14 nov, 2025 • André Rodrigues
Uma mulher em Portugal trabalha dois meses de borla. É uma metáfora, mas ajuda a compreender a desigualdade salarial entre homens e mulheres.
No fundo, é como se nos últimos dois meses do ano as mulheres ficassem sem salário.
O Explicador Renascença esclarece.
Não. Os dados mostram uma redução lenta, mas consistente da desigualdade salarial, desde 2018. De acordo com o Ministério do Trabalho, a diferença salarial é de 12,5%, se se tiver em conta apenas o salário-base. Se contarmos apenas com esse dado, isso significa que uma mulher trabalha 46 dias de graça.
No entanto, o Observatório Género, Poder e Trabalho do ISEG fez outras contas e conclui que a diferença salarial aumenta se se comparar homens e mulheres com o mesmo nível de escolaridade, idade e antiguidade na entidade empregadora.
Aí, a diferença sobe para 17,5% e o número de dias de trabalho não remunerados aumenta para 64. Ou seja, é como se as mulheres não recebessem salário desde o fim de outubro.
De acordo com o relatório do ISEG, o segundo cenário: 64 dias.
Mas, atenção, este número é apenas uma forma de ilustrar o impacto da diferença de salários.
Vamos a um exemplo: num salário de 1.400 euros, se tivermos em conta a diferença salarial estimada pelo Ministério do Trabalho em 2023 (os tais 12,5%), uma mulher recebe menos 175 euros por mês em relação a um homem.
Se considerarmos o diferencial de 17,5% avançado pelo relatório do ISEG, o valor dispara para os 245 euros que uma mulher recebe a menos.
Quadros superiores e profissões altamente qualificadas. Aqui a diferença salarial entre homens e mulheres aproxima-se dos 24%.
Na carreira científica e tecnológica, onde acrescem ainda as barreiras de entrada na profissão. E, finalmente, em setores tradicionais masculinizados, como a agricultura ou a indústria.
Portanto, as desigualdades aumentam à medida que se sobe na hierarquia.