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As voltas que o mundo dá, mudam a nossa vida. De Washington a Moscovo, de Bruxelas a Pequim, afinal como se está a construir a nova ordem mundial? No Escala Global, olhamos para o que decidem os protagonistas internacionais, para os conflitos da atualidade e para o papel de Portugal no mundo. À quinta-feira, o jornalista Alexandre Abrantes Neves conta com a análise de Manuel Poejo Torres e de um convidado para perceber como se governam os nossos tempos.
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Ameaças de Trump. "Rússia não precisou de fazer nada para NATO se desmontar"

03 abr, 2026 • Alexandre Abrantes Neves , Beatriz Martel Garcia (sonorização) , Beatriz Pereira (vídeo)


O coronel Caetano de Sousa aponta que Trump não tem nada a ganhar em se afastar dos aliados: "Só fragiliza. Ele é o principal elemento". Quanto à crise petrolífera, o especialista em energia recusa que o crude norte-americano seja suficiente para fazer baixar os preços e duvida da eficácia dos projetos da UE para a energia nuclear: "São objetivos de quem não tem noção".

Ameaças de Trump. "Rússia não precisou de fazer nada para NATO se desmontar"
Veja a entrevista ao coronel Caetano de Sousa.

A Rússia não precisou de fazer nada para ver “algumas cartas da NATO desmontarem-se”, apenas de um Donald Trump com “dificuldade em gerir” todas as posições geopolíticas norte-americanas.

A leitura é feita pelo coronel Caetano de Sousa sobre as palavras de Donald Trump, que disse estar a ponderar “seriamente” abandonar a Aliança Atlântica.

Este oficial na reserva — e que já representou Portugal junto da Organização do Tratado do Atlântico Norte e da União Europeia — considera que o presidente dos Estados Unidos só tem a perder por se afastar dos aliados.

Trump é o principal elemento da NATO”, começa por assinalar. “Isto cria incerteza nos membros da NATO. O Kremlin não precisou de nada para ver aqui algumas cartas a desmontarem-se. O Trump diz que joga com muitas cartaz, mas ele às vezes deixa cair as cartas para o chão e outras tem no bolso, todas muito juntas. Portanto, há ali uma dificuldade em gerir as cartas que ele tem”, critica, no programa Escala Global da Renascença.

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Na perspetiva deste militar, a saída norte-americana não é uma opção plausível neste momento e trata-se apenas de uma “birra” e postura de “criança” perante as críticas e recusas de aliados, como França, Reino Unido ou Espanha: “A Europa não pode alienar o Atlântico e os Estados Unidos não podem alienar o Atlântico”, resume.

Se esta foi ou não a última vez que o presidente dos EUA fez uma ameaça deste género, isso é impossível de saber (“Já nos habituámos a Trump”), mas o analista Manuel Poêjo Torres deixa uma garantia: mesmo que as ameaças regressem, a lei norte-americana vai acabar a travá-las.

“[Um diploma ainda aprovado por Joe Biden] obriga que o Congresso passe uma lei para que fique aprovada a saída dos Estados Unidos do seio da Aliança Atlântica ou dois terços do Senado são obrigados também a votar essa mesma apreciação da ordem executiva do presidente. Não acredito no divórcio entre os Estados Unidos e a NATO, francamente”, defende.

Resistência do Irão "não é derrota dos EUA"

É mais um “bumerangue” de Donald Trump: pouco mais de 24 horas depois de dizer que queria sair da guerra, o presidente dos EUA veio afirmar que está perto de concluir a operação, mas garante que vai dizimar o Irão até fazê-los regressar à “idade da pedra”.

Para os dois convidados do Escala Global, tanto Teerão com o presidente Trump vão arranjar forma de sair vencedores do conflito e, no caso norte-americano, esse a sobrevivência iraniana não impede uma vitória de Washington.

“Não há guerras dez a zero. O Irão teria sempre uma capacidade de resposta muito forte — e os militares [dos EUA] sabiam isso”, acredita o coronel Caetano de Sousa. “Pode-nos até ter surpreendido em termos da sua maior capacidade. Sim, é um facto, o Irão está a responder bem, está com capacidade, fechou o Estreito de Ormuz — mas isso também era previsível”.

Uma vitória para os EUA, defende Caetano de Sousa, seria reforçar a parceria com países do Médio Oriente, depois do fim do conflito e aproveitando as necessidades de rearmamento que devem surgir nessa altura.

Os países árabes vão se rearmar e vão comprar sistemas de defesa antiaérea, porque perceberam que o Irão, com aquela ameaça, pode voltar daqui a dez ou 20 anos. São eles os maiores vendedores, os países árabes não produzem armas, eles compram as armas aos Estados Unidos, em troca de petróleo e gás natural”.

Quanto a Israel, o cenário é mais difícil de resumir. Manuel Poêjo Torres coloca-se ao lado da tese de que Telavive e Teerão estão envolvidos numa “guerra eterna” – e que, mesmo após Trump cantar vitória no Irão, Netanyahu não o possa fazer.

“Penso que há aqui dimensões de fracasso e de derrota. A vitória para Israel só seria possível através do abandono estratégico-político da necessidade do regime iraniano de querer destruir e aniquilar o Estado de Israel. Não apenas uma promessa política, mas com ações, como o abandono de um programa nuclear”.

Petróleo dos EUA "não é solução"

Foi automático: Donald Trump afirmou na madrugada desta quinta-feira que (ainda) não dava por concluída a ofensiva no Irão e o preço do barril do crude disparou logo 6%.

Para o coronel Caetano de Sousa — com longa carreira no estudo da energia e da sua relação bélica —, esta é a prova de que a atual crise só vai ser aliviada quando o conflito pausar e o estreito de Ormuz for reaberto. E nem a compra de petróleo norte-americano pode fazer descer os preços.

“Voltamos às narrativas. Isto é uma maneira, enfim, airosa, ‘à Trump’ de dizer uma ‘laracha’. Isso não vai ser verdade. Eles não têm suficiente para exportar. Ao mundo, faltam 15 milhões de barris por dia, além disso houve 400 milhões de libertados das reservas dos países, do G7 e outros países”.

Quanto à energia nuclear, este especialista considera que não é uma alternativa para Portugal e diz duvidar das metas definidas pela União Europeia, que quer investir 200 milhões de euros nos próximos quatro anos, até 2030.

“É muito caro, não é só na parte de introdução do investimento é depois, durante todo o tempo da operação. É muito caro na parte final, quando é para o nuclear terminar. Os projetos nucleares agora na Europa demoram 30 anos. [Esse objetivo] é não ter noção nenhuma. Isto são anos e anos e anos para desenvolver estes projetos”, garante.

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  • Não concordo
    03 abr, 2026 com a alienação do nuclear 10:21
    Nem os EUA saem da NATO, nem a energia nuclear deve ser posta fora de hipótese para Portugal - a não ser claro que não queiramos ter construção naval, industria militar, industria pesada, datacenters, e queiramos continuar a ser paiszinho de toalhinha no braço a servir à mesa, com as costinhas dobradas a atender a velharia endinheirada da Europa e não só e a levá-los a passear de Tuk-Tuk