07 jan, 2026 • Pedro Mesquita
O presidente do Conselho Europeu, António Costa, garantiu esta quarta-feira o apoio da União Europeia à Gronelândia e à Dinamarca, em resposta à cobiça dos Estados Unidos por aquele território no Ártico.
“Sobre a Gronelândia, permitam-me ser claro: a Gronelândia pertence ao seu povo. Nada pode ser decidido sobre a Dinamarca e sobre a Gronelândia sem a Dinamarca ou sem a Gronelândia”, declarou António Costa num discurso que assinalou a assunção, por Chipre, da presidência rotativa da União Europeia.
A pressão dos Estados Unidos aumentou nos últimos dias. Søren Ørskov é um médico dinamarquês, que fala português fluente, a residir na Gronelândia. Conta à Renascença que ele, como toda a população daquele território autónomo do Reino da Dinamarca, já se tinha habituado a este discurso.
Mas a preocupação cresceu no dia 3 de janeiro, data em que Trump ordenou uma intervenção militar norte-americana na Venezuela para capturar Nicolás Maduro: "Ultimamente, ele intensificou o discurso e acho que as pessoas estão com mais medo, porque viram o que ele fez na Venezuela. Entrou no país, capturou o presidente. Ora, se entrou na Venezuela, também pode entrar na Gronelândia", diz à Renascença Søren Ørskov.
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Segundo este médico dinamarquês, a esmagadora maioria da população da Gronelândia opõe-se a uma eventual anexação por parte dos EUA, um aliado da NATO: "Ninguém está a favor de uma invasão de Trump. Pelo menos nunca vi ninguém. Bom, há sempre uma exceção."
Søren não compreende, por outro lado, os argumentos invocados pelo presidente dos Estados Unidos da América: "As pessoas não entendem. Eu acho que é uma mania de Trump. Ele quer anexar (a Gronelândia) para parecer maior, mas nós já estamos a colaborar com os Estados Unidos. Eles já têm aqui uma base militar e podiam ter mais se quisessem. Era só falar."
Como olha para a ameaça de Donald Trump anexar a Gronelândia? O Søren, que é um dinamarquês a viver em Nuuk, e o resto da população da Gronelândia?
Trump já fala disso há muito tempo. Eu acho que já nos habituamos um pouco. Só que ultimamente ele intensificou o discurso e acho que as pessoas estão com mais medo, porque viram o que ele fez na Venezuela. Entrou no país, capturou o presidente.
Ora, se entrou na Venezuela, também pode entrar na Gronelândia... Mal posso esperar que os EUA mudem de presidente.
Eu sou um médico da Dinamarca. A maioria dos médicos na Gronelândia são dinamarqueses. Acho que os Estados Unidos estão cada vez mais agressivos e assim é mais difícil conseguir trazer médicos para a Gronelândia. Já começa a ser complicado.
Como é que a população em geral olha para isto? Há quem defenda a anexação da Gronelândia pelos Estados Unidos?
Ninguém está a favor de uma invasão de Trump. Pelo menos nunca vi ninguém. Bom, há sempre uma exceção.
Mas, por exemplo, quando eles mandaram pessoal do governo norte-americano (o vice-presidente J. D. Vance) à Gronelândia (em março de 2025), estava prevista uma visita à capital. Mas depois eles viram que ninguém os apoiava e acabaram por visitar a base militar que têm bem ao norte. Só estiveram aqui um dia e foram embora no mesmo dia.
Está convencido, portanto, de que a maior parte dos habitantes da Gronelândia não gostaria de ver o seu território anexado pelos Estados Unidos?
A maior parte não quer, não que ter nada a ver com eles. E as pessoas não entendem qual é o problema dos EUA. Eu acho que é uma mania de Trump. Ele quer anexar para parecer maior, mas nós já estamos a colaborar com os Estados Unidos. Eles já têm aqui uma base militar e podiam ter mais se quisessem. Era só falar.
Mas acredita que Trump acabará por anexar a Gronelândia ou acha que não vai acontecer?
Eu acho que não vai acontecer. Seria horrível se acontecesse. A Gronelândia está no reino da Dinamarca. Seria um país da NATO a atacar outro país da NATO. Não dá, espero que não.