12 dez, 2025 • Pedro Mesquita
Não, não entramos no domínio da ficção: “Não estamos a falar apenas daquilo que é visível a olho nu", explica à Renascença Gilda Santos, a coordenadora do projeto ACROSS — Adaptive Camouflage for Soldiers and Vehicles. "Estamos também a falar da assinatura térmica. Esse é um campo que não se vê, mas que existe e o militar é detetado através do calor corporal. Tornar este soldado invisível é o nosso grande objetivo. Invisível, até para um radar.”
Claro que as camuflagens já existem há muito e servem para isso mesmo, para confundir as fardas com a vegetação e o meio envolvente. A diferença, agora, é que existem têxteis inteligentes.
O ACROSS é um projeto de investigação científica internacional, financiado pelo Fundo Europeu de Defesa, e tem a coordenação do CITEVE — Centro Tecnológico das Indústrias Têxtil e do Vestuário de Portugal. O orçamento ultrapassa os 14,5 milhões de euros.
Imagino que o maior desejo de qualquer soldado, de qualquer batalhão numa guerra, é tornar-se invisível aos olhos do inimigo. Que projeto é este? O que é o ACROSS?
O ACROSS é um projeto que está a ser financiado pelo Fundo Europeu da Defesa (EDF — European Defence Fund) e pretende essencialmente o desenvolvimento de soluções de camuflagem adaptativa e multiespectral para responder a necessidades quer de soldados, quer de veículos. É um projeto à escala europeia e é coordenado por Portugal. Nós temos 19 entidades de nove países diferentes.
Este projeto de investigação já está enquadrado com a nova estratégia de defesa da União Europeia?
Sim, sim. O Fundo Europeu da Defesa já foi criado, essencialmente, para tornar a Europa independente de outros países. Isso é, de facto importante. Infelizmente temos agora um exemplo concreto: Aquilo que está a acontecer com a Ucrânia.
Mas como é que aparece Portugal a coordenar este projeto?
Já trabalhamos há quase 20 anos na área da defesa. Começámos a trabalhar para a Agência Europeia da Defesa, sempre a nível europeu. Foi o início, com projetos de análise da viabilidade de algumas soluções, com base no têxtil…têxteis inteligentes, têxteis multifuncionais, que podem promover a camuflagem.
Explique-me um pouco melhor o que é isso. Para quem não sabe muito bem do que está a falar, como eu, o que são esses têxteis inteligentes para a camuflagem?
Um exemplo: o militar está no terreno, está numa missão, e o ideal seria ficar invisível. Ele está lá, mas ninguém o consegue ver nem detetar.
Claro que todos nós pensamos de imediato na visibilidade, mas depois, em termos de camuflagem, existem muitas outras ameaças. Não estamos a falar apenas daquilo que é visível a olho nu, no espectro do visível, mas estamos também a falar da assinatura térmica. Esse é um campo que não se vê, mas que existe e o militar é detetado através do calor corporal. Tornar este soldado invisível é o nosso grande objetivo. O mundo inteiro procura alcançar esse objetivo …quer seja no visível, quer seja no térmico. Invisível, inclusivamente, até para um radar.
É uma missão quase à James Bond, mas já existem soluções que permitam essa tal invisibilidade, também no plano térmico?
Não temos ainda, e creio que isso ainda não existe…a invisibilidade total. Agora, já existem soluções interessantes que permitem camuflar muito bem um soldado num determinado ambiente.
Quando nós falamos de camuflagem adaptativa, o que é que isso significa? Significa que a solução de camuflagem para o soldado normalmente passa por uma peça de vestuário simples, mas algo que é complexo quando falamos dos tais têxteis inteligentes.
Não é uma camisola ou umas calças que nós vestimos diariamente. Tem de ser um substrato têxtil com determinadas propriedades, determinadas características que permitam, de facto, que a gente olhe no meio de uma floresta e não consiga perceber que o soldado está lá. Ou seja, este têxtil vai buscar as cores do ambiente que o rodeia.
Mas o próprio têxtil consegue perceber as cores do ambiente que o rodeia ou haverá vários tipos de tecido consoante os vários ambientes?
Ora, aí está a grande questão…o que significa “adaptativo”. Eu posso ter uma solução para cada ambiente, mas procuramos agora um material que seja adaptativo em termos de cores. Um material que vá mudando de cor à medida que eu vou passando de um ambiente mais verde - uma floresta mais intensa - e me vou aproximando de uma clareira, com espaços mais amplos e que naturalmente serão menos verdes. Eu vou ter à minha volta uma vegetação ligeiramente mais clara, digamos assim. E o meu têxtil inteligente vai mudar do verde-escuro, por exemplo, para um verde mais claro.
Já conseguiram desenvolver essa solução, ou ela está ainda em fase de investigação?
Sim, sim. A solução que estou a referir – e que permite a mudança de cores mais escuras para cores mais claras - já conseguimos desenvolver.
Essa solução já tem, neste momento, aplicação prática na União Europeia? Esses tecidos, que vocês desenvolveram, já chegaram ao destinatário final, ao soldado?
Não, ainda não chegaram ao consumidor. Isto é um projeto de investigação e desenvolvimento. Ainda demora algum tempo porque, neste projeto, nós não estamos apenas a trabalhar a área do visível. Nós queremos também (trabalhar) na área do multiespectral.
O que é isto de “multiespectral”?
O que é isto? Deixamos de nos preocupar apenas com o campo do visível – daquilo que conseguimos ver a olho nu - e passamos a preocupar-nos, ao mesmo tempo, com a dimensão térmica, por exemplo. Ou seja, dois em um. Eu quero que o meu vestuário mude de cor, mas também seja capaz de fazer uma dissimulação da temperatura corporal.
E quando pensa que este material estará disponível para ir a fabrico de fardas, essas tais completamente camufladas? Quando é que chegará aos soldados da Ucrânia – ou da União Europeia – no caso de uma guerra envolver soldados europeus?
Nós estamos a trabalhar agora nas primeiras provas de conceito. Temos planeados testes de campo com o exército português. Estão previstos para finais de fevereiro. Depois, entretanto, com o “feedback” dos primeiros testes, vamos logicamente melhorar aquilo que já temos, começar a trabalhar na peça de vestuário completa…dando especial atenção à facilidade de vestir ou despir, e à liberdade total de movimentos.
Outro aspeto a considerar também é a questão da leveza. Devemos procurar ter materiais e peças de vestuário muito leves, muito flexíveis, com liberdade total de movimentos. Vamos trabalhar nisso depois de fevereiro e planear novos testes mais para o final do ano.
Em termos de planeamento global do projeto, o que eu posso avançar é que, em princípio, o projeto deverá estar concluído no primeiro semestre de 2027. Portanto, eu espero que nessa altura, se não for antes, já apareçam soluções, mais próximas do utilizador final, no âmbito do projeto à ACROSS.
Já me falou das soluções de camuflagem adaptativa para um soldado, nomeadamente. Mas também estão a trabalhar na camuflagem de veículos militares…
O grande objetivo é sempre o mesmo: tornar o objeto, se possível, invisível nos diferentes campos do espectro. Para os veículos continua a ser muito importante o visível, o térmico, mas também o radar.
Ou seja, os veículos não deverão ser detetados por radares e, eventualmente, até também por drones?
Eventualmente. Ou seja, nós estamos a trabalhar no desenvolvimento de soluções para tornar, vou dizer desta forma, invisível um determinado objeto. No entanto, as ameaças também estão em desenvolvimento constante.
Para falar num português muito simples: esta é uma luta do gato e do rato.