Elogio da democracia liberal
31 jan, 2022
Recordando o tempo em que não existiam em Portugal eleições livres e justas, importa estarmos atentos aos que desvalorizam o voto, chamando-lhe “democracia burguesa”. A democracia pluralista e liberal é a única que respeita a liberdade e os direitos humanos.
Escrevo sem conhecer os resultados das eleições de ontem. Quero aqui manifestar a minha satisfação por ter votado, assim como tantos outros.
Não esqueci que antes do 25 de Abril havia eleições em Portugal, mas não eram democráticas nem justas. Por isso durante esse período nunca votei.
E também recordo como, em 1974 e nos primeiros meses de 1975, o PCP e boa parte da extrema-esquerda tentaram evitar eleições, procurando convencer nesse sentido os militares. Mas foram estes que trouxeram a democracia ao nosso país, após quase meio século em que os portugueses viveram sob um regime não democrático.
Vários jornalistas estrangeiros, enviados a Portugal para cobrirem as eleições de 25 de Abril de 1975, perguntavam-nos porque dávamos tanta importância a uma votação que não iria mudar o Governo, mas apenas escolher os deputados à Assembleia Constituinte, que iriam redigir a Constituição.
A resposta foi dada naquela votação. A enorme participação no voto e os seus resultados mostraram serem muito minoritárias as forças que se arrogavam falar em nome dos portugueses, auto-proclamando-se a vanguarda iluminada do povo.
Por isso se tornou desde então impensável, entre nós, rejeitar eleições, classificando o voto popular de “democracia burguesa”. Essa designação considera meramente formal e estruturalmente enganadora a democracia assente em eleições, que serviriam para esconder o domínio da classe burguesa sobre o resto da população.
Mas parte da extrema-esquerda continua a pensar assim, embora não o diga abertamente. E a extrema-direita não anda longe da rejeição da democracia liberal, dando a entender que as eleições são um gasto inútil.
As democracias iliberais estão a crescer no mundo. Por isso temos que ter cuidado. Ou seja, temos de estar conscientes de que a chamada democracia pluralista e liberal é a única que respeita a liberdade e os direitos humanos.
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