Dúvidas Públicas
Todas as semanas, uma entrevista para ajudar a entender as opções de política económica e o caminho que as empresas vão abrindo na conquista de mercados, nacionais e internacionais. Um olhar para os pequenos e grandes negócios numa conversa conduzida pelos jornalistas Arsénio Reis e Sandra Afonso. Para ouvir aos sábados ao meio-dia.
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“Não podemos mandar às malvas equilíbrio orçamental”, avisa Carlos Costa

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Europa arrisca "vassalagem cognitiva" na Inteligência Artificial, avisa ex-governador do Banco de Portugal

02 mai, 2026 • Sandra Afonso , Arsénio Reis


Na semana do 1º de maio, o ex-governador do Banco de Portugal alerta para a revolução que aí vem no trabalho, com enorme perda de empregos, e crítica ausência do tema nas discussões laborais. Em entrevista à Renascença, Carlos Costa fala ainda da crise energética e do impacto nos preços e nos juros e não se mostra preocupado com a entrada da economia em défice, desde que seja reversível.

"A inflação é a formiga branca da economia" e os bancos centrais podem ser obrigados a “arrefecer” a dança de cadeiras com uma subida dos juros, avisa o ex-governador do Banco de Portugal, Carlos Costa.

Em entrevista ao programa Dúvidas Públicas, da Renascença, o economista analisa o efeito dominó da subida do preço do petróleo nas economias e a política monetária do Banco Central Europeu.

No mercado do trabalho, alerta para a revolução que se aproxima, que compara à introdução da eletricidade. Muitos empregos vão desaparecer com a Inteligência Artificial e as novas tecnologias, sobretudo na classe média e média-baixa. As empresas e os trabalhadores que forem mais ágeis na aquisição de novas competências e na adaptação a novas funções serão os que mais beneficiarão desta nova era, garante.

Carlos Costa critica os parceiros sociais por olharem “muito pouco para a frente” e a pouca representação sindical no país e diz que um dos maiores desafios estruturais do país é a falta de dimensão das empresas: muitas são micro ou pequenas, o que limita a capacidade de inovação, investimento e expansão.

Carlos Costa. “Está-se a olhar muito pouco para a frente” no trabalho, avisa ex governador
Carlos Costa. “Está-se a olhar muito pouco para a frente” no trabalho, avisa ex governador

Europa arrisca "vassalagem cognitiva" na Inteligência Artificial

Durante a conversa, Carlos Costa analisa, ainda, o investimento público, a reforma do Estado, o acesso à habitação e a sustentabilidade das contas públicas. Avisa que “não podemos mandar às malvas o equilíbrio orçamental”, mas a eventual entrada da economia em défice já este ano, como antecipam a Comissão Europeia, a OCDE e o FMI, não será nenhum drama, desde que seja “reversível”.

Na banca, o governador elogia a diversidade das instituições a operar em Portugal. Defende a garantia pública no crédito jovem para habitação e explica o que pode ameaçar a medida. Comenta também a venda forçada de ações por parte do novo governador Álvaro Santos Pereira, que reforçou o investimento já depois de tomar posse.

Nesta entrevista à Renascença, Carlos Costa aponta, igualmente, os desafios institucionais e económicos da União Europeia, admite o risco de colapso do projeto europeu, alerta que a Europa arrisca “vassalagem cognitiva” na Inteligência Artificial e analisa a relação de forças com os EUA.


Vivemos uma nova crise energética. Da última vez que o preço do petróleo disparou, as economias mundiais tiveram de lidar com uma crise inflacionista. Há o risco de regressarmos à mesma situação?

O risco há. Porque o petróleo é uma matéria-prima que condiciona a formação de preços de um conjunto alargado de produtos.

Podemos dizer que estamos a perder rendimento enquanto país. Isto tem impacto, em primeiro lugar, sobre o rendimento dos países e o rendimento disponível. Em segundo lugar, sobre os custos e sobre a formação de preços. E depois, sobre o rendimento e sobre a distribuição do rendimento.

