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Entrevista ao Presidente dos Médicos Sem Fronteiras

Javid, o médico que conta como é estar no pior dos mundos com as melhores intenções

30 dez, 2025 • José Pedro Frazão


Com um currículo feito nas maiores emergências do mundo, o presidente internacional dos Médicos Sem Fronteiras é uma das pessoas mais autorizadas a dar testemunho das principais catástrofes humanitárias do planeta. Em entrevista à Renascença, explica a diferença que faz um corte de financiamento na vida dos mais carenciados, descreve o uso da fome como arma de guerra e leva-nos até Gaza, ao Sudão e a Moçambique. Este médico britânico de origem sudanesa e iraniana explica ainda nos tempos de hoje uma organização humanitária como a que dirige até já tem gabinetes criados para combater a desinformação. Uma praga onde os Médicos Sem Fronteiras passam de cuidadores a vítimas.

Javid Abdelmoneim chegou há poucos meses à presidência internacional dos Médicos Sem Fronteiras (MSF) na sequência de uma grande experiência de medicina de emergência nos lugares mais difíceis do mundo. Foi líder das equipas médicas dos MSF recentemente em Gaza e no Sudão, depois de ter trabalhado em países como o Iraque, Haiti, Etiópia, Sudão do Sul, Síria, Chade, Ucrânia e Reino Unido. Trabalhou em resgates no Mediterrâneo, enfrentou a epidemia de Ébola na Serra Leoa e tem feito também carreira como apresentador de documentários nas maiores plataformas audiovisuais.

Em entrevista à Renascença, à margem de uma recente passagem em Lisboa, este médico britânico irano-sudanês deixou apelos ao acolhimento por Portugal de doentes sem tratamento em Gazae descreveu as principais tragédias humanitárias, onde um médico tem também de encontrar focos particulares de atenção a cada doente, para se salvar da espiral da doença mental que espreita em cada lugar pobre e sangrento.

Tem partilhado com o mundo o que viu em Gaza em 2024 durante a ofensiva israelita. Em tempos de cessar-fogo, qual é o principal desafio em termos de infraestruturas de saúde e de população?

A questão é agora multifacetada. Temos um cessar-fogo que, à superfície, interrompeu a violência em massa. Mas ainda há ataques aéreos e assassinatos de palestinianos com frequência, quase todos os dias. Não há um cessar-fogo total. Além disso, a promessa de um cessar-fogo era a de uma escalada maciça, um grande afluxo de ajuda humanitária, e não estamos a assistir a essa entrada em grande escala.

Grande parte do mundo pensará que a guerra acabou e que está tudo bem. Mas, no inverno, estamos numa situação em que há uma enorme necessidade de habitação, abrigos, comida e água, para não falar de material médico. E a questão é que temos um sistema de saúde destruído, completamente destruído, que mal consegue funcionar.

Mas, nos casos mais complexos ou crónicos, como a diálise renal ou o tratamento oncológico — que não acontece há dois ou três anos — há doentes em listas de espera à espera de transferência para a Europa ou para qualquer outro lugar. Por isso, estamos a fazer também um apelo urgente nesse sentido a Portugal.

Estes doentes não podem esperar que o sistema de saúde seja reconstruído, se tal for possível. E digo “se” porque uma estatística fundamental que quero realmente destacar é o número de profissionais de saúde mortos, desaparecidos, torturados e detidos em Gaza. São mais de 1.700. Especialistas, cirurgiões de trauma, neurocirurgiões, especialistas em todas as patologias foram mortos, alvejados. Não se constrói uma força de trabalho na área da saúde de um dia para o outro.

E qual é a solução a curto prazo?

A solução a curto prazo é a entrada de equipas de emergência médica, paramédicos e pessoal internacional para colmatar as lacunas, especialmente a nível cirúrgico e especializado. Mas, mais uma vez — e esta tem sido outra ferramenta de controlo — são necessárias autorizações. E a entrada e saída de tudo em Gaza está sob controlo das forças de ocupação de Israel. Portanto, como potência ocupante, Israel é responsável por garantir isto. Mas temos visto repetidamente outros intervenientes a serem alvos de forma indiscriminada. Não podem entrar com as suas equipas.

Temos muitos colaboradores que, se estivessem a regressar para o seu segundo, terceiro ou quarto período de trabalho, não receberiam as suas autorizações. Mais uma vez, é uma forma de suprimir a atividade médica que pode ser realizada.

