Acordo UE-EUA
Acordo com Trump é "incompatível com as metas climáticas europeias", alertam ambientalistas
30 jul, 2025 • José Pedro Frazão
A maior rede de organizações europeias desmente que a triplicação das importações de energia norte-americana irá substituir as importações russas. Em comunicado, o European Environmental Bureau apela ao Parlamento Europeu e aos governos dos 27 para que travem as partes do acordo que "comprometam os objetivos climáticos, a soberania energética ou a credibilidade internacional da Europa".
É uma das peças do acordo provisório firmado entre Ursula Von Der Leyen e Donald Trump. A União Europeia compromete-se a comprar gás natural liquefeito, petróleo e produtos de energia nuclear aos Estados Unidos na ordem de 700 mil milhões de euros nos próximos três anos. Bruxelas considera que a medida vai contribuir para substituir o gás e o petróleo russos no mercado da União Europeia.
Mas o EEB - European Environmental Bureau, a maior rede de organizações ambientalistas na Europa, faz outras contas e sustenta que a alegação de que estes volumes de importações de energia dos EUA "irão substituir as importações russas" não é credível.
"Segundo o Eurostat, os EUA já detêm uma quota de 50% do mercado de gás natural liquefeito da UE. Mesmo a substituição completa dos restantes 17% fornecidos pela Rússia apenas acrescentaria cerca de 9 mil milhões de euros anuais – apenas 2,5% do total das importações de energia da UE", sustenta o EEB em comunicado emitido após a divulgação das linhas mestras do acordo . Estas organizações ambientalistas sublinham que as importações totais de energia da União Europeia foram avaliadas no ano passado em cerca de 370 mil milhões de euros.
"Mesmo nos cenários mais radicais, a transferência das importações de petróleo e gás para os EUA geraria menos de 100 mil milhões de euros extra por ano – muito aquém da meta de 250 mil milhões de dólares/ano apregoada no acordo", sustentam os ambientalistas.
As explicações de Bruxelas
A Casa Branca reivindica que o acordo neste domínio "reforça o domínio energético dos EUA, reduz a dependência europeia de fontes adversárias e diminui o défice comercial em relação à União Europeia". A Comissão Europeia assume que os EUA já fornecem 55% do gás natural liquefeito no ano corrente e são também o principal fornecedor de petróleo da UE, com 17% de todas as importações em 2024.
"A UE tem uma ampla capacidade excedentária para acomodar importações adicionais de GNL, incluindo dos EUA, para substituir as importações de gás russo", sustenta um comunicado da Comissão Europeia. Portugal é um dos 12 países da UE com capacidade importadora de gás natural liquefeito.
Bruxelas explica que a meta de 250 mil milhões de dólares por ano durante os próximos 3 anos é a média estimada das importações totais de energia da UE provenientes dos EUA. A Comissão Europeia diz ter feito uma avaliação "completa e robusta", que teve em conta três fatores. Em primeiro lugar, de acordo com o executivo comunitário, ponderou os volumes atuais de importação de GNL, petróleo, combustível nuclear e serviços de combustível dos EUA na UE, que já ascendem a cerca de 90 a 100 mil milhões de dólares por ano.
Em segundo lugar calculou os volumes adicionais estimados de petróleo, gás e combustíveis nucleares, no contexto do abandono dos combustíveis fósseis russos. "Em 2024, a UE ainda importaria cerca de 22 mil milhões de euros em combustíveis fósseis da Rússia e cerca de 700 milhões de euros em fornecimentos nucleares", afirma a Comissão em comunicado. Por fim, o acordo considera a dimensão de investimentos, serviços e exportações em tecnologia energética dos EUA para a UE, nomeadamente no sector nuclear para reatores convencionais e pequenos reatores modulares, "onde já temos indicações claras de que estão envolvidas empresas americanas".
Uma Europa mais carbonizada?
O acordo, que terá ainda que passar pelo crivo do Parlamento Europeu, é também criticado pela alegada contradição com as metas de descarbonização da União Europeia. Citado neste comunicado, o coordenador de Clima e Energia do EEB, Luke Haywood, considera que o acordo envia um sinal "perigoso e dissonante" ao mundo.
"Caminhos credíveis para as metas climáticas da UE para 2030 são incompatíveis com mais petróleo e gás importados, reatores nucleares de construção lenta e pequenos reatores modulares não testados. Deveríamos estar a redobrar a aposta em energias renováveis, eficiência energética e eletrificação", afirma neste comunicado.
Em contraponto, a Comissão Europeia assegura que o acordo comercial "não compromete a determinação da UE em descarbonizar as nossas economias num prazo claro". Embora reconheça que o acordo implica um aumento das importações de energia dos EUA nos próximos 3 anos, o executivo liderado por Von Der Leyen garante que "é totalmente compatível com a nossa política de médio e longo prazo de diversificação das nossas fontes de energia e de implementação do Roteiro REPowerEU, de modo a eliminarmos gradualmente as importações de energia russas o mais rapidamente possível".
Numa nota explicativa, Bruxelas alerta que a UE "continua totalmente empenhada em alcançar a neutralidade climática até 2050", recordando que foi apresentada recentemente uma "ambiciosa meta de redução" de 90% das emissões de gases com efeito de estufa até 2040.
Este conteúdo é feito no âmbito da parceria Renascença/Euranet Plus – Rede Europeia de Rádios. Veja todos os conteúdos Renascença/Euranet Plus
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