17 nov, 2025 • José Pedro Frazão
Presente na última Websummit, Fidias Panayiotou saltou da cadeira para interpelar o moderador e falar diretamente com a plateia. No final, foi abordado por diversos admiradores para fotografias e trocas de impressões. Discretamente, filmou todas as interacções fora de palco com o seu telemóvel, registando os pequenos diálogos que manteve com os seguidores.
O eurodeputado cipriota, que defende a democracia direta, diz-se acima da divisão esquerda-direita e reconhece que discorda de alguns sentidos de voto que assume. Mas aceitou testar as suas opiniões sobre Trump, a Ucrânia e a Inteligência Artificial numa entrevista rápida à Renascença, gravada na WebSummit em Lisboa. Panayiotou retirou um microfone do bolso e pediu a um assistente que filmasse toda a entrevista.
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Está a tentar entrevistar-me?
Sim, você está a entrevistar-me e eu estou a entrevistá-lo, ambos de um lado para o outro.
Porque filma todas as suas entrevistas?
Porque nunca se sabe como vai ser, por isso... E talvez diga algo de mal sobre mim e que eu não tenha dito dessa forma. Então eu filmo sempre, para garantir que tenho o conteúdo. Mas a principal razão é que não me importo muito com a tua rádio e a tua plataforma, importo-me com as redes sociais.
Assim, tudo isto será publicado nas redes sociais e terá milhões de visualizações. É como se eu o usasse, tal como você me usa a mim, para gerar conteúdo.
Quer controlar tudo o que dizem sobre si?
Não, não quero controlar. Mas também quero ter conteúdo nas minhas redes sociais, entende? Por isso, se isto fosse gravado só por si, eu não teria um vídeo para publicar nas minhas redes sociais.
Mas isso quer dizer que quer gravar tudo o que diz?
Sim.
Para si mesmo?
Para mim também.
Tem de controlar o seu próprio discurso?
Não é para controlar o meu próprio discurso. Se eu filmar o que diz, não me parece que seja para controlar o seu discurso.
Mas serve para perceber que tipo de coisas diz?
Não. Cabe à minha equipa editar e produzir alguns vídeos sobre isto. Não é para eu ficar a ver ou coisa assim.
As barreiras entre esquerda e direita dizem-lhe alguma coisa na política?
Não, detesto-as. E também no Parlamento Europeu, por vezes, a direita e a esquerda concordam em algumas coisas, mas não votam juntas porque se odeiam. Por isso, detesto esta 'política da direita e da esquerda'. Prefiro que me diga qual é o assunto, para podermos discutir e encontrar um consenso. Não me identifico com a direita nem com a esquerda. Estou acima de tudo. E acho que muita gente começou a odiar esta coisa da direita e da esquerda, esta divisão e tudo mais.
E acha que isso vai atrair um novo tipo de eleitores para si, que estejam para lá dessas barreiras de esquerda e direita?
Sim, sou mais adepto da democracia direta. Estou a tentar reinventar um novo sistema. Talvez falhe, provavelmente, mas acredito que devemos representar o povo de forma mais direta, e não deixar que votem em nós apenas uma vez de cinco em cinco anos, que não tenham acesso a nós, e em que nós não votamos no que eles querem.
Portanto, agora, no Parlamento Europeu, tenho uma aplicação que cerca de 10 mil pessoas já descarregaram e onde votam naquilo em que, por vezes, tenho que votar no Parlamento Europeu.
Isto é mais como as pessoas escolherem diretamente o seu futuro, não em tudo, mas em tópicos importantes. Às vezes, formo a minha visão política com base naquilo que as pessoas realmente querem, porque é isso que a política é - representar o povo e fazer o que ele quer.
Mas poderíamos assim dizer que não tem opinião, ou que esta é a opinião da maioria dos seus espectadores.
Eu tenho uma opinião.
Dê-me um exemplo de algo em que mudou de opinião em relação à maioria dos seus seguidores.
Eu nunca mudei de opinião. Sempre que temos uma votação, voto de acordo com o que dizem.
Mesmo que discorde?
Mesmo que discorde.
Porquê?
Porque é a vontade do povo.
Dê-me um exemplo de algo com que discorda, mas no qual vota a favor.
É como a democracia funciona. Há um partido político que diz: "Eu acredito nestas ideias. Por isso, votem em mim porque acreditam que eu vos vou representar nestas questões", certo?
Quando o faço diretamente com as pessoas, sem lhes pedir para votarem no que querem nesta situação específica, acredito que seja mais democrático.
E se os seus seguidores forem contra os interesses cipriotas que representa?
Se os meus eleitores forem votar na aplicação, têm que ser cidadãos cipriotas, ter mais de 18 anos e direito de voto.
Só cipriotas?
Sim. Portanto, estou a representar exatamente o que o povo de Chipre deseja.
Portanto, não pode exportar o seu voto. Não pode chegar aos eleitores alemães e aos de outros países. Não precisa disso?
Por enquanto, começámos isto no Chipre. Penso que no futuro - como sou membro do Parlamento Europeu representando também Portugal e outros países - cada país poderá votar na União Europeia exactamente como eu votarei no Parlamento Europeu. Mas, por enquanto, começamos aqui no Chipre.
Mas é a primeira vez que acontece. Precisamos de alguns testes, de perceber como vai ser. E outra coisa que estamos a fazer agora é perguntar às pessoas quais devem ser as minhas prioridades. Dentro da aplicação, têm um campo onde podem anotar as prioridades em que devo trabalhar no Parlamento Europeu.
Mas queria saber qual foi o assunto com o qual discordou mais do seu próprio voto.
Penso que foi numa vez em que discutiram sanções. Quero que a Turquia entre na União Europeia.
Você quer?