E os medicamentos estão a entrar em Gaza agora?

Sobre a situação de abastecimento, publicámos um relatório chamado Sufocando Gaza, no final do verão. É a continuação de um relatório que divulgámos no início da primavera passada. Nele, existem estatísticas que mostram o caos, a aleatoriedade, os atrasos, as obstruções e as rejeições arbitrárias de licenças e do nosso abastecimento. Existem também listas de artigos supostamente de uso duplo que não podem ser importados.

O nosso tempo médio de aprovação para itens médicos, nestes dois anos, foi de cerca de 60 a 80 dias. E lembro-me da consequência disto quando lá trabalhei no verão de 2024 — nem sequer estou a falar do verão de 2025. Estávamos a ver doentes com traumas e queimaduras, mas os nossos pensos estéreis estavam em falta, o ibuprofeno tinha acabado e não tínhamos luvas. Por isso, tivemos de reduzir as trocas de pensos em doentes com queimaduras.

Isto significa maiores taxas de infeção, trocas de pensos mais dolorosas e um nível de serviço abaixo do padrão, fazendo o que se consegue fazer, se é que se consegue. Todo o nosso departamento de fisioterapia esteve sem canadianas ou cadeiras de rodas durante todo este período, porque ficaram retidas na fronteira.

A fome acabou em Gaza?

A fome é um conceito complicado. Há uma avaliação muito detalhada e técnica feita por uma agência independente chamada IPC. A fome pode estar no nível quatro ou cinco. A questão é que, mesmo que a classificação oficial de fome tenha acabado, as consequências médicas para cada ser humano que passou fome são de longo prazo, afetando os seus minerais, o esqueleto, a saúde cardíaca, mental e cerebral — tudo.

Mesmo abaixo do nível cinco de insegurança alimentar — que é oficialmente fome —, se estiver no nível quatro, isso ainda significa que estamos a falar de uma refeição por dia para toda a família. O pior é que temos visto a instrumentalização da alimentação como arma, o controlo dos alimentos para os utilizar contra toda a população civil.

Nesse mesmo período, assistimos a violência e a assassinatos orquestrados nos centros de distribuição de alimentos da Fundação Humanitária de Gaza (GHF). Existia esta dupla camada: a privação alimentar para toda a população e, ao mesmo tempo, o fornecimento de alimentos em locais militarizados que causavam danos. Isto é uma instrumentalização muito nefasta dos alimentos.

Israel denunciou a utilização de hospitais e outros estabelecimentos como escudos humanos em Gaza. Sabemos que existem túneis debaixo de alguns hospitais, isso foi demonstrado. Como médico, como alguém que conhece e esteve nesta área, qual é a sua opinião sobre isto?

Trabalhei no hospital do Ministério da Saúde durante dois meses. Tínhamos duas alas inteiras, com doentes a entrar e a sair, geríamos o laboratório. Tínhamos os nossos próprios depósitos, com doentes a entrar e a sair da sala de emergência e dos centros cirúrgicos.

Em todos os locais por onde circulámos, não houve absolutamente nenhuma utilização do espaço para fins bélicos. Absolutamente, categoricamente, nenhuma arma era permitida no local. Esta é uma regra de ouro para os Médicos Sem Fronteiras em todos os locais onde trabalhamos, não apenas em Gaza.

Se estivermos a trabalhar nalgum lugar, não há armas — seja num hospital no Haiti, numa clínica no Sudão, num comboio médico na Ucrânia ou num hospital em Gaza. Para nós, esta é uma linha vermelha. Por isso, posso afirmar que, onde trabalhei, absolutamente não existiram armas.

Qual é o papel das potências regionais em termos de saúde, como o Egipto e outros? Estão a fornecer ajuda suficiente aos palestinianos?

Não consigo responder a uma questão dessas. Como se avalia? Volto a falar das evacuações médicas. Os países da região evacuaram centenas de doentes, e isso é muito bom. Então, analisando isto e comparando com a União Europeia, o Canadá ou a Austrália, dizemos: alguns países da UE evacuaram de zero a três pessoas. Porquê?

Enquanto profissional, como se distancia do ambiente dos bombardeamentos? Conte-me como faz para preservar também a sua saúde mental.

Gosto sempre de lembrar às pessoas que eu, como membro da equipa internacional, tenho o privilégio e a segurança de saber que vou voltar. Mas, nos Médicos Sem Fronteiras, oito ou nove em cada dez membros da equipa são daquele lugar. Imagine os meus colegas palestinianos em Gaza — eles não vão embora. Estive lá dois meses e fui-me embora. Para mim, é fácil, na verdade.

