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Três olhares sobre o choque que Trump causou na Europa
30 mai, 2025 • José Pedro Frazão
A Europa vive as ondas de choque da eleição de Donald Trump, apenas quatro meses após a sua reentrada na Casa Branca. Num painel de debate numa conferência organizada pelo Conselho Europeu das Relações Externas nos últimos dias na Fundação Gulbenkian, dois académicos e uma escritora procuraram circunscrever o "sentimento europeu" após este choque em Washington.
Como se explica que o "choque trumpiano" seja recebido de forma diferente pelos diversos líderes europeus da "direita radical" europeia?
O mote lançado pelo politólogo Pedro Magalhães levou o académico italiano Alberto Allemanno a responder que ser pró-Trump na Europa "não se revelou necessariamente um tipo de estratégia maravilhosa para impulsionar eleitoralmente estes partidos, como muitas pessoas pensaram inicialmente".
O novo ciclo vai ainda demasiado no início para retirar grandes conclusões mas o professor de Direito Europeu defende que Trump não é um fator que necessariamente implique somas positivas no cálculo político europeu.
"É bastante claro hoje que o efeito unificado nesta presença trumpiana simplesmente não existe". Vemos estes partidos de extrema-direita a imitar, em muitos casos, o que Trump está a fazer em termos ideológicos. Mas quando se trata de soluções políticas, não vemos necessariamente este tipo de convergência", observa o especialista que ocupa a cátedra Jean Monnet do HEC - Escola de Altos Estudos Comerciais de Paris.
Allemanno provoca a plateia ao afirmar que Trump está a tornar-se "uma dor de cabeça" para os líderes radicais europeus. " Precisam de explicar por que é que, no comércio, ser pró-Trump significa afetar os interesses nacionais dos mesmos países em que são nacionalistas. Portanto, há um conflito muito considerável do ponto de vista lógico".
O catedrático italiano reconhece que os eleitores que votam nesses partidos, não ligam muito ao comércio. "Mas isto é muito importante para a credibilidade da mensagem política destes partidos. E os media têm claramente um papel a desempenhar, na hora de desvendar e revelar este ponto de obstáculo que todos estes partidos estão a conter internamente".
O ensaísta defende que Marine Le Pen e Giorgia Meloni mostram ser "extremamente cuidadosas ao navegar nesta tarefa quase impossível de estar ideologicamente alinhada com a guerra cultural, ao mesmo tempo que selecionam e se distanciam de vários partidos"
Demografia e unificação
"Podemos ter um sonho comum, mas todos os pesadelos são estritamente nacionais". A frase é de Ivan Krastev, Presidente do Centro de Estratégias Liberais, com sede em Sófia, na Bulgária. Este orador considera que Trump está a mudar a identidade política da maioria da corrente dominante política na Europa.
"A União Europeia era um projeto de paz, que se orgulhava muito do facto de pensarmos que a guerra é impossível. Isso já não é verdade. De certa forma, somos ameaçados por aquilo que no passado foi definido como o seu sucesso", observa Krastev
Para o líder deste centro europeu de reflexão, Trump produziu dois nacionalismos diferentes na Europa, incluindo o de extrema-direita, "muito a um nível civilizacional" .
O autor considera que este movimento tem muito a ver com a demografia. "Uma das fragilidades do discurso liberal é que não sabemos falar sobre ela. Porque o que está a acontecer não é simplesmente que estamos a viver mais tempo ou que a nossa sociedade está a mudar étnica e culturalmente", argumenta Krastev, sublinhando que, por outro lado, os partidos liberais "descobriram que podem falar em nome da soberania nacional" atirando contra Trump.
" A extrema-direita búlgara é pró-Trump no mesmo momento em que ele é pró-Rússia. Se ele deixa de ser pró-Rússia, eles deixam de ser pró-Trump", alerta Krastev para quem a Europa existirá se conseguir unificar-se numa altura em que as diferenças nacionais serão mais visíveis do que antes.
Resistência pela alegria
Reivindicando-se como parte de uma população na Europa "que não sabe exatamente de onde vem, a que sente que não pertence completamente e que encontra formas de restaurar uma identidade que sofreu uma ruptura incurável", Djaimilia Pereira de Almeida apresentou-se desconfiada de "qualquer coisa chamada momento europeu".
A escritora mostrou-se " realmente insegura" sobre o que é a Europa e o que é ser europeu. "Tenho uma ideia e um sentimento muito profundos de que muitos estão excluídos destas definições. Basta olhar para a sala à minha frente", lançou a escritora portuguesa nascida em Angola perante uma plateia pouco diversa em etnias e géneros.
No debate, Djaimilia Pereira de Almeida preferiu sublinhar a existência de "medo" e a necessidade de "resistência" à mudança política em curso.
"Todos os dias, para continuar a fazer o meu trabalho desde que tudo isto aconteceu, tenho de fingir que nada está a acontecer", confessa a escritora que leccionou na New York University. Djaimilia foca-se nos seus poderes "mínimos e únicos", onde se inclui o poder de desligar a TV e dizer: "não quero ver mais isto hoje, para me manter sã, saudável e continuar a fazer o meu trabalho e a minha vida".
Para a escritora, "parte do objetivo" deste choque trumpiano é fazer com que pessoas como Djaimilia "se sintam desencorajadas, desorientadas, tristes e, no final, fazer-nos parar de fazer o que fazemos". Contra esse ciclo, com a televisão desligada, a autora diz ter encontrado uma forma específica de combate: " praticar a alegria como uma resistência ativa, porque a alegria está entre os dons mais ameaçados por tudo isto".
Este conteúdo é feito no âmbito da parceria Renascença/Euranet Plus – Rede Europeia de Rádios. Veja todos os conteúdos Renascença/Euranet Plus