A questão que se coloca é saber se esse impacto é duradouro. Se a economia atravessar um momento de grande vivacidade, é muito mais fácil aumentar os preços, porque há procura, e é muito mais fácil exigir salários, porque há escassez de trabalhadores.

Temos uma pressão inflacionista que vem pelo lado dos custos, mas temos depois uma força de sentido oposto que vem pelo lado do rendimento e da retração da procura.

Qual é que será dominante?

Por isso é que a duração do choque petrolífero é determinante para saber o impacto que vai ter sobre a evolução dos preços, a evolução dos salários e sobre a dinâmica entre preços e salários. E aí entra uma questão que é fundamental: saber depois o papel que vai caber ao Banco Central.

A Reserva Federal manteve esta semana os juros inalterados. Estamos a gravar horas antes do BCE tomar uma decisão sobre a mesma matéria. É aconselhável alguma prudência na política monetária, dado o abrandamento das economias?

Eu diria que o abrandamento das economias é um fator favorável a uma moderação da inflação e, portanto, modera a subida das taxas de juro.

Mas há uma coisa que os bancos centrais têm de ter presente: é que têm um compromisso com a estabilidade de preços. E a estabilidade de preços é definida como uma inflação em torno de 2%.

E esse objetivo ainda está atualizado? Ou deve ser revisto?

Este é um objetivo estrutural da sociedade. A inflação em si é uma espécie de formiga branca da economia. Destrói a economia. E o Banco Central, quando conserva a estabilidade de preços, está a dar oportunidade para que os preços relativos se ajustem, garantindo que todos os agentes económicos têm um terreno de jogo justo.

Ou seja, esta meta dos 2% continua a fazer todo o sentido?

Todo o sentido. E todos os que falam em rever estão a trocar o fácil pelo incerto. O fácil é dizer: vamos dar um bocadinho mais de margem à inflação. O incerto são as consequências. E há um grupo que eu sei que é perdedor: são todos os que não têm capacidade de ajustar os seus rendimentos à evolução da inflação.

É inevitável um aumento dos juros, na atual conjuntura?

Se este choque petrolífero se transmitir à formação de salários e preços e começarmos a assistir a uma situação em que os preços disparam e os trabalhadores também tentam recuperar o seu rendimento, a única solução, como numa dança das cadeiras, é baixar o ritmo da música, aumentando os juros.

Já falou várias vezes nos salários.

O tecido empresarial português tem condições para pagar melhor neste momento?

Eu tenho um grande apreço pelo modo informal como se distribui o rendimento no setor transacionável da economia portuguesa. Quando as coisas vão bem — e, para isso, é sobretudo necessário estar a norte de Leiria —, as empresas começam a ganhar dinheiro e verifica-se imediatamente uma escassez de trabalhadores, sobretudo qualificados. Vê-se imediatamente que os salários descolam dos valores negociados nas convenções coletivas de trabalho.

Significa isto que se deve desvalorizar a negociação coletiva? Não, de forma nenhuma. Significa que há dois processos sobrepostos: a negociação coletiva e a procura de trabalhadores. A negociação coletiva até pode ser menos favorável; se a procura de trabalhadores existir, os salários vão acompanhar.

A atual legislação laboral permite o crescimento salarial e o aumento de produtividade, ou é necessária mais flexibilidade?

Temos de ter consciência de que regular implica conhecer o processo produtivo e o processo de trabalho. Significa conhecer qual é a transformação que esse processo produtivo vai ter e ajustar o quadro normativo que preside às relações entre trabalhador e entidade patronal às próprias exigências do novo modelo de trabalho, do novo processo de trabalho.

Nós estamos num momento em que, como nunca, a questão da flexibilidade em termos de competências, afetação do trabalho e aquisição de conhecimentos vai ser determinante.