Mesmo no caso do Ébola na África Ocidental, estive lá durante as minhas cinco semanas-padrão e fui-me embora. Gosto sempre de deixar bem claro que a maioria da espinha dorsal da forma como trabalhamos nos MSF são os meus colegas da equipa local. Portanto, em primeiro lugar, sou extremamente privilegiado.

Em segundo lugar, para mim, enquanto profissional de saúde — e tenho a certeza de que todos os meus colegas o fazem —, existem momentos quase sagrados. Há momentos preciosos que aproveito e guardo, como quando estou perante um paciente, sentado ao seu lado na cama, na maca ou na clínica, olhando-o nos olhos. Há ali uns minutos que, para mim, são quase sagrados. E são preciosos porque podemos proporcionar ou desfrutar de um momento de calma e de cura. Na verdade, para mim, esta é quase a essência dos MSF e da solidariedade global.

Dou-lhe um exemplo da Ucrânia, no metro, em Março, poucas semanas após a grande invasão, com três linhas da frente em redor de Kharkiv, no extremo leste do país. Grande parte da população tinha saído, mas muitos que não conseguiram ir embora refugiaram-se no metro e viviam em ambiente subterrâneo.

E eu, um estrangeiro qualquer, com os meus colegas ucranianos, levava uma clínica móvel para o metro e os doentes vinham ter comigo para receber medicamentos e olham para mim como se fosse louco. E perguntavam: "O que está aqui a fazer?". Mas, na verdade, é algo muito valioso. É incrível poder simplesmente sentar-me e dizer: "estamos aqui por vossa causa". Uma pessoa sente-se importante, sabe? "Nós vemos-te e tu és importante para nós". E acho que isso é algo realmente precioso em todo o lado. É isso que me dá força.

Tem falado muito ultimamente sobre o Sudão. Temos sinais de uma cada vez maior instrumentalização da fome. É uma história diferente?

A proteção de civis parece quase já não ser um conceito no mundo. Como disse, estamos a ver a comida a ser usada como arma contra os civis em Gaza. Recentemente, em Al-Fashr, cidade no norte do Darfur, no Sudão, que está cercada há 500 dias, construíram um muro de barro à volta de toda a cidade, apenas com uma saída, onde controlavam tudo o que entrava e saía. As forças de intervenção rápida cercavam a cidade e a população era obrigada a comer ração para animais. Assim, quando a cidade foi finalmente capturada por essas forças, apenas alguns milhares de pessoas conseguiram sair e vieram a pé até à nossa clínica na cidade vizinha, a cerca de 60 quilómetros de distância.

Fizemos um levantamento nutricional. Entrevistámos todos os adultos, crianças, grávidas e lactantes que vieram. As taxas de subnutrição são alarmantes, com 60% a 70% de pessoas grave, moderada ou agudamente subnutridas. É realmente chocante ver uma população civil a ser maltratada desta forma.

Trabalhei no Sudão, em Tigray, em Gaza, no Iémen antigamente, na Síria durante a guerra. Toda a gente viu essas guerras. Os ataques aos serviços de saúde, aos profissionais de saúde e aos trabalhadores humanitários também estão a aumentar. No Sudão, outra característica são os ataques a infraestruturas civis, como a eletricidade e a água, bem como os ataques com drones.

Não existem linhas da frente definidas quando ocorrem ataques com drones. Os civis são afetados por todos os lados. E o Sudão não recebe a atenção que deveria. É o maior desastre do mundo neste momento. Os números são impressionantes. Houve o colapso total de uma nação.

Parece que há sempre uma guerra esquecida. E há muitas delas por aí, certo?

Sim. É essa a impressão que dá. Há muitas guerras negligenciadas, ignoradas intencionalmente ou esquecidas, no Sahel Ocidental, no Mali, no norte de Moçambique.

Em Cabo Delgado, onde se fala português, imagino que poucas pessoas tenham compreendido que existe ali um grupo armado não estatal a lutar contra o governo.

Como avalia a situação aí?

Os Médicos Sem Fronteiras são uma das únicas organizações, talvez mesmo a única organização internacional a operar num local próximo de Cabo Delgado. Temos deslocações em massa de civis, verdadeira instabilidade e as ONG internacionais, por motivos de segurança, constatam que não podem trabalhar lá. Assim, restam apenas o Ministério da Saúde e nós. E há populações que ficam sem serviços de saúde, na medida em que uma organização como a nossa o pode fazer.

