08 nov, 2025 • José Pedro Frazão
O gabinete de António Costa esforça-se por manter viva a relevância da parceria entre a União Europeia (UE) e a Comunidade de Estados da América Latina e das Caraíbas (CELAC), com a realização da quarta cimeira entre estes dois blocos.
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"O presidente Costa continua totalmente empenhado na parceria estratégica UE-CELAC e, neste período de volatilidade e incerteza, é vital que a UE continue a agir como um parceiro fiável e previsível", disse a porta-voz do Presidente do Conselho Europeu, quando foi conhecida a ausência de Ursula von der Leyen. “À luz da atual agenda política europeia e da baixa participação de outros chefes de Estado e de Governo, a presidente von der Leyen não participará”, anunciou esta semana a porta-voz da líder do executivo comunitário.
Pelo critério das presenças e ausências, para além do mandato de presidência da reunião conferido a António Costa, estarão pelo lado europeu os primeiros-ministros de Portugal, Espanha, Finlândia, Países Baixos e Croácia, e os vice-primeiros-ministros da Bélgica, Eslovénia e Luxemburgo. Faltarão os ‘pesos-pesados’ Emmanuel Macron, de França, e Friedrich Merz, pela Alemanha, para não falar em Giorgia Meloni, primeira-ministra da Itália, que nem sequer foi à COP30, em Belém do Pará, no Brasil.
Do lado da CELAC, estarão os primeiros-ministros do Uruguai, Barbados, Belize, Guiana e Saint Kitts e Nevis. As ausências neste bloco são também notáveis, de Javier Milei, da Argentina, a Claudia Sheinbaum, do México, passando por líderes de países como o Chile ou o Peru.
A estrela será Lula da Silva, que anunciou a sua presença nos últimos dias, devido à tensão crescente entre os Estados Unidos e a Venezuela. “Se eu não for, será desagradável que o país mais importante da CELAC não compareça”, disse o presidente brasileiro, que vai apoiar o presidente colombiano, Gustavo Petro, presidente interino da CELAC. Contas feitas, estarão 12 chefes de Estado, 6 vice-presidentes e 23 ministros dos Negócios Estrangeiros.
No plano retórico, Bruxelas parece unida na ambição. "Numa altura de desafios e divisões geopolíticas, a próxima cimeira confirma a importância e o impulso das relações UE-CELAC", disse à agência Lusa a porta-voz de Ursula von der Leyen, que se fará representar pela chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas. “Esta reunião reafirma o compromisso dos Estados-membros em manter um envolvimento ativo com os países da CELAC e em manter a prática de realizar cimeiras regulares entre ambas as regiões", afirmou a porta-voz de António Costa.
O mantra oficial é que a União Europeia permanece um parceiro “fiável e previsível”, e até os comunicados de imprensa do gabinete de Costa deixam recados para fora da Europa. "Embora outros possam voltar-se para os direitos aduaneiros e o protecionismo, nós optaremos por mais comércio, mais investimento e mais cooperação", pode ler-se num documento emitido na última terça-feira.
Os dois blocos valem, em conjunto, 21% do PIB mundial e congregam mais de mil milhões de pessoas. O comércio bilateral de mercadorias e serviços somou 395 mil milhões de euros em 2022-2023. A União Europeia é o principal investidor estrangeiro na América Latina e Caraíbas e o terceiro parceiro comercial daquela região. Ao invés, os países caribenhos e latino-americanos são o quinto maior parceiro comercial da União.
De acordo com Bruxelas, a quarta cimeira UE-CELAC vai debater o multilateralismo, o comércio e investimento, as transições ecológica e digital, e a luta conjunta contra a criminalidade organizada, a corrupção e o tráfico de droga e de seres humanos. Antes da cimeira, foi já assinado um acordo para reforçar a prontidão mundial contra as ameaças sanitárias transfronteiriças.
O tema mais mediático da cimeira não está explícito na agenda. As operações militares dos Estados Unidos no Caribe, dirigidas ao narcotráfico, são vistas na região como uma ameaça direta a regimes como o de Nicolás Maduro, na Venezuela. As ações americanas são frontalmente contestadas pelo presidente da Colômbia, Gustavo Petro, anfitrião da cimeira UE-CELAC e também alvo de críticas de Donald Trump.