Genocídio, palavra proibida
28 abr, 2021
Classificar de genocídio um massacre de arménios pelo império otomano, em 1915, é crime na Turquia. Agora, pela primeira vez um presidente dos EUA – Joe Biden – usou essa palavra. País membro da NATO, a Turquia afasta-se do Ocidente e aproxima-se da Rússia de Putin.
Num discurso emocionado no Parlamento Europeu (PE) a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, queixou-se da desconsideração sofrida no recente encontro em Ankara com o Presidente da Turquia, Erdogan.
Como se sabe, apenas duas cadeiras estavam na sala – uma para Erdogan, a outra para o Presidente da UE, Charles Michel, que não teve o gesto de oferecer a sua cadeira a Ursula (por isso a sua imagem saiu muito danificada deste incidente).
A presidente da Comissão Europeia teve que se sentar num sofá, como se fosse uma mera assessora. Não sabemos se esta situação foi criada por Erdogan. Mas, pelo menos, ele nada fez para a corrigir.
Porquê? Porque Ursula é uma mulher, disse ela própria perante o PE.
Volto a lembrar que este ano a Turquia abandonou a chamada Convenção de Istambul, sobre a prevenção da violência contra as mulheres.
Erdogan dá passos para islamizar o seu país, contrariando a tradição de Estado laico, que vem do fundador da Turquia, Ataturk, e durante décadas foi mantida pelos militares turcos. Ora Erdogan ouviu, há dias, o Presidente dos EUA, Joe Biden, afirmar que o massacre de arménios pelo império otomano em 1915 foi mesmo um genocídio.
Esta afirmação solene, que nenhum Presidente americano havia antes feito, era uma promessa eleitoral de Biden.
A Turquia não nega ter havido um massacre, no qual terão morrido entre 600 mil e um milhão e meio de arménios.
Mas recusa terminantemente que tenha sido um genocídio, porque não houve intenção de eliminar os arménios da face da terra, acrescentando que se tratou de um episódio de violência no quadro da I Guerra Mundial e que atrocidades como esta foram cometidas por ambas as partes em conflito (otomanos aliados da Alemanha, arménios supostos aliados da Rússia). Na Turquia é crime chamar genocídio a esta mortandade.
Foi por causa da extrema sensibilidade dos turcos quanto à palavra “genocídio” que nenhum antecessor de Biden a usou, para não incomodar um parceiro importante da NATO. Mas o Congresso dos EUA reconheceu em 2019 ter sido genocídio.
E cerca de 30 países tomaram essa posição. O Papa Francisco disse que aquele massacre foi o primeiro genocídio do século XX.
Biden já mostrou não temer as palavras. Considerou Putin um “assassino sem alma”, mas telefonou-lhe a combinar uma próxima cimeira (necessária, por exemplo, para um novo passo no desarmamento nuclear).
A Administração Biden tem-se mostrado dura com a China, mas o ministro americano do Ambiente, John Kerry, foi a Shangai falar com as autoridades chinesas sobre o combate às alterações climáticas e ao aquecimento global.
O que irá acontecer com a Turquia, país membro da NATO? Durante longos anos, a elite militar americana procurou segurar a participação da Turquia na Aliança Atlântica. A posição estratégica da Turquia, vizinha da União Soviética, por um lado, e do mundo muçulmano, por outro, aconselhava prudência.
Mas Erdogan mudou, o que levou a posição dos chefes militares dos EUA a mudar também.
O Presidente turco aproximou-se de Putin e faz com este coro contra os valores democráticos ocidentais.
Mais: Erdogan comprou à Rússia sofisticado material militar, um sistema de defesa anti-míssil que não se enquadra no material usado pela NATO.
Duas conclusões são possíveis: em primeiro lugar, a política externa de Biden será diferente da seguida por Trump, o que era previsível, e, também, da protagonizada por Obama, o que foi menos previsto. Em segundo lugar, o mundo está mais instável e perigoso.
Ter na Casa Branca um político corajoso, com uma longa experiência política no plano internacional, como é o até aqui tão desvalorizado Biden, permite algum alívio.
- 19 mai, 2026
- 15 mai, 2026
- 12 mai, 2026
- 08 mai, 2026
- 05 mai, 2026
- 28 abr, 2026
- 24 abr, 2026
- 21 abr, 2026
- 17 abr, 2026
- 14 abr, 2026