Eu gostaria de ver as duas partes sentadas à mesa e a perguntarem como é que vai ser o trabalho do futuro. Qual é o quadro normativo que é equitativo para as duas partes?

Acha que se está a olhar muito para o presente e pouco para a frente?

Está-se a olhar muito pouco para a frente e a revolução tecnológica, que se iniciou quando foi apresentado o ChatGPT, tem menos de três anos e tem um alcance que, mesmo os que acompanham com alguma atenção, não conseguem vislumbrar, a não ser que vai haver uma grande reformulação dos processos de trabalho.

Vão desaparecer uma quantidade enorme de postos de trabalho que estão associados a tarefas cognitivas repetitivas, e vão surgir outros empregos.

O que falta é as duas partes estarem conscientes de que há uma grande transformação em curso, que ninguém consegue ainda alcançar os seus efeitos, mas que tem de ser acompanhada e refletida desde já, sob pena de sermos surpreendidos por aqueles que estão mais atentos.

Dito isso, surpreende-o que, ao longo de nove meses de negociações da reforma laboral, não tenha havido grandes referências a esse futuro?

Eu não conheço o que se foi debatido. Uma coisa é certa: as organizações que não se ajustem desaparecem. E, quando isso acontece, são postos de trabalho que se perdem.

Basta olhar para outros países para perceber que há muita ameaça e muita oportunidade. O primeiro a mover-se é o que ganha vantagem.

O que vamos viver é equivalente à introdução da eletricidade nos anos 1920-1930. Tudo se alterou no processo produtivo. O fogueiro que alimentava a caldeira desapareceu, mas apareceu o eletricista. E agora vai acontecer exatamente o mesmo.

Estamos na altura das comemorações do 1.º de Maio.

Tem-se falado muito da pouca representatividade dos sindicatos. Isso não é bom para a economia?

Eu sou a favor de um princípio de negociação e concertação social, porque permite antecipar e planear a resposta aos desafios. Mas esse fenómeno remete para a falta de representação, porque, de alguma forma, os representantes falham na sua relação com os representados.

É uma falha dos sindicatos?

Eu não queria atribuir, porque, se olharmos para o lado das empresas, também encontramos falhas na representação.

Em Portugal há uma cultura individualista que não podemos ignorar. Há uma cultura de microunidades. Essa cultura favorece a fragmentação, a pulverização. É muito mais fácil ter organizações representativas em grandes empresas do que em pequenas empresas.

Também diria que é mais fácil ter representação sindical no setor público do que no privado?

Naturalmente.

Ainda recuperando a crise energética, Portugal não está dependente, como outros países europeus, dos combustíveis fósseis, mas as renováveis ainda não garantem preços acessíveis. Faz sentido pensarmos também no nuclear como uma opção?

O nuclear está fora do alcance de um país da nossa dimensão.

Mesmo estes pequenos reatores que estão a ser defendidos por Bruxelas?

Ainda temos de ver o que são.

Nós temos neste momento um grande filão energético, que é o sol, e a energia fotovoltaica teve uma evolução em termos de custos de produção fantástica. Há 15 anos custava três vezes mais do que custa hoje. E é altamente competitiva.

Temos, em segundo lugar, o vento. Obviamente que as eólicas passam por uma dificuldade que resulta da fase de incentivo em que era necessário cobrir as diferenças, mas hoje também evoluíram para se tornar competitivas. Temos energia hídrica, que não podemos ignorar nem desperdiçar.

Depois, há outra dimensão que se vai, de certeza, desenvolver, que é o armazenamento de energia, nomeadamente a energia solar, porque ela tem picos.

