Mortes por água contaminada aumentaram mesmo?
25 jun, 2025 • Fátima Casanova
No Explicador Renascença desta quarta-feira, falamos por que razão 2023 registou o maior número de mortes atribuídas à água contaminada em 15 anos, apesar de a água da rede pública continuar a ser considerada segura.
A qualidade da água piorou?
Não. A água da rede pública é de boa qualidade, segundo a ERSAR – a entidade reguladora dos serviços de Águas e Resíduos. Os dados mais recentes, de 2023, indicam que a percentagem de água segura no continente é de 98,77%, um valor considerado de excelência. Este é o valor médio nacional. Apenas um concelho – Mértola, no distrito de Beja – apresenta uma classificação insatisfatória, ainda assim com um nível de segurança de cerca de 92%.
Então, o que aconteceu para termos o aumento do número de mortes?
Uma das explicações pode estar no consumo de água de poços ou fontanários. A relação entre este tipo de consumo e a idade das vítimas é plausível: os óbitos atribuídos a água contaminada e falta de higiene aumentam com a idade. Das 518 mortes registadas em 2023, mais de metade – cerca de 300 – ocorreram em pessoas com mais de 85 anos. Há também uma predominância do sexo feminino: seis em cada dez vítimas eram mulheres.
O acesso à água de poços ou fontes poderá ser uma explicação… há mais alguma para justificar o aumento do número de mortes?
Sim. A Direção-Geral da Saúde (DGS) indica que o aumento noticiado pode resultar de uma alteração na classificação internacional das causas de morte, e não de um agravamento real da qualidade da água.
É uma questão técnica?
Sim. Segundo a DGS, a Organização Mundial da Saúde atualizou as regras de codificação. Até 2017, algumas mortes por infeções gastrointestinais eram identificadas com o código K52.9. Atualmente, essas mortes são incluídas noutras categorias – A09.0 e A09.9 – que abrangem colites de origem infeciosa especificada ou não especificada. Esta mudança torna os números anteriores e posteriores a 2018 incomparáveis.
E sendo assim, há dados que permitam saber se houve ou não mais mortes atribuídas a água insalubre?
De acordo com a DGS, desde 2015 o número de mortes atribuídas a condições de água e saneamento inseguras tem vindo a diminuir de forma consistente. A entidade rejeita, por isso, a ideia de um aumento real das mortes como avançado pelo Jornal de Notícias, que apontava para uma subida superior a 440% numa década e meia. A DGS reforça que os padrões de qualidade da água da rede pública são elevados em Portugal, posição que é também confirmada pela ERSAR. Para quem quiser saber mais sobre a qualidade da água da sua zona, a ERSAR disponibiliza um mapa interativo com essa informação.

























