm três a 12 meses. Por outro lado, são "seguros" que protegem a indústria da alta do preço, mas também impedem que beneficie quando o preço desce.

O agravamento dos preços no mercado energético terá um impacto "severo" e prolongado. Mesmo que a guerra no Irão termine hoje, o preço do petróleo precisa de pelo menos 6 meses para estabilizar, avisa Luís Gomes, dada a destruição a que estamos a assistir das infraestruturas energéticas.

É inevitável que as empresas acabem por passar estes custos para o consumidor final, até para evitarem encerramentos, defende o presidente da AP Química. Neste setor, isso significa aumentos não só nos combustíveis e derivados, mas também componentes químicos essenciais para 95% da indústria, desde o cimento aos produtos farmacêuticos.

Luís Gomes explica que Portugal e a Europa precisam de energia barata e abundante, para que a indústria possa ser competitiva. No entanto, avisa que os pequenos reatores nucleares, defendidos pela presidente da Comissão Europeia, ainda são uma tecnologia em exploração. Já existem vários, pela Europa e até na China, mas são todos protótipos.

A transição energética é uma oportunidade para garantir a independência energética da Europa. Em Portugal é preciso investir em inovação e na modernização da rede.

Diz que falta mão de obra técnica qualificada no setor que representa e, neste caso, a via verde do Governo para a imigração não resolve o problema. Nós temos a solução dentro de casa, mas "há um estigma injusto sobre cursos profissionais e politécnicos”, lamenta.

Deixa ainda um balanço positivo da participação das empresas do setor no PRR, no entanto, admite que alguns contratos podem não ficar concluídos dentro do prazo.

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