Há também a procura: só podemos consumir eletricidade se os utilizadores estiverem à procura. Se estiverem à procura de combustíveis fósseis, não podemos dar-lhes eletricidade. A grande questão é saber se a procura se ajusta à mesma velocidade que a oferta. É preciso que haja um jogo que promova o interesse e a vantagem de quem opta pelo elétrico. No caso português, temos condições para ser muito mais autónomos, mas temos de encontrar um equilíbrio entre o ambiente e a produção.

Bruxelas decidiu flexibilizar as regras orçamentais para permitir, nomeadamente, mais apoios estatais à subida da fatura energética. Faltou um plano de conjunto, com medidas comuns?

A União Europeia e a Comunidade Económica Europeia têm uma falha de desenho de partida. Há um mercado único, uma política monetária única e políticas orçamentais nacionais. Este desenho ficaria perfeito se a política orçamental fosse também única, mas isso implicaria um saldo político para o qual não há condições, nem sequer julgo que seja desejável.

Temos de trabalhar com o “second best” e a melhor solução, dadas as condicionantes, é assegurar que os orçamentos dos 27 Estados-Membros, e sobretudo dos que fazem parte da União Económica e Monetária, se articulam. Não significa impor a cada Estado-Membro um modelo de orçamento. Significa definir quais são os limites de flexibilidade.

Até agora, as regras orçamentais eram muito rígidas e afetavam duas circunstâncias em que era preciso alguma flexibilidade: situações de crise económica, em que é necessário dar a possibilidade ao Estado-Membro de acomodar défices dentro de determinados limites, e o investimento. A contrapartida é uma maior disciplina na despesa.

Ninguém é responsável pela dívida de ninguém, a não ser o próprio Estado-Membro. Muito embora já tenhamos feito várias concessões, nomeadamente ao financiar resgates.

Apesar de todas estas regras — e sabemos que os europeus são bons a estipular regras —, no último congresso da Ordem dos Economistas alertou para o risco de a Europa colapsar, de se tornar irrelevante no plano geopolítico. Falta pulso aos líderes europeus ou é o próprio projeto que pode estar a falhar?

A Europa tem um desafio pela frente, que é o facto de ter aumentado a divergência de preferências estratégicas no seio da União Europeia. Ou seja, nem todos os Estados-Membros têm a mesma visão para o desenvolvimento.

Temos de nos questionar se, em 1994, não fomos demasiado ambiciosos na forma como projetámos o crescimento da União. Delors tinha uma ideia de alargamento gradual, com círculos concêntricos e com passagem progressiva de um círculo para o outro.

Aliás, foi assim que construímos a União Económica e Monetária: estabeleceram-se critérios de convergência, não havia acesso garantido. A partir de determinado momento, criou-se a ideia de que bastava estar dentro para participar em todas as políticas, mas isso significa ter a possibilidade de as bloquear, sobretudo se a regra for a unanimidade.

Vamos ter agora de criar essa convergência de uma forma diferente, que é aceitar uma regra de maioria para tomar decisões onde a União Europeia está bloqueada. O Presidente da República também já falou do processo de cisão na União Europeia, porque é a única forma de desbloquear a situação.

Também concorda com a cisão?

Eu não concordo com a cisão; o que defendo é que tem de haver forma de permitir que um grupo de países se organize, e esta hipótese já estava prevista no tratado com a cooperação reforçada. Mas teria sido muito melhor que se tivesse previsto que havia andares sucessivos deste edifício.

Outra fonte de dificuldades resulta do atraso económico e tecnológico da Europa. Fomos muito eficazes a regular, a criar normas de acesso ao nosso mercado, a proteger os consumidores, mas não fomos capazes de, simultaneamente, desenvolver uma oferta correspondente a essas normas.

Criámos o mercado para o veículo elétrico, para as baterias, para as fotovoltaicas, mas a produção foi feita fora deste circuito. Não houve uma visão integrada.

Não corremos o risco de acontecer o mesmo agora com a defesa?

Esse é o risco. Por exemplo, a indústria automóvel teve muita dificuldade em aderir ao projeto do veículo elétrico quando o mercado já estava orientado nesse sentido.

