09 jan, 2026 • Anabela Góis
O acordo entre a UE e o Mercosul vai mesmo avançar?
Sim. Depois de mais de 25 anos de negociações, o acordo entre a União Europeia e o Mercosul vai finalmente avançar. Um primeiro esboço foi alcançado em 2019, mas foi travado pelo Parlamento Europeu, sobretudo devido à oposição da França. A versão atual ficou pronta em 2024, mas enfrentou dificuldades para garantir a maioria qualificada de 15 Estados-Membros. Essa maioria foi agora alcançada e o acordo foi assinado esta tarde pelos países da União. Na próxima semana, a presidente da Comissão Europeia vai ao Paraguai para oficializar o acordo com os países do Mercosul.
Mas e que novidades traz este acordo, para ser ter sido assim tão difícil de concluir?
O acordo prevê uma redução significativa das tarifas aduaneiras entre a União Europeia e os países do Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai). Nos próximos 10 anos, a UE eliminará progressivamente taxas em 91% dos produtos, e o Mercosul fará o mesmo em 92%. Os setores mais beneficiados serão o do vinho, açúcar, café e indústria automóvel. Para produtos considerados mais sensíveis, como carne bovina e queijo, foram definidas quotas para proteger os produtores locais. Um dos principais objetivos do acordo é reduzir os preços, incluindo para os consumidores europeus. A Comissão Europeia estima uma poupança de quatro mil milhões de euros por ano.
O acordo não agrada aos agricultores, é isso?
Sim. O setor agrícola tem manifestado forte oposição ao acordo. Em Espanha, várias estradas foram bloqueadas e, em França, registaram-se novos protestos em Paris. Os agricultores europeus temem a concorrência dos países do Mercosul, sobretudo devido ao uso de pesticidas e fertilizantes que não são permitidos na União Europeia por razões ambientais. Estes produtos são mais baratos e permitem reduzir os preços no mercado, o que pode afetar as vendas dos produtores europeus.
E por isso é que dizias há pouco que foi difícil conseguir uma maioria dentro da União para fechar o acordo?
Precisamente. Apesar dos esforços da Comissão Europeia, países como França, Polónia, Áustria, Irlanda e Hungria mantiveram o voto contra. A Bélgica absteve-se. Já a Itália só deu luz verde depois de garantir a possibilidade de ativar um mecanismo de proteção para produtos agrícolas sensíveis. Portugal, por outro lado, foi um dos maiores defensores do acordo. O ministro da Agricultura elogiou o entendimento, e o Presidente da República classificou-o como um passo decisivo para o país e para a Europa, não apenas por motivos económicos.
Mas é por razões económicas ou também políticas?
Também políticas. A União Europeia pretende reforçar a sua presença na América Latina, uma região onde os Estados Unidos têm mostrado interesse – como ficou evidente na questão da Venezuela – e onde a China é atualmente o principal parceiro comercial do Mercosul. Com este acordo, Bruxelas procura afirmar-se num cenário internacional marcado pela instabilidade e imprevisibilidade, assumindo uma posição estratégica na região.