Explicador Renascença
Homem curado de infeção por VIH em Oslo. Há mesmo cura para a SIDA?
14 abr, 2026 • André Rodrigues
Pode ser mais um passo para o tratamento da SIDA. O Explicador Renascença conta o que aconteceu na Noruega e que implicações pode ter na luta contra a doença do sistema imunitário.
Um homem de 63 anos ficou curado da infeção por VIH, após um transplante de células estaminais. São já dez os casos de pacientes que entraram em fase de remissão, depois do primeiro tratamento feito em 2009.
Afinal a SIDA tem cura?
Em regra, não há uma cura simples e aplicável à maioria das pessoas infetadas com o VIH. O tratamento padrão continua a ser a terapêutica antirretroviral, que controla o vírus mas não o elimina por completo.
Mas há casos muito raros de remissão prolongada sem medicação após o transplante de células estaminais, nomeadamente para tratamento de cancros do sangue.
Apesar de alguns especialistas descreverem estes transplantes como cura, não existe um consenso absoluto sobre esta matéria.
Fala-se de remissão sustentada, uma vez que o VIH — que é o vírus responsável pela SIDA pode ficar oculto no organismo e, noutros contextos, manifestar-se, caso haja uma carga viral suficiente para se reativar.
Então, o que é que aconteceu neste caso do paciente de Oslo?
Trata-se de um homem que vivia com VIH e que precisou de um transplante de células estaminais com uma mutação específica, para tratar um princípio de leucemia.
De acordo com o estudo agora publicado na revista Nature Microbiology, o transplante foi feito com células de um irmão e, após um acompanhamento prolongado, o doente interrompeu o tratamento antirretroviral. Quatro anos depois, continua sem evidência clínica de um regresso do vírus.
A equipa que acompanhou este paciente de Oslo descreve análises ao sangue, à medula e ao intestino, refere precisamente essa ausência do vírus com capacidade de se replicação. E esse é um sinal compatível com uma remissão de longa duração.
Que mutação específica é esta?
É uma mutação celular que altera um dos fatores que é utilizado pelo VIH para quebrar a barreira do sistema imunitário.
Ou seja, quando o transplante substitui o sistema imunitário do doente por células com essa mutação, é mais difícil ao vírus encontrar as chamadas células alvo para reiniciar a infeção.
E é precisamente este detalhe que também ajuda a perceber por que motivo estes casos de remissão prolongada são tão raros: é preciso que haja compatibilidade para transplante e um dador com características genéticas muito pouco frequentes. É uma combinação de fatores de sorte.
Isto é solução para os milhões de pessoas que vivem com VIH?
Não. Desde logo, porque este transplante de células estaminais é um procedimento agressivo e arriscado, usado sobretudo quando existe um cancro do sangue que o justifique. Logo, não é uma terapia que se possa aplicar em larga escala a quem vive com VIH controlado.
Além do risco, é um procedimento que exige recursos especializados, compatibilidade entre doador e doente e um seguimento clínico prolongado, o que o torna impraticável enquanto estratégia global para lidar com a Sida.
No futuro, o que pode acontecer a partir destas descobertas?
Antes de mais, elas podem ajudar os investigadores a perceber até onde podem ir em terapias que possam substituir o sistema imunitário dos seres humanos e que impacto é que isso tem nos chamados reservatórios do vírus.
Porque, no fundo, este transplante vem provar que é biologicamente possível eliminar ou, pelo menos, neutralizar o VIH ao ponto de manter a remissão sem medicação - algo que durante décadas foi considerado como algo praticamente impossível.
Agora, a partir daqui, fica aberto o caminho para encontrar outras terapias menos perigosas do que o transplante. Mas isso vai, seguramente, levar muito tempo.
Por isso, para a esmagadora maioria dos doentes com Sida, o caminho continua a ser diagnóstico, acesso e adesão à terapêutica antirretroviral — que permite viver muitos anos com qualidade e reduz o risco de transmissão da doença.



