Temos ainda ameaças externas?

A Europa construiu-se regida por regras e normas, e quem infringe paga. Foi nessa base que se fez a Organização Mundial do Comércio e se criou o mecanismo de resolução de disputas.

O que se verifica é que quem manda — ou melhor, quem decide — é quem tem poder, e não quem tem o mecanismo de resolução de conflitos.

Há ainda um segundo ponto: construímos a União Europeia com base na aceitação de uma hegemonia benevolente, no quadro da NATO, por parte dos Estados Unidos. Porquê? Porque o grande antagonismo, a bipolaridade mundial, organizava-se em torno do confronto ideológico Leste-Oeste. Nesse confronto, o nosso alinhamento era naturalmente ocidental; era uma hegemonia que aceitámos no quadro da NATO e na definição de papéis. Isso evitou um problema de partida: o fracasso da União Europeia de defesa antes da celebração do Tratado de Roma.

No momento em que se passou de uma hegemonia benevolente para uma hegemonia coerciva — em que quem detém a hegemonia quer ditar regras —, a Europa fica confrontada com a sua própria fragilidade no interior de uma aliança que vale a força que tiver para fazer valer os seus princípios.

E tem força?

Essa é a segunda fraqueza: tem de a construir. O problema que agora se coloca é que, ao construir a sua força, pode estar a beneficiar o infrator. Se avançar para um processo acelerado de rearmamento sem cuidar da sua oferta interna, pode estar a reforçar exatamente a hegemonia coerciva. É obrigada a comprar, neste caso, aos Estados Unidos, que são um dos grandes fornecedores.

É o que tem acontecido na Guerra da Ucrânia. No fundo, a Europa paga o armamento que os Estados Unidos fornecem. Ou seja, estamos a fomentar o crescimento económico dos Estados Unidos, para além de todo o desenvolvimento tecnológico.

Há ainda uma terceira dimensão, o chamado risco de vassalagem cognitiva, que resulta do facto de nos termos atrasado bastante no domínio da inteligência artificial, por razões internas que temos de reconhecer. Não somos capazes de mobilizar os recursos e a máquina necessários para investimentos da ordem dos que são feitos nos Estados Unidos.

Temos tudo o que é preciso: conhecimento, trabalhadores e investimento. Mas temos também regras rígidas.

Precisamos que a Europa se assuma como um todo, como um mercado único de capitais. O projeto não pode ser nacional. Tem de se assumir como uma entidade que aceita um conjunto de regras que têm de ser revistas, porque deixaram de ser um fator positivo para se tornarem um fator condicionante.

O que diz é que, para enfrentar blocos económicos como a China ou os Estados Unidos, a Europa tem de arrumar a casa. E não o fez até agora.

Não o fez até agora por razões que têm a ver com o equilíbrio entre os Estados-Membros. A nossa preocupação com o nosso próprio umbigo não nos permite ter uma opção de força.

Está quase a terminar o PRR, que foi o maior cheque de sempre para investimento em Portugal. Acha que foi bem aproveitado?

Temos de perceber que o investimento cofinanciado pela União Europeia tem de ter duas vertentes: aumentar a diversidade e a qualidade dos bens públicos e assegurar que têm um retorno socioeconómico, isto é, que deles resulta uma capacidade para produzir mais riqueza. Por outro lado, é necessário garantir que há agentes económicos — que não são públicos — que tiram partido dessas condições e as convertem em criação de riqueza e em oportunidades de emprego.

E aqui há duas coisas que são vitais: do lado do investimento público, a análise do retorno económico e social dos projetos; do lado do investimento privado, perceber em que medida as empresas foram capazes de tirar partido dos recursos disponibilizados — se esses recursos foram, de facto, disponibilizados.

Foi uma distribuição desequilibrada, já se sabe.

