Escala Global
Embaixador Torres Pereira: forçar mudança política no Irão “ainda está no pensamento” de EUA e Israel
27 mar, 2026 • Alexandre Abrantes Neves
Jorge Torres Pereira, que liderou a missão diplomática na Palestina e foi número dois da embaixada portuguesa em Telavive, considera que o envio de tropas especiais para o Médio Oriente significa que Trump e Netanyahu ainda ponderam pressionar uma mudança de regime no Irão. Já sobre a ameaça terrorista, é perentório: o risco vindo de Teerão é “sobrevalorizado”.
O embaixador Torres Pereira, antigo "número dois" da embaixa portuguesa em Telaviv e ex-líder da missão diplomática portuguesa na Cisjordânia, considera que Estados Unidos e Israel ainda não desistiram de pressionar uma mudança de regime no Irão. No programa Escala Global da Renascença, este diplomata defende que esse objetivo não desaparece com a tentativa de negociações e recorda o envio de tropas especiais norte-americanas nos últimos dias.
“Não está completamente fora do pensamento, particularmente dos israelitas, ainda conseguir o tal ‘finish the job’. O facto de, nas forças americanas que vêm a caminho, estarem também forças especiais Rangers… Há ainda uma tentativa de infiltrar o território iraniano, ajudar forças da oposição e de ir ao confronto com os guardas da revolução”, aponta.
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Na leitura do diplomata, o plano de paz, suspensões reiteradas de ataques e a pressão dos Estados Unidos para negociações mostram que Donald Trump está à procura de uma “saída” para a guerra que lhe permita sair não muito enfraquecido por não conseguir esmagar o Irão.
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Ainda assim, Torres Pereira assinala que Washington nunca vai desistir de fazer desaparecer o “risco nuclear” – e que, neste momento, procura um equilíbrio entre dizimar esse perigo e permitir ao Irão manter algumas infraestruturas nucleares.
“Se, por acaso, os 400 quilos de urânio enriquecido estivessem na mão de terceiros, se houvesse garantia de que, monitorizada e vigiada, obviamente, de que não haveria prosseguimento de tarefas de enriquecimento”, sugere. “Um ‘deal’ ainda com bem-feitorias do ponto de vista económico também para os Estados Unidos, [vindos] de uma normalização económica com o Irão”.
Manuel Poêjo Torres, comentador da Renascença, também destaca como ponto crucial da última semana o envio norte-americano de tropas de reação rápida – “enquanto oferecem a paz, preparam a guerra” – e, por isso, diz duvidar da possibilidade de cedências avolumadas por parte de Trump.
“Não tenho a certeza de que os Estados Unidos aceitem simplesmente que o Irão se mantenha, que sobreviva a esta guerra e que mantenha uma ameaça balística a todos os países do Golfo. E interessa aos Estados Unidos garantir que as monarquias do Golfo estão estabilizadas”, afirma.
Pressão europeia "não reabre" estreito de Ormuz
Já quanto ao bloqueio do estreito de Ormuz, Jorge Torres Pereira duvida da eficácia do apelo internacional subscrito por mais de 30 países (incluindo Portugal, que não o assinou inicialmente) e que mostra disponibilidade para participar numa reabertura.
“É, essencialmente, um ato de política declaratória e, portanto, teria algum ceticismo em atribuir uma grande importância militar substantiva a esta declaração. Estou convencido que, verdadeiramente, nós resolvemos o problema da circulação no estreito de Ormuz quando tivermos uma solução política diplomática negociada”, acredita.
Já o analista Poêjo Torres critica as “intenções”, principalmente de Estados europeus como Reino Unido e França, em emitir esta posição conjunta, especialmente depois de um aliado – os Estados Unidos – terem pressionado para ajuda apenas poucos dias antes.
“Chega tarde, faz mal em não ter uma posição mais forte logo de início”, lamenta. “E com uma presença militar. Porque há várias operações e várias partes da operação que a Europa poderia fazer, nomeadamente de monitorização, se tivesse com embarcações no local. Não tinha necessariamente de entrar no Comando e Controlo dos Estados Unidos”.
Portugal "não deve" endurecer postura com Israel
O ataque de colonos israelitas a uma cidadã portuguesa na Cisjordânia motivou críticas por parte dos partidos à esquerda e até um conjunto de perguntas do Bloco de Esquerda ao ministro dos Negócios Estrangeiros, mas na perspetiva de Torres Pereira (que já liderou a missão diplomática portuguesa em Ramallah) a situação não exige uma chamada de atenção pública a Israel.
“Não vamos estar, de cada vez que há um incidente, a intervir de uma forma mais audível. Por um lado, porque os efeitos verdadeiramente dessa posição são muito reduzidos e, por outro, porque isso tem também significado no nosso relacionamento com os nossos parceiros e países amigos e Israel está entre eles.”
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No mesmo sentido, o diplomata não acredita que – apesar das mudanças geopolíticas de um mundo “unipolar para outro multipolar” – haja necessidade de mudar a posição portuguesa no Médio Oriente, tornando-a mais vocal.
“Temos posições de princípio firmes que nós temos em relação a qual é a solução política que nós gostaríamos: fizemos, inclusive, o reconhecimento do Estado da Palestina. Só essa solução é que levará efetivamente a que haja segurança partilhada para todos os atores regionais, o que pode ir variando com os governos é mais afirmativo nuns pontos do que noutros”, defende.
"Risco de terrorismo do Irão é sobrevalorizado"
Foi um dos principais medos no reacendimento do conflito entre Israel e Hamas e voltou a ser agora, na guerra com o Irão. As tensões no Médio Oriente vão trazer uma nova vaga de ataques terroristas à Europa?
“O risco ligado ao Irão acho que é sobrevalorizado”, aponta Torres Pereira. “Onde verdadeiramente há ‘atividade vulcânica’ é no Sahel, até já chegou a Moçambique, na área do Estado Islâmico. Aí, esse risco efetivamente existe e o risco da sua exportação para a Europa obviamente tem de ser calculado.”
Para este diplomata, o grande problema na Europa já existe atualmente e não vai ser importado de outras zonas do planeta – tem a ver com as “crises identitárias”, que criam uma brecha nas comunidades entre nativos e migrantes.
“Populações que já não se reconhecem na distribuição demográfica das zonas onde vivem, assimilação ou não assimilação, islamitas a quererem criar territórios onde a Sharia [lei islâmica] seja predominante em vez de ser o Estado de Direito ou a lei”, diagnostica.
O diagnóstico é partilhado por Manuel Poêjo Torres, que avalia a resposta europeia a estas tensões como “aquém das expectativas”.
“A Europa está envolvida com os seus próprios problemas, está envolvida com os seus próprios dilemas e que as respostas não aparecem. O terrorismo internacional, transnacional, deveria ser cabalmente eliminado, mas os europeus, por via das escolhas políticas, têm problemas graves do ponto de vista social para resolver com precisamente essas minorias”, conclui.
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