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SEX ASSIS - RESPONSAVEL POLITICA EXTERNA DO PS - EURANET
Ouça aqui a entrevista a Francisco Assis

Entrevista a Francisco Assis

Tropas na Gronelândia? Assis não vê "nenhum motivo para que Portugal não o faça"

16 jan, 2026 • Pedro Mesquita


Tal como já fizeram outros países europeus, Portugal deveria enviar militares para a Gronelândia. É Francisco Assis quem o admite. O eurodeputado — responsável pela política externa do PS — diz que "pode haver boas razões para isso não ter acontecido". E sublinha: "não vejo nenhum motivo para que não sejam enviados" num esforço simbólico, como solidariedade com a Dinamarca.

Nesta entrevista à Renascença, Francisco Assis considera que "a União Europeia já deveria ter sido mais contundente em relação aos Estados Unidos", perante a ameaça de anexação da Gronelândia. E, neste ponto, o eurodeputado socialista mostra-se favorável à posição que acaba de ser assumida pelo ministro francês das Finanças, em entrevista ao Financial Times. Roland Lescure avisa Washington de que "invadir a Gronelândia é arriscar as relações comerciais com a Europa".

Francisco Assis está de acordo com esta posição, sublinhando que deve ser dito aos EUA que "qualquer posição ofensiva em relação à Europa terá de ter consequências e que a nossa capacidade de retaliação se fará sentir, certamente". Segundo o eurodeputado português, "o ministro (das Finanças francês) aí acertou: nomeadamente no plano comercial, onde os Estados Unidos precisam da Europa. Nós também precisamos dos americanos, mas há momentos em que temos de definir claramente as nossas posições".

Assis coloca "no domínio da loucura" a possibilidade de uma anexação da Gronelândia pelos EUA, mas acredita que "não se chegará a esse ponto".

Mas... e se acontecer? Uma invasão da Gronelândia seria o fim da Nato? "Sim, seria", responde Assis. "Pelo menos enquanto decorresse essa invasão e enquanto os Estados Unidos mantivessem uma posição dessa natureza, é evidente que não poderiam continuar a ser perspetivados como aliados dos Estados europeus. Tem de haver um mínimo de dignidade europeia nestes casos".

O ministro francês das Finanças alertou os EUA, numa entrevista ao Financial Times, que "invadir a Gronelândia é arriscar as relações comerciais com a Europa". Como olha para esta declaração?

Nós estamos confrontados com uma situação absolutamente anómala no que diz respeito ao nosso relacionamento com os Estados Unidos. As relações foram quase sempre boas e agora há, de facto, da parte dos Estados Unidos uma rutura absoluta em relação àquilo que tem sido o seu comportamento ao longo da história. Perante uma situação anónima como esta, é natural que haja reações como aquela que acabou de referir por parte de dirigentes políticos europeus.

É óbvio que uma situação de litígio político a esse nível não deixará de ter repercussões noutros planos, nomeadamente no plano comercial. Aliás, recordemos que já houve, no verão passado, um litígio comercial sério entre a União Europeia e os Estados Unidos.

A questão da Gronelândia não pode passar em claro, o que tem acontecido é absolutamente impróprio. Os Estados Unidos têm tido, no âmbito da sua participação na NATO — e que é uma participação absolutamente decisiva — a possibilidade de utilizar o território da Gronelândia para fins de defesa do seu próprio território.

Tem, de resto, uma base...

Tem uma base, neste momento. Na Segunda Guerra Mundial foi fundamental.

Até já tiveram mais...

Tiveram mais, e foi fundamental. Depois houve bases que foram desativadas. Há uma coisa que é preciso lembrar: nós não deixámos de ser aliados dos Estados Unidos, nem os Estados Unidos de ser nossos aliados. Estamos a passar por uma fase difícil e que corresponde muito às características específicas deste Presidente americano. Esperemos que isto passe rapidamente, que seja apenas um problema de um mandato e que depois se recupere um bom relacionamento com os Estados Unidos.

Mas caso viesse a acontecer uma anexação da Gronelândia por parte dos Estados Unidos, pela força, subentende-se, nesse caso...

Eu acho tão impensável...

Impensável, mas tem sido muito falado. Nesse caso, as declarações do ministro francês das Finanças ao Financial Times, admitindo que "invadir a Gronelândia é arriscar as relações comerciais com a Europa", seriam uma boa resposta?

