Literacia financeira
UE prepara selo de transparência e qualidade para "finfluencers"
27 mar, 2026 • Pedro Mesquita
A eurodeputada social-democrata Lídia Pereira é relatora de um projeto europeu de literacia financeira, que prevê, nomeadamente, a atribuição de um selo europeu de qualidade aos chamados "finfluencers", os influenciadores da área financeira.
A eurodeputada Lídia Pereira, do PSD, considera "é preocupante que apenas 18% dos cidadãos da União Europeia – um em cada cinco europeus tenham um nível elevado de literacia financeira".
Lídia Pereira sublinha que vivemos num "contexto digital extremamente desafiante", em que "o papel dos chamados "finfluencers" assume, por isso, particular relevância".
Já segue a Informação da Renascença no WhatsApp? É só clicar aqui
Entrevistada pela Renascença, a relatora de uma iniciativa europeia de literacia financeira alerta que a transição digital constitui uma oportunidade, mas envolve também alguns riscos, incluindo "a exposição a um marketing agressivo e a fraudes online".
Lídia Pereira considera essencial, por isso, a criação de regras claras para os "influencers" de conteúdos financeiros – os chamados "finfluencers" – "em particular quando existem parcerias comerciais, patrocínios ou outros interesses económicos envolvidos".
Entre as novidades sugeridas, está a atribuição de um selo de qualidade aos criadores de conteúdos financeiros que cumpram padrões de transparência e qualidade: "Tenho a certeza de que, com esse selo, as pessoas podem consumir responsavelmente os conteúdos digitais e tomar decisões que não lhes custem, não só o seu próprio dinheiro, mas muitas vezes as suas pensões ou as suas casas".
No essencial qual é o objetivo deste relatório?
O objetivo é garantir que mais literacia financeira signifique mais liberdade para decidir. Houve uma janela de oportunidade, uma vez que este relatório surge quase no seguimento da estratégia da Comissão Europeia, neste caso específico liderado pela comissária Maria Luís Albuquerque. É, no fundo, um "follow-up" para conseguirmos melhores números de literacia financeira.
É preocupante que apenas 18% dos cidadãos da União Europeia – um em cada cinco europeus – tenham um nível elevado de literacia. Há muitas disparidades entre os Estados-membros. Estamos a falar de uma circunstância em que 50% dos adultos não têm poupanças de emergência suficientes para cobrir três meses de despesas, temos um contexto digital extremamente desafiante e, portanto, o papel dos chamados "finfluencers" assume aqui particular relevância.
Deixe-me fazer uma pausa para explicar a quem nos ouve que "finfluencers" são os influencers da área financeira...
Da área financeira, exatamente. É uma palavra curiosa, não é? São os "influencers" dedicados ao setor financeiro. Como eu dizia, a geração mais nova, em particular a Geração Z, têm aprendido muitas coisas através das redes sociais, pesquisas online. As redes sociais tornaram-se de facto a fonte dominante de informação financeira e, por isso, a transição digital constitui uma oportunidade e alguns riscos ampliando o acesso, mas também a exposição a marketing agressivo e a fraudes online. Isto é, de facto, muito relevante e o Parlamento quis dar uma resposta significativa. Uma das coisas que defendemos é que haja regras mais claras para criadores de conteúdos financeiros, os chamados "finfluencers", em particular quando existem parcerias comerciais, patrocínios ou outros interesses económicos envolvidos.
Uma das medidas mais inovadoras, neste sentido, é a criação de um selo voluntário europeu para distinguir quem divulga informação financeira com transparência e qualidade. As propostas aprovadas pedem maior envolvimento das plataformas digitais na deteção e na limitação da fraude financeira online, em particular burlas ou anúncios enganosos. E eu queria dizer outra coisa que tem a ver com o próprio mercado de capitais: Temos falado muito na União das Poupanças e do Investimento e a verdade é que os europeus só vão confiar as suas poupanças em investimentos no mercado europeu se perceberem da complexidade que existe no sistema financeiro. E, portanto, isso tem que alinhar não só os intermediários no ecossistema digital como também no setor financeiro. Esta proposta surge no seguimento daquele que é o compromisso da União Europeia em, de facto, irmos ao encontro da competitividade, de alavancarmos o crescimento económico, que passa também pelo mercado de capitais ou, neste caso, da União das Poupanças e do Investimento. No fundo é promover a importância que o setor financeiro tem e garantir que as pessoas podem tomar as suas decisões livremente, mas com consciência e com confiança.
UE aperta regras contra “greenwashing” e já há ferramenta gratuita para ajudar empresas portuguesas
Iniciativa integra o Pacto Climático Europeu, no â(...)
Quando fala do selo de qualidade e também das novas regras, há algum tipo de penalizações previstas pela União Europeia para os tais "finfluencers" que passem "fake news", que passem informação errada?
Bom, é preciso ter em conta que há uma legislação específica, o "Digital Services Act", que tem considerações específicas num plano de ação contra a fraude online. Portanto, do ponto de vista daquilo que é a legislação europeia já há respostas efetivas ao combate à fraude.
Aqui, portanto, seria mais pela positiva criar o tal selo de qualidade?
É fundamental que haja incentivos para haver boas cooperações. Esta proposta que sai do Parlamento Europeu vai precisamente nesse sentido e as pessoas confiam - em princípio confiam - nas instituições e nas organizações do Estado. Tenho a certeza de que com esse selo as pessoas podem consumir responsavelmente os conteúdos digitais e tomar decisões que não lhes custem, não só o seu próprio dinheiro, mas muitas vezes as suas pensões, as suas casas. É essencial tomarmos decisões com confiança e este selo de qualidade vem precisamente nesse sentido.
Considera avisado que os líderes europeus continuem a transmitir grandes decisões através das redes sociais? Todos eles o fazem, todos, considera que isso é avisado?
Para ser muito sincera, estamos numa era em que o poder político e as organizações em geral têm de estar onde as pessoas estão. Se as pessoas estão nas comunidades online tem de haver essa presença digital também por parte destas organizações. Eu creio que as redes sociais têm sido um grande promotor de aproximação entre os decisores políticos e os eleitores e, portanto, é mais um dos veículos que permite a transmissão de informação relevante, pese embora a importância absolutamente essencial por parte daquilo que é o trabalho dos órgãos de comunicação social, há de facto esta capacidade de promoção e de difusão de informação que eu creio que é importante, não só numa lógica de "accountability" (responsabilidade), mas também de "checks and balances" (pesos e contrapesos) por parte dos eleitores relativamente ao poder político.
Este conteúdo é feito no âmbito da parceria Renascença/Euranet Plus – Rede Europeia de Rádios. Veja todos os conteúdos Renascença/Euranet Plus.













