Montenegro considera "desejável" entrada da Ucrânia na União Europeia em 2027
20 dez, 2025 • José Pedro Frazão, enviado especial a Kiev
Na conferência de imprensa com o primeiro-ministro de Portugal, Volodymyr Zelensky admitiu que o Donbass possa ficar fora da organização de eleições. O líder ucraniano não esquece ainda os ativos russos congelados na Europa.
O primeiro-ministro português considera "desejável" que a Ucrânia entre na União Europeia em 2027, data prevista num dos planos de paz formulados pelos Estados Unidos.
Luís Montenegro expressou essa esperança no final de uma rápida deslocação a Kiev, respondendo a uma pergunta da Renascença sobre se essa data seria exequível ou otimista. Duas horas antes, na conferência de imprensa conjunta com Volodymyr Zelensky, o chefe de Governo havia assumido que o processo de adesão da Ucrânia é "complexo".
"A nossa decisão, ao nível do Conselho Europeu, com o estímulo de Portugal, é acelerar ao máximo esse procedimento. Isso implica que a Ucrânia também tem de acelerar as suas decisões e as suas reformas e cumprindo os critérios de adesão. E o processo decisório da parte das instituições europeias também tem de ter evolução positiva", afirmou Montenegro no palácio presidencial Mariinski, em Kiev.
O chefe do executivo deu garantias a Zelensky de "100% de compromisso" português em assumir uma "parte ativa do preenchimento de todos os critérios necessários para aceleração e concretização do processo de adesão".
Ucrânia não desiste dos ativos russos
O empréstimo de 90 mil milhões de euros em 2026 e 2027 à Ucrânia foi saudado por Montenegro e Zelensky, um dia após o acordo fechado no Conselho Europeu em Bruxelas.
"É um acordo muito significativo", disse Zelensky, que não deixa cair a situação dos ativos russos congelados na Europa. Na falta de um acordo sobre este tema, nomeadamente face à oposição húngara, o Conselho Europeu conseguiu uma unanimidade entre os 27, com cláusulas de exceção sobre responsabilidades financeiras para a Hungria, Eslováquia e República Checa.
"Valorizamos o fato de que os ativos congelados russos ficam bloqueados na Europa. E é isso que será justificado, para que a Rússia pague pela sua agressão com os seus ativos", afirmou Zelensky na conferência de imprensa, horas depois do primeiro-ministro Viktor Órban ter declarado "morto" um acordo sobre ativos russos, ao mesmo tempo que considera que o empréstimo é uma "má ideia".
Para Montenegro, Bruxelas selou um "momento histórico" no reforço da ajuda europeia à Ucrânia. O plano de apoio de 90 mil milhões de euros e a decisão de manter de forma permanente o congelamento de ativos russos, imobilizados até à reparação dos danos de guerra, "são circunstâncias inequívocas e um sinal que damos ao mundo e à Rússia e que proporcionam à Ucrânia condições para desenvolver um processo de paz justo".
Zelensky concorda com o adjetivo "histórico" e acrescenta-lhe o "sem precedentes". Associou o empréstimo de 90 mil milhões " de uma forma ou outra" aos ativos russos.
"A Ucrânia estará numa posição mais forte", afirma Zelensky que diz estar ainda a contar com os 210 mil milhões de euros de ativos russos. "A Ucrânia vai pagar os empréstimos de 90 mil milhões de euros, sem taxas de juro, apenas quando a Rússia pagar as reparações devidas à Ucrânia", assegura o presidente ucraniano que fala numa vitória "grande, real, importante e não apenas financeira, mas política e geopolítica".
De Kiev segue um novo cumprimento de Zelensky aos líderes europeia pela "força que demonstraram e pela integridade necessária a tal decisão".
A paz mais próxima?
Luís Montenegro sente que a paz está cada vez mais próxima da Ucrânia. É o espírito com que o primeiro-ministro sai de Kiev ainda que a paz não esteja ainda garantida.
"Um acordo de paz, por virtude das circunstâncias, é sempre muito difícil. Mas é preciso ter esperança. Disse ao Presidente Zelensky quando me despedi dele, que o acordo de paz está mais perto hoje do que estava ontem. E ontem já estava mais perto do que estava há um mês. E há um mês estava mais perto do que estava há um ano", confessa o primeiro-ministro.
A entrada da Europa numa reunião a quatro para a definição da paz é admitida por Zelensky, com a reserva de perceber os resultados das negociações em curso com os Estados Unidos.
"Depois compreenderemos o que fazer na continuação do processo. As questões são sempre as mesmas. Como é que a América reage depois de consultar os russos? Saberei mais logo", diz Zelensky
Eleições não devem entrar no Donbass
Confrontado com o cenário de eleições, Zelensky assume que elas não serão realizadas nos territórios "temporariamente ocupados". Se forem realizadas "como a Rússia costuma fazer", primeiro definem-se os resultados e depois contam os votos, afirma o Presidente da Ucrânia.
Zelensky lembra um histórico de eleições transparentes, com observadores internacionais, mas junta-lhe a complexidade do elevado número de ucranianos emigrados.
"Quando houver uma situação de segurança, as eleições poderão realizar-se", afirmou o líder ucraniano. Se alguém quiser eleições durante a guerra terá que se rever a legislação, mas algo tem que ser feito no domínio da segurança, diz o Presidente ucraniano.
"A paz é melhor do que a guerra, mas não a qualquer preço. Precisamos de uma paz forte de forma a que não sejam perturbadas por este ou outro Putin", remeta Zelensky.
Este conteúdo é feito no âmbito da parceria Renascença/Euranet Plus – Rede Europeia de Rádios. Veja todos os conteúdos Renascença/Euranet Plus
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