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Embaixador do Irão em Lisboa assume que Teerão "celebra" o fim das sanções nucleares da ONU

18 out, 2025 • José Pedro Frazão


Numa recente conversa com jornalistas em Lisboa, o diplomata iraniano em Lisboa critica o líder da Agência Internacional de Energia Atómica e a preponderância de França, Alemanha e Reino Unido na politica externa europeia. Majid Tafreshi rejeita que o Irão esteja a participar na guerra na Ucrânia ao lado da Rússia, a quem fornece drones e explana a versão iraniana sobre a ocupação de 3 ilhas do Golfo Pérsico, reclamadas há mais de 50 anos pelos Emirados Árabes Unidos.

O Irão considera que as restrições ao seu programa nuclear terminam este sábado, 18 de outubro, em contramão face à decisão de reinstalar sanções tomada pelos países europeus que assinaram o acordo nuclear em 2015. França, Alemanha e Reino Unido ativaram um mecanismo do acordo - conhecido como “snapback”- em setembro, alegando incumprimento de compromissos iranianos constantes no acordo de 2015, que deveria expirar neste sábado, 18 de outubro de 2025.

“O Irão vai continuar com o seu programa pacífico nuclear, com base nos padrões internacionais”, afirmou o embaixador do Irão em Lisboa em recente encontro com os jornalistas. Seyed Majid Tafreshi argumenta que a própria Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) “muitas vezes repetiu e enfatizou” que não houve “qualquer violação ou quebra de compromissos do Irão”.

O diplomata alega que o programa nuclear iraniano é pacífico e funciona com as “salvaguardas” do processo. Em termos técnicos, “salvaguardas” significam obrigações de reporte de movimentos ou alterações no seu arsenal nuclear.

”Aconteceu uma ação unilateral dos Estados Unidos, depois de Israel ter atacado o Irão, que opera de forma pacífica e sob salvaguarda. Quando falamos de salvaguarda, significa sob a supervisão da AIEA. Na União Europeia, existem cerca de 100 instalações semelhantes em 12 dos 27 países. Se não condenarem isto aqui, significa que este caminho está aberto para o futuro. Porque é que a Europa não condenou veementemente tal comportamento bárbaro?”, questionou o embaixador neste encontro com jornalistas.

A diplomacia iraniana alega que a resolução 2231 das Nações Unidas de 2015 , que estabelece as bases do acordo nuclear iraniano, tem que ser respeitada.

"Foi aceite por unanimidade. Significa que não houve qualquer rejeição. Com base no artigo 25.º da Carta das Nações Unidas, não se pode não obedecer à resolução do Conselho de Segurança e deve-se continuar”, afirma o embaixador iraniano em Lisboa.

Grossi e os americanos

Um dos principais alvos dos iranianos é Rafael Grossi, Diretor-Geral da Agência Internacional de Energia Atómica. Teerão acusa o diplomata argentino de colocar em causa a identidade da AIEA ao não condenar o comportamento de Washington em relação ao programa nuclear iraniano.

"Quer candidatar-se ao cargo de Secretário-Geral da ONU e parece que precisa do voto dos americanos. Isto é totalmente contrário aos princípios e objetivos do direito internacional. Infelizmente o senhor Grossi é um símbolo de difamação da identidade da AIEA", sustenta o embaixador iraniano em Lisboa.

O diplomata insiste que a energia nuclear iraniana é totalmente pacífica "porque precisamos dela" salientando que o Irão gostaria de ter acesso a toda a informação técnica, "com base nas normas e rotinas internacionais".

Tafreshi acrescenta que " se houver alguma ambiguidade ou preocupação, a AIEA tem o seu próprio mecanismo de investigação, sendo que a maior parte do orçamento da AIEA é alocado à investigação no Irão".

Crítica a Europa e queixas no Golfo

Teerão acusa França, Alemanha e Reino Unido de gerirem a política externa da União Europeia com base nos seus próprios interesses. “Muitos países da UE não têm quaisquer problemas específicos com o Irão. Portanto, é um completo abuso de poder, de uso da força. Isto é totalmente contra o multilateralismo”, critica Tafreshi.

