Francisco Sarsfield Cabral
Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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Indústria moderna

30 jun, 2025 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


A indústria moderna, tal como a agricultura, produz mais do que no passado, mas com muito menos gente. É perigosa a ilusão que poderíamos regressar às grandes fábricas.

Foi notícia na semana passada que há 50 anos o sector da indústria valia mais de um terço do Produto Interno Bruto (PIB) português. Em 2024 o contributo do sector industrial foi de apenas 13,5% do PIB.

É uma desgraça esta aparente desindustrialização do país? Não é. Em valor absoluto, a indústria portuguesa produziu mais no ano passado do que há cinquenta anos, só que com menos pessoal trabalhador. Não há desindustrialização, há uma indústria diferente.

Aconteceu à indústria transformadora aquilo que antes vimos ocorrer na agricultura – muito menos gente no sector, mas cresce o produto agrícola.

Comentando o facto de na China, entre 2013 e 2023, terem saído da indústria cerca de 20 milhões de pessoas, o Fundo Monetário Internacional afirmou: “trata-se do normal resultado de um bem sucedido desenvolvimento económico”.

Mas ainda muita gente alimenta a ilusão de que um retorno à era das grandes fábricas, com centenas de operários significaria o regresso à felicidade económica. É o caso de Trump, por exemplo, e das suas medidas protecionistas.

Na década de 1970 um quarto dos operários americanos estavam empregados na indústria. Hoje são menos de 1 em 10. Mas das unidades fabris dos EUA sai hoje o dobro do produto que saía há meio século.

As fábricas da indústria moderna são tecnologicamente avançadas e capital-intensivas, geridas por um pequeno grupo de engenheiros e técnicos. Recordo que, há décadas, um empresário português falava da indústria portuguesa, que ele conhecia, e alertava para que as unidades fabris eram agora altamente automatizadas e por isso empregavam pouca gente.

O semanário britânico The Economist dedicou um número recente ao que chamou a ilusão industrial. É uma leitura aconselhável, sobretudo para quem, entre nós, defende o regresso da indústria. Mesmo que ela regresse, não regressará com os antigos empregos.

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