A invasão da Gronelândia é uma situação tão impensável que dificilmente pode ser objeto de um pensamento, isto é, de uma avaliação racional. Os Estados Unidos são um aliado. Nós fazemos todos parte da mesma aliança militar defensiva. Os Estados Unidos podem estar seguros em relação ao contributo europeu para a defesa do seu território, como nós até aqui temos estado. Diga-se, de passagem, que o contributo americano tem sido bem maior do que o europeu.

Da parte europeia não há nenhuma manifestação no sentido de se quebrar essa aliança com o espaço americano. Isto é tudo domínio da loucura. E eu acredito ainda que haja limites para essa loucura, porque não há outra forma de avaliar esta situação. À luz de qualquer critério racional, ninguém pode entender este comportamento norte-americano.

Mas de que forma preventiva é que a União Europeia deve agir?

A forma preventiva é esta. A União Europeia está a responder diplomaticamente e com sinais políticos indiscutíveis. O facto, por exemplo, de estarem neste momento militares de vários países europeus na Gronelândia tem um significado. É simbólico, mas significa que nós valorizamos a nossa ligação à presença da Dinamarca no espaço europeu e valorizamos a nossa solidariedade intraeuropeia neste caso. Ao mesmo tempo estão a ser feitos esforços diplomáticos.

E também há uma coisa que é fundamental, é preciso começar a interpelar a sociedade americana. Os Estados Unidos não são só o seu Presidente. Os Estados Unidos têm uma tradição democrática, têm um Senado, têm uma Câmara de Deputados, têm uma sociedade civil bastante ativa e nós temos de começar a interpelar a sociedade americana para saber se os americanos se reconhecem neste estilo de presidência provocatória em relação à Europa... e que põe em causa esta Aliança que é essencial para os Estados Unidos. A Aliança não é só importante para os países europeus, ela é importantíssima também para os Estados Unidos.

Já lá iríamos. Referiu-se ao envio de algumas tropas, de vários países, para a Gronelândia. Portugal — sendo membro da NATO e membro da União Europeia — deveria também, como mensagem, enviar militares para a Gronelândia?

Sim, não vejo nenhum motivo para que Portugal não o faça, estando outros países a fazê-lo. Nós estamos aqui claramente a falar do domínio do simbólico, porque é inconcebível qualquer confronto militar entre a Europa e os Estados Unidos.

Bem sei, mas no plano simbólico devia enviar desde já?

Eu desconheço as razões por que não foram enviados e, portanto, não me quero estar a precipitar porque pode haver boas razões para isso não ter acontecido. Mas também não vejo nenhum motivo para que eles não sejam enviados no sentido de participação num esforço que é simbólico, repito, para manifestar a nossa solidariedade com a Dinamarca, neste caso.

Já sublinhou a importância da Nato para a União Europeia, mas também para os Estados Unidos. Uma invasão da Gronelândia seria o fim da Nato?

Sim, seria. Pelo menos enquanto decorresse essa invasão, e enquanto os Estados Unidos mantivessem uma posição dessa natureza, é evidente que não poderiam continuar a ser perspetivados como aliados dos Estados europeus. Tem de haver um mínimo de dignidade europeia nestes casos. Agora, eu acredito que não se chegará a esse ponto, porque, como repeti, isso é do domínio da loucura. Já ultrapassámos tudo o que é um entendimento racional de todos estes acontecimentos.

Mas se é do domínio da loucura tudo pode acontecer...

Exato. Eu também não estou a dizer que não aconteça, espero é que não aconteça. Podendo acontecer... é menos previsível, apesar de tudo, que aconteça. Eu acredito que ainda haja aqui mecanismos de racionalização dos processos de decisão, nomeadamente dos Estados Unidos.

Para concluir, e recuperando a posição do ministro francês das Finanças, esta posição em vez de ser tomada pelo ministro francês não deveria já ter sido tomada pela própria União Europeia?

Eu acho que a União Europeia já deveria ter sido mais contundente em relação aos Estados Unidos.

Contundente como? Dizendo o quê?

Dizendo, por exemplo, o que disse o ministro das Finanças francês, que qualquer posição ofensiva em relação à Europa terá de ter consequências e que a nossa capacidade de retaliação se fará sentir, certamente. E o ministro aí acertou, nomeadamente no plano comercial, onde os Estados Unidos precisam da Europa. Nós também precisamos dos americanos, mas há momentos em que temos de definir claramente as nossas posições.

Comentários
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  • Maria
    16 jan, 2026 Palmela 23:45
    Contigo na frente de combate!
  • Manuel Ferraz
    16 jan, 2026 Portugal 22:40
    Mas quem é este para responder pelos portugueses? Da a sua opinião apenas mais nada.