Há obstáculos do governo nacional?

É um contexto de insegurança. É um contexto de guerra. Não se trata de um obstáculo específico de uma das partes. Em qualquer contexto de guerra, onde há duas partes envolvidas - seja no Sudão, no genocídio em Gaza ou em Tigray - os civis estão a ser cada vez mais a ser afetados. A sua proteção, que não se resume apenas a não os atacar, é crucial. Trata-se também de garantir que têm um local seguro para viver, acesso a cuidados de saúde, água, alimentos e eletricidade. Estes recursos estão a ser comprometidos em todos os aspetos. E isso é preocupante.

Está dentro do seu mandato, enquanto presidente dos Médicos Sem Fronteiras, falar também das guerras esquecidas?

No meu mandato está a tentativa de amplificar as mensagens que queremos transmitir, mas também refletir para o mundo as coisas que estamos a ver ou o que nos é dito pelas comunidades - ou pelos doentes - para que as pessoas contem ao mundo, caso não estejam a ter a atenção que merecem. Não gosto da expressão "dar voz aos que não têm voz". Eles têm voz, simplesmente não estão a ser ouvidos.

Tenho uma responsabilidade para com a organização, que tem uma responsabilidade para com as comunidades e os doentes, de garantir que as mensagens que não estão a ser escutadas são transmitidas.

Percebi estão a reforçar ou tiveram que criar uma equipa dedicada exclusivamente à monitorização de discursos de ódio ou desinformação sobre saúde. Que tipo de estrutura foram obrigados a adotar no ambiente digital atual?

O espaço digital representa um risco cada vez maior para nós. Desafia os nossos princípios. A nível global, temos uma unidade digital completa. Pode reunir-se e decidir realizar análises aprofundadas num contexto ou noutro, para nos dar uma compreensão organizacional ou institucional e, em seguida, propor estruturas ou planos de ação para melhorar, reagir, envolver e assim por diante. Esta é uma unidade global.

Mas, na verdade, em todos os projetos, se estiverem num ambiente em que o espaço digital esteja a ser usado como arma, isso faz parte da minha gestão de segurança. Não usamos armas. Em todos os locais onde trabalhamos, são a negociação, o contacto humano e a discussão que nos levam a deixar claro que somos neutros. "Estamos aqui apenas para promover a saúde, deixem-nos ficar aqui". Essa é a nossa gestão de segurança, na verdade.

Mas também existe a monitorização do espaço online. Acompanhamos as conversas tanto quanto possível. Depois, tentamos perceber onde estão e assim por diante. Portanto, isso tornou-se integrado. É uma camada extra de gestão de risco. Não se trata necessariamente de uma equipa totalmente nova ao nível do projeto. A nível institucional, sim, temos uma unidade digital e estamos a tentar aprender e antecipar-nos o mais possível.

Quero abordar agora a inovação em medicamentos. Quando discutimos as desigualdades, sabemos que há algumas forças motrizes para tentar descobrir e tratar algumas doenças enquanto outras doenças são esquecidas. Quando se trata de pessoas e nações pobres, existem muitas doenças esquecidas, sem qualquer tipo de inovação, sem investimento tecnológico?

Absolutamente. Existe a lista oficial de doenças, que a Organização Mundial de Saúde gere com muitos especialistas e grupos técnicos, organizações, ministros da saúde e assim por diante. E os doentes, com experiência vivida, tentam incluir-se nessa lista das chamadas DTN, as doenças tropicais negligenciadas.

Existem definições sobre o que é negligenciado. Nós, por exemplo, recentemente pressionámos para que as mordeduras de cobra fossem incluídas nesta lista, porque o número de mortes por mordeduras de cobra, por exemplo no Sudão do Sul, é realmente elevado. E o veneno da mordedura de cobra é algo que tem de ser produzido, assim como um medicamento ou uma vacina. Quando se trata de qualquer tipo de doença negligenciada ou com cuidados insuficientes, a questão central das doenças negligenciadas ou ignoradas, onde não há desenvolvimento, a pergunta é a seguinte: porque é que acha que já existem mais de vinte medicamentos orais para a diabetes? Precisávamos mesmo do 20º medicamento?

Há algum interesse financeiro?