Sim. Mas se resolverem o problema do Chipre, estarão a respeitar o Chipre. Depois, os eleitores votaram que não querem que a Turquia entre na União Europeia. Mas também concordo com eles. Estou até dividido, eu não estava 100% contra eles.
Vamos então só testar cinco opiniões e depois terminamos.
Sim, muito bem.
Em primeiro lugar, qual a sua opinião sobre a entrada da Ucrânia na União Europeia?
Bem, na verdade, votei a favor da entrada da Ucrânia na União Europeia. Mas agora estou um pouco céptico quanto a isso, porque precisamos de garantir que a União Europeia é apenas um projeto económico e não também um projeto militar. Porque se for um projeto militar, precisamos de ter cuidado com a entrada da Geórgia e da Ucrânia na União Europeia, pois isso provocará os russos e teremos mais conflitos com eles.
Nesse sentido, precisamos de ter cuidado de forma a normalizar as relações com a Rússia, pois é muito importante que as relações com a Rússia sejam normais e que possamos fazer trocas comerciais com a Rússia. Porque agora, com o que aconteceu - já estamos no 19º pacote de sanções - a Europa está a enfraquecer, a Rússia está a ter um bom PIB, e nós estamos a empurrá-la para os braços da China, não para os nossos braços.
Mas invadiram um país soberano.
Nós provocámos, os Estados Unidos provocaram a guerra em 2014 e, como já disseram muitas vezes, não querem a Ucrânia na NATO. Portanto, concordo que foi uma invasão - não digo que não foi - mas fizemos muitas coisas, na minha opinião, para os provocar.
Segundo teste: regulamentação da Inteligência Artificial (IA) na União Europeia. É contra ou a favor?
Antes de mais, precisamos de compreender a IA e depois regulá-la, definindo o que regular. Acho que o cenário da IA é muito vago atualmente. Portanto, se impusermos demasiadas regulamentações, corremos o risco de sufocar muitas ideias antes mesmo de elas surgirem.
No domínio da competitividade, os Estados Unidos não têm tanta regulação como a Europa. Portanto, precisamos de ter cuidado com a regulamentação, porque se o fizermos na Europa, as empresas irão para os Estados Unidos e para outros países e talvez percamos a batalha mais importante, que é a corrida da IA. Portanto, precisamos de ter cuidado com a regulamentação, mas precisamos de regulamentar a IA.
Seria a favor de um presidente da Europa, como um presidente dos Estados Unidos? Seria a favor de uma personalidade que representasse toda a Europa e não o presidente da Comissão Europeia, o presidente do Conselho Europeu, o presidente do Parlamento Europeu?
Refere-se a mudar a forma como as instituições europeias funcionam?
Sim, a estrutura institucional.
Isso vai comprometer um pouco a soberania dos países. Mas quero que a líder da União Europeia - que é agora Ursula von der Leyen - seja eleita democraticamente, porque agora não o é.
Ela entra no Parlamento Europeu, nós dizemos sim ou não, e ela faz acordos com todos os partidos políticos para que votem nela. Não é de todo democrático o que está a acontecer para escolher o líder do Conselho Europeu. Precisamos de mudar isso.
Quarta questão. O que pensa de Donald Trump?
Bem, não gosto de todas as políticas dele. Gosto de algumas motivações dele, como as tentativas de mudar e resolver alguns conflitos, como o da Palestina e o da Ucrânia.
Mas acho que é mais um espetáculo do que uma tentativa real de os resolver.
Está a dizer-me que é um espetáculo? Você é um 'showman'.
Em que sentido? Eu crio regulamentos, faço propostas.
Ele faz tudo isso também.
Eu também. E sou um 'showman'. Mas estou apenas a dizer que as suas tentativas de resolver a questão palestiniana foram frustradas após o cessar-fogo. Portanto, não foi um cessar-fogo duradouro.
Por isso, quero que ele faça coisas mais concretas e duradouras, não apenas um espetáculo para convidar todos os líderes da ONU, como se fossem marionetas para o apoiar e melhorar a sua imagem.
E, por fim, o teste final: haverá algum dia um Chipre unido?
Espero que sim.
Agora temos um líder nos territórios ocupados, Tufan Erhürman, que foi eleito recentemente. Ele diz que quer a reunificação. Portanto, se trabalharmos com ele, e se ele conseguir convencer também a Turquia a apoiar isto, penso que poderemos potencialmente ter uma reunificação no Chipre.
E é por isso que, quando falou da Ucrânia, fiquei um pouco triste, porque a Ucrânia não faz parte da União Europeia mas o Chipre faz e está ocupado pela Turquia. Logo, não podemos ter dois pesos e duas medidas. Se ajudamos a Ucrânia, que não faz parte da União Europeia, porque não ajudamos o Chipre a pressionar e a impor sanções à Turquia e tudo o resto como fazemos com a Rússia?
Estamos a perder alguma coisa. A nossa bússola moral na UE está quebrada.
E como diria à Geração Z de Portugal que a democracia é importante para eles?
A democracia é aborrecida. Não acho que seja o melhor sistema.
Não?
Não.
Qual é o melhor sistema?
A democracia tem muitos problemas. Por isso, nós - a geração jovem - precisamos de entrar na política, como eu estou a fazer tal como muitos jovens, e devemos mudar as coisas que queremos. Talvez rumo à democracia direta, talvez para melhorar as coisas. A política, também na Europa, está falida. Nós, toda a geração jovem, precisamos de tentar mudar isso.
Eu não acreditava que fosse possível, mas candidatei-me como independente no Chipre e fui o candidato mais votado no Chipre para membro do Parlamento Europeu. Portanto, é possível.
Vai tentar a reeleição?
Não sei. Ainda não me decidi, mas agora tenho um partido político no Chipre que acabei de fundar, por isso estou focado nisso.