E essa distribuição tem dois parâmetros que é preciso ter em conta: a produção de bens públicos e a capacidade empresarial.

Temos um problema importante na economia portuguesa: a predominância de uma lógica extrativa, quer no setor público, quer nas relações entre o setor privado e o setor público. Temos de acabar com esta lógica extrativa. O Estado não existe para que lhe saquemos dinheiro.

Está a falar de subsidiodependência?

Que é uma forma de chamar subsídio à dependência. Importa saber se o dinheiro foi canalizado para empresas que tinham projetos e projetos que tinham retorno. Se foi canalizado numa lógica de empréstimos reembolsáveis, como eu defendo, ou numa lógica de subsidiação? Foi um processo aberto ou foi um processo fechado?

O grande problema que se põe do lado do setor empresarial é criar as condições para que os agentes empresariais maximizem o valor acrescentado, a riqueza que pode ser extraída dos bens públicos.

Acha que as empresas têm essas condições?

Precisam de uma coisa que é a escala. Aí temos um problema complicado, que é saber se temos um ambiente favorável ao crescimento das organizações, à transmissão da propriedade, à fusão das empresas, à aquisição de dimensão. Porque uma empresa pequena tem o alcance do braço de quem a comanda. Como o braço é curto, ainda o posso estender com um bocadinho de crédito, mas o crédito nunca pode ser maior que a dimensão do braço.

Acha que podemos ultrapassar este ano o crescimento dos 2%?

É muito difícil dizer. Nós devíamos estar a olhar para o potencial, mais do que para o que vai acontecer durante este ano, que depende da evolução da procura, interna e externa.

A contração da procura reflete-se sobre a nossa economia com uma desaceleração do crescimento económico. É indesejável? É. É dramático? Não, é inerente ao próprio ciclo económico e a origem não é interna, é externa.

Devemos olhar para o nosso potencial de produção. Devemos estar hoje muito mais preocupados com o investimento, saber se o investimento privado está a acompanhar os desafios do mercado.

E, olhando para isso, fica preocupado?

Fico. Tem de haver um diálogo permanente entre quem comanda a política económica e quem está nas empresas. Perguntar às empresas se lhes falta, do lado público, algum tipo de bem ou algum tipo de enquadramento que favoreça o investimento, a produção.

Temos queixas recorrentes com implicações diretas no investimento: a carga fiscal e a burocracia.

O setor público não se substitui ao privado, mas condiciona o privado.

Eu defendo uma redução do IRC, porque o IRC incide sobre capital da empresa. Estou a retirar à empresa capital, que é o que ela devia estar a produzir, e reinvestimento.

Isto não diminui em nada a natureza progressiva do sistema fiscal. O que nós temos de fazer é deslocar a tributação para o momento em que o rendimento é distribuído.

Mas, em comparação com os outros Estados-membros, continuamos a ter uma carga fiscal excessiva?

Continuamos a ter um Estado muito caro para o rendimento que temos. E a questão que se pode pôr a seguir é se podíamos produzir mais barato.

A maioria das instituições também admite que a economia vai entrar em défice nos próximos anos, até 2031, segundo o FMI. Também acha que as contas ficam negativas já em 2026?

Vai depender muito do crescimento do produto, que depende muito das circunstâncias externas, que afetam as receitas e as despesas.

A questão é saber se aquilo que é a despesa permanente continua sob controlo, e se o défice estrutural continua sob controlo. Isto é, se continuamos com o equilíbrio estrutural da economia. Se assim for, o valor negativo que agora se tenha terá de ser mínimo e compensado pelo valor positivo que há de vir a seguir.

O que não podemos é mandar às malvas o princípio do equilíbrio orçamental. O equilíbrio orçamental significa que a sustentabilidade da dívida pública se mantém e inspira confiança aos nossos financiadores. E, segundo, que o défice orçamental, a existir, é devido a fatores transitórios e reversíveis, como sejam apoios sociais ou quebra das receitas.