Sim, porque temos o Norte global, as populações ricas do mundo, e há dinheiro a ganhar. E por isso avançam para a 20ª vacina, que talvez faça uma diferença de 0,01%. O Ébola foi um caso clássico. Cinquenta anos de surtos em seis países diferentes. Até 2014, existia uma vacina ou um tratamento? Não. Porque é que foram desenvolvidos em 2014 e 2015? Porque, de repente, a doença passou a afetar as populações mais ricas do mundo. Havia pessoas infetadas, pessoas que regressaram de França, num dado momento em Inglaterra, e noutro momento, penso que nos Estados Unidos. De repente, o mundo rico, as grandes farmacêuticas, acordaram e disseram: "Meu Deus, isto pode afetar-nos. Vamos desenvolver um tratamento".

Como pode ver, existem aqui desigualdades e dinâmicas populacionais. E penso que a indústria farmacêutica precisa de desempenhar um papel na promoção de uma atenção mais equitativa. A pandemia global de COVID e a acumulação de vacinas que ocorreu na altura, significou que África ficou realmente no fim da fila, mesmo tendo o dinheiro e estando pronta para pagar. Mas países como o Reino Unido compraram os primeiros milhões de lotes dos primeiros quatro tipos de vacinas, por exemplo. Não era preciso tudo isso. Não poderiam partilhar?

A pandemia mostrou-nos a desigualdade na saúde?

É verdade.

A desigualdade foi uma lição da pandemia?

Foi, com certeza. Na arquitetura global da saúde, a Organização Mundial de Saúde e outras organizações multilaterais como o Fundo Global ou Gavi - a iniciativa de acesso às vacinas - são instituições essenciais para tentar garantir tratamentos destas grandes doenças mortais ou estas doenças tratáveis. Mas os países mais pobres têm dificuldade em aceder a elas devido a mecanismos de financiamento ou outros fatores. Estas organizações multilaterais devem ter tentar assegurar a igualdade e a equidade, mas também sofreram cortes neste período.

Nós não sofremos cortes. Não fazemos parte deste tipo de sistema de financiamento. Mas se organizações como estas sofrem cortes, significa que as populações onde operamos podem não ter recebido as suas vacinas ou os seus medicamentos contra o VIH, a malária ou a tuberculose. E isso afeta o nosso trabalho, porque eram questões que não tínhamos de fazer antes, nos Médicos Sem Fronteiras. Portanto, agora há também um problema e a desigualdade e a equidade vão piorar.

Pode dar-me exemplos dos impactos destes cortes noutras organizações ou em ambientes difíceis como estes?

Não sofremos cortes diretos de verbas, porque não atuamos diretamente nessas áreas. Não recebemos dinheiro do governo. Mas trabalhamos num ecossistema de saúde.

Assim, por exemplo, para o combate à malnutrição, mesmo no Sudão, o alimento medicinal para a malnutrição, é uma manteiga de amendoim chamada Plumpy Nut. Recebíamos isto como uma doação das Nações Unidas. A UNICEF doava-nos isso. Não era dinheiro que tínhamos de gastar, eram donativos. É para isso que existem, certo? Se a UNICEF sofrer cortes e não nos puder doar, temos agora de comprar o que precisamos. É assim que nos afeta. Não perdemos financiamento, mas agora temos de gastar mais para fazer a mesma coisa.

Estava a trabalhar em Cartum quando os cortes drásticos no financiamento foram anunciados em Janeiro e Fevereiro de 2025. Estava lá a trabalhar numa urgência de trauma, num hospital, a fazer pediatria e, em terceiro lugar, na maternidade, tudo dentro do hospital. Da noite para o dia, nos seis dias seguintes, quatro agências diferentes vieram ter comigo dizendo: "acabámos de perder o nosso financiamento para a alimentação".

Um daqueles famosos serviços de urgência do Sudão, nomeados para o Prémio Nobel da Paz, pediu-nos ajuda. Outra organização que estava a realizar um serviço de saúde primário perdeu todo o seu financiamento e pediu-nos ajuda. Outra organização trabalhava com saúde sexual e reprodutiva comunitária, com mais de 40 parteiras a trabalhar na comunidade da cidade. Acabavam de perder todo o nosso financiamento e pediram-nos ajuda.

Os Médicos Sem Fronteiras não conseguem de todo colmatar essas lacunas. Por isso, fazemos um apelo às nações do mundo. Estes sistemas foram criados para reduzir a desigualdade e promover a saúde e, realmente, este não é o momento para os abandonar.

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