"Há milhões de iranianos a viver nos vossos países, na UE, no Reino Unido, em França. São diásporas muito boas para nós, mas vocês estão a sancionar as nossas companhias aéreas, os nossos stocks de alimentos, os nossos bancos. Eles não podem abrir contas. Estes são comportamentos muito maus para aumentar a amizade", critica o embaixador do Irão.

O diplomata acusa ainda a União Europeia de ignorar a designação "Golfo Pérsico" ao aceitar reunir com o Conselho de Cooperação do Golfo, organização que congrega a Arábia Saudita, Barhain, Qatar, Kuwait, Emirados Árabes Unidos e Omã. "Qual o significado de Golfo? Quantos golfos temos no mundo? Existem centenas, e depois há o Golfo Pérsico, que está no mapa desenhado e formatado pelos portugueses há 500 anos. Deitam para o lixo todos os mapas da Torre do Tombo?"

Os iranianos não gostaram também que o Conselho Conjunto entre a União Europeia e Conselho de Governação do Golfo tenha apelado ao fim da ocupação de três ilhas pelo Irão. Os Emirados Árabes Unidos acusam o Irão de ocupar ilegalmente as ilhas " Greater Tunb" , "Lesser Tunb" e "Abu Musa", que, de acordo com o comunicado da reunião do Kuwait, constitui uma violação da soberania dos EAU e da Carta das Nações Unidas. O diferendo existe desde 1971, altura da independência dos Emirados face ao poder britânico.

"A União Europeia precisa de compreender que o Irão tem soberania aqui há mais de 2.500 anos. Quem deu estas ilhas aos Emirados Árabes Unidos? Se estiver a falar do Reino Unido, o Reino Unido era o ocupante, não o proprietário. São ilhas iranianas que pertencem ao Irão porque o Irão tem soberania. Podemos reivindicar isso com base em muitos documentos que o lado português já conseguiu encontrar nos arquivos", argumenta o embaixador Tafreshi.

Palestina e Ucrânia

Instado a comentar o segundo aniversário do ataque do Hamas sobre Israel, o embaixador vinca que "qualquer ataque contra civis deve ser condenado", acrescentando que "não deveria acontecer". Seguidamente, o diplomata iraniano pede uma reflexão sobre a raíz do problema que levou às ações do Hamas, alegando que a legítima defesa é um direito. "Se estivesse Portugal em vez do Hamas, o que faria? Defenderia a continuação da destruição do seu habitat, das suas casas, ou faria algo do género? Mas, reiteradamente, sou contra qualquer tipo de atividade contra civis. Infelizmente, 98% das vítimas de guerras são civis"

Questionado sobre as explicações das autoridades portuguesas sobre a presença de aviões nos Açores, no âmbito da operação de bombardeamento de instalações iranianas, o embaixador diz não ter recebido ainda uma resposta do Governo à carta endereçada pela embaixada do Irão.

O embaixador do Irão foi ainda confrontado com a ocupação russa de territórios ucranianos. "Não reconhecemos as terras ocupadas e gostaríamos que isto fosse novamente resolvido por meios pacíficos". Questionado sobre a utilização de drones de fabrico iraniano nos ataques russos à Ucrânia, o diplomata diz que o Irão "partilha o seu potencial para fins pacíficos" e não interfere na guerra, direta ou indiretamente. "Esta é uma cooperação de rotina entre o Irão e a Rússia", acrescenta o representante iraniano em Lisboa.

"O Irão tem muito boas relações com a Ucrânia. Estamos a importar muitos alimentos e materiais da Ucrânia. A Ucrânia é um grande país. A UE, enquanto entidade global, e o Irão, enquanto potência regional, podem desempenhar um papel muito mais importante", remata o diplomata que, a título pessoal, sugere a criação de um "fórum de diálogo entre inimigos, sem qualquer tipo de mediador".

Este conteúdo é feito no âmbito da parceria Renascença/Euranet Plus – Rede Europeia de Rádios. Veja todos os conteúdos Renascença/Euranet Plus

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