E mantermos a trajetória de redução da dívida.

Segundo dados do Banco de Portugal, o crédito à habitação está de novo a aumentar e em grande parte deve-se à garantia pública para o crédito jovem. Estamos a andar para trás, permitindo mais risco e o prolongamento dos prazos de pagamento dos empréstimos?

Não podemos querer sol na eira e chuva no nabal. Nós temos um problema de insuficiência, de falta de habitação. Significa que é necessário construir e financiar.

O preço é o resultado de um jogo de oferta e de procura. Não é porque os preços estão elevados que temos de condenar as pessoas a não adquirir casa. Temos é de dar acesso à casa, mas simultaneamente fazer tudo para que o preço não seja tão elevado.

Os riscos são muito simples. Em Portugal não temos o sistema americano em que se entrega a casa e a dívida fica anulada. A dívida segue com o devedor até ele pagar. Segundo, não temos o desapego da casa de outros países, o que significa que as pessoas só vendem a casa em último caso.

A questão que se coloca é a permanência do emprego. A melhor forma de garantir estas garantias é promover crescimento económico, para assegurar que há emprego e capacidade de reembolso. A capacidade de reembolso e o risco dos bancos só existem se houver um surto de desemprego abrangendo estes jovens.

Falou da falta de escala nas empresas nacionais. A banca tem o mesmo problema? Precisamos de bancos de maior dimensão?

Não, em Portugal atingimos um nível de concentração que é perfeitamente aceitável, não há nenhum problema aí. E há concorrência, fica dito. A única questão que se coloca, mas isso é em termos europeus, é saber se há bancos pan-europeus. Nós, mesmo nesse capítulo, já temos bancos com representação multipaís e temos também diversidade na origem de capital. Temos bancos de natureza cooperativa, temos bancos públicos, temos bancos privados, típicos, comerciais…

A questão que se coloca é saber se o tecido empresarial tem a dimensão adequada para ter um diálogo estruturado com este tipo de banca, que se está a reforçar. Era preciso fazer um grande esforço para que o tecido empresarial ganhasse dimensão. Quando uma empresa é pequena, condiciona quer as decisões empresariais, quer as decisões bancárias.

Esta semana o novo governador do Banco de Portugal, numa nota publicada, explicou que vendeu as ações que tinha comprado já depois de tomar posse, depois de o BCE explicar que não podia investir. Ficou surpreendido com estas transações?

Ele explicou que foi mero desconhecimento. Eu tenho-o na conta de uma pessoa idónea, que, quando diz que tinha desconhecimento, é porque tinha desconhecimento.

Quem está de fora não sabe o impacto que é assumir, de um momento para o outro, todas estas responsabilidades. Pode levar a que se tenha criado, e ele disse-o, uma presunção de que só estava impedido de investir em títulos de instituições financeiras.

Eu não tenho nenhum motivo para duvidar do argumento de desconhecimento, nem tenho nenhum motivo para dizer que, no meio da turbulência que é assumir a função, lhe tenha passado despercebido.

Socorro-me da sua experiência… Eu admito o desconhecimento do governador, mas há uma equipa no Banco de Portugal. Não há ninguém que o deveria ter chamado a atenção?

Segundo li, ele foi informado. Ele presumiu que só estavam vedadas as instituições financeiras. Decisões de investimento patrimonial são pessoais; ele não vai discutir com a sua equipa onde investe.

Provavelmente até o que terá passado é que o gestor de conta ligou-lhe e ele nem teve muito tempo para equacionar. Conhecemos todos como é que funcionam os gestores de conta e a capacidade de persuasão que eles têm.

Sinceramente, acho que nem a idoneidade, que eu considero elevada, nem a forma como ele depois deu a explicação, que eu considero correta, justificam o alarido que se está a fazer.

[notícia atualizada às 20h20 de 4 de maio de 2026]

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