Escala Global
"Vai ser um lame duck". Atentado não evita derrota de Trump, diz congressista português
01 mai, 2026 • Alexandre Abrantes Neves , Rita Gonçalves (vídeo), João Campelo (sonorização)
Tony Cabral, congressista estadual democrata em Massachusets, diz estar "otimista" numa vitória nacional nas intercalares do final do ano e duvida que a tentativa de ataque a Donald Trump faça recuperar os republicanos nas sondagens.Noutro plano, e sobre os portugueses a viver nos EUA, diz que há medo com a polícia de imigração, mas desdramatiza. "Não é ao nível da comunidade latina".
A tentativa de ataque ao presidente dos Estados Unidos não vai aumentar a popularidade nem evitar uma derrota do Partido Republicano nas eleições intercalares do final do ano. A análise do português Tony Cabral, membro democrata do Congresso no estado de Massachusetts, é deixada no programa Escala Global da Renascença, onde prevê ainda que o poder de Donald Trump fique muito limitado.
“Os dias vão ficar contados. Vai ser um ‘lame duck’ [em português, “pato coxo”]”, afirma. “O ponto fundamental é que Trump não está no bilhete de voto em novembro deste ano. Tudo indica que há uma grande possibilidade de o próprio Senado dos Estados Unidos [e não só a Câmara dos Representantes] também ter uma mudança para o Partido Democrata”.
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Este democrata diz-se “otimista” num bom resultado dos democratas, mas avisa que os republicanos estão a insistir em mudanças dos círculos eleitorais, que podem dificultar as contas nos chamados “swing states” – os Estados onde a votação é mais volátil e oscilante entre os dois partidos.
“Estão a tentar tudo para mudar os mapas eleitorais nos vários estados que controlam. Já se viu no Texas, já se viu em Oklahoma, Louisiana, por exemplo”, alerta, apesar de considerar que vai tornar a vitória “mais difícil”, mas não impossibilitá-la.
Veja a entrevista em vídeo:
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Esta é uma posição partilhada pelo comentador residente Manuel Poêjo Torres, que prevê que os republicanos – na melhor das hipóteses – terão apenas uma subida muito residual e temporária nas sondagens.
“Vimos isto com Ronald Reagan. Este tipo de atentado acaba por oferecer maior inclinação de voto apenas de forma temporária. E faltam muitos meses até as intercalares, portanto isso não vai ajudar de forma nenhuma Donald Trump a conseguir angariar mais votos para o Partido Republicano”.
"Como é que isto pode acontecer num sítio como este?"
Sobre o ataque no jantar dos correspondentes no último fim-de-semana, Tony Cabral e Poêjo Torres concordam no essencial: além de considerarem que Donald Trump se tentou “aproveitar” mediaticamente para afastar atenções do Médio Oriente e da polémica Epstein, ambos veem também com preocupação as falhas de segurança que permitiram a aproximação do alegado atacante, Cole Allen.
“Como é que isto poderá acontecer num sítio como este? Geralmente, o FBI, os serviços secretos analisam, reconhecem, sabem quem está no hotel, fez o check-in, não fez o check-in, etc. Quando o presidente se desloca um lugar, há um máximo de cuidado”.
Por esta razão, pede uma responsabilização dos chefes das secretas e dos serviços de segurança da Casa Branca, nem que seja pela “falha de comunicação”. Manuel Poêjo Torres alinha-se na necessidade de punições, mas pede uma mudança na política e nos procedimentos internos.
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“Em 2021, foi revisto em baixo de 25% para 12% do tempo dos serviços secretos para treino interno das equipas [de segurança do presidente e do vice-presidente]. É inaceitável e tem a ver com a noção do perigo e da competência que, neste caso, foi inflacionada. Pensam que têm capacidade para tudo controlar e mitigar e foram surpreendidos numa posição absolutamente crítica”.
Para o congressista de origem portuguesa, nem faz sentido falar em narrativas de “encenação” nem especular pelos motivos de Cole Allen, mas de uma coisa está certo: o episódio mostra que a polarização aumentou nos Estados Unidos da América (EUA) e vai continuar a aumentar.
“Claro que esta divisão, esta maneira de fazer política por parte do Donald Trump traz reações por parte de certos indivíduos, como foi este caso”, afirmou. “Mas não há desculpa para isso, acho que tem de haver um discurso político no país, não temos de concordar com todos, mas não há espaço para violência nesse discurso político”.
Alemanha tem de "refazer" análise sobre "humilhação"
Não se trata de uma “correção”, mas o chanceler alemão devia vir a público e “refazer a análise” sobre os Estados Unidos. O democrata Tony Cabral defende a que Friederich Merz não foi inteligente ao dizer que o Irão está a humilhar Washington.
“É importante que a própria Alemanha, ou seja, ou um dos aliados, também tenha certo cuidado como fala e publicamente, pelo menos, não é? Porque não é bom pôr os Estados Unidos, neste caso, numa situação de humilhados. Acho que seria importante, talvez, uma nova análise da situação”, considera, avisando que, apesar de não ser um tema premente na opinião pública, as críticas também não caíram bem entre os democratas.
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A polémica com Merz já fez Trump dizer estar a ponderar transferir posições norte-americanas para outros pontos da Europa – uma possibilidade que Tony Cabral vê com especial preocupação, por considerar que a União Europeia é uma peça essencial para desbloquear as negociações com o Irão. “Tem de haver um envolvimento global e os EUA têm de liderar isso”.
Para Poêjo Torres, complementa esta visão, dizendo que o afastamento da Europa deve gerar apreensão porque dá palco a outras potências – como a Rússia, que sugeriu um cessar-fogo temporário na Ucrânia em troca de tréguas no Médio Oriente.
“Os Emirados Árabes Unidos ajudaram a fragmentar ainda mais a OPEP [abandonaram a Organização de Exportadores de Petróleo esta semana], sabendo a Rússia que interessa a manutenção do barril de petróleo, que vai perder um membro e pode perder mais a seguir, com certeza que tem todo o interesse em estabilizar imediatamente a região, no status quo atual, com a manutenção de um Estado como o Irão”.
ICE. Comunidade portuguesa "ansiosa", mas não é a pior
As imagens têm chocado o mundo, com crianças a serem presas e deportadas dos Estados Unidos e imigrantes ilegais a serem assassinados a tiro em plena luz do dia. A polícia de imigração dos Estados Unidos (ICE) tornou-se na principal queixa dos imigrantes norte-americanos desde a tomada de posse de Donald Trump.
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No caso dos portugueses, há ansiedade, mas Tony Cabral desdramatiza: a comunidade não é dos piores casos.
“Há, mas não é ao nível de outras comunidades. A comunidade hispânica, latina é uma situação muito diferente. Os números não são os números de outras comunidades. Não quer dizer que não temos membros da comunidade que estejam cá sem a documentação necessária. Mas é um número pequeno”.
Apesar do ambiente mais crispado, a confiança nas autoridades consulares e diplomáticas permanece inalterado e essa é uma fonte de tranquilidade.
“Eu acho que a comunidade em geral não tem tido grandes caixas nesse sentido. É uma comunidade muito mais estabelecida do que outras comunidades imigrantes”